Sexta-feira

Publicado em Contos

Depois de anos ela sabe que não adianta exigir muito: ele vai continuar não pensando nela enquanto trabalha(desconfiava seriamente de que não pensasse em momento algum) ; ela vai continuar não sendo prioridade, e vai continuar entendendo (e apoiando, porque é melhor pra ele),aceitando e apoiando mesmo que lhe seja cruel essa realidade; ele vai seguir só sendo carinhoso quando achar que já não tem a preferência. Sentir a distancia é mesmo difícil. “É complicado perto também”, diz a si mesma tentando se auto-confortar ouvindo um cd da banda que ele adora enquanto se veste pra ir ao cinema com a amiga, porque ir sozinha ver o filme que ele disse ser o deles seria um fim de carreira lamentável como lhe disseram certa vez.

Jeans apertado, decote insinuante e salto alto. Maquiagem suave. Gloss na boca cheia. Cabelo escovado. Espelho e sorriso. Ele não vai estar lá pra lhe dizer que está linda. Some o sorriso pra se abrir novamente quando o celular toca lhe dizendo que a noite não vai ser tão dor de cotovelo assim. Ela sabe que está linda.

O filme começa e na tela a vida dela vai passando de maneira cruel. Ela se sente cansada de estar sempre esperando por ele e seu bom humor irritante que lhe arranca os melhores sorrisos; de saber o humor dele pelo mero “bom dia”… Filme clichê. Repleto de elementos batidos e com um enredo cheio de buracos que seu cérebro reconheceu, mas que também lhe fez esquecer rapidamente porque o filme é lindo e ele lhe disse ser o filme deles. E daí que o filme tem um enredo hipotético absurdo? É o filme “deles”! Precisava mesmo ser hipotético e absurdo. Sorri pensando no que não é hipotético e absurdo em sua vida, ou no mundo.

Ao sair meio boba do cinema olha o céu e a lua cheia lhe dá a idéia de que a noite só começou e que ela está linda. E que a lua é uma lembrança constante do jeito como ele passa a mão no cabelo e sorri com cara de canalha sabendo que ela lhe observa escondida. “Besteira! Ele sempre teve um ego enorme… e eu sabia disso.” Mas não dói menos o conhecimento prévio da aversão dele por compromisso e nem lhe faz querer estar menos com ele. Se ao menos ele morasse perto! Mas nem isso sua tendência para o impossível lhe permitiu.

Lembrou com um sorriso tímido da última vez que havia beijado sem querer que fosse a boca dele a calar a dela. Antes de conhecê-lo. Não lhe restava dúvidas. O carinha com quem ela estava naquele cinema até podia ser legal, mas ela não podia, mesmo querendo, e ela queria, deixar que aquele carinha fosse mais que uma noite. E o carinha só entrou na história porque seu amor próprio gritava. Só apareceu porque ele sumiu sem deixar rastro e sem despedidas. Outro no dia de ver o filme deles era o seu jeito e feri-lo. Nem se deu conta de que ele nem saberia.

Pensou no que dizer ao outro para sair de lá o mais rápido possível. Sempre foi boa com desculpas. Às vezes ela própria acreditava nos compromissos inadiáveis e urgentes. Pensou em dizer qualquer bobagem. Só pra ver se o outro acreditava. Boa e velha rinite alérgica. Sinusite. O outro lhe envolve pela cintura, lhe diz que está linda, e cola a boca na dela calando a desculpa antes de sair.

Ela fecha o olho e beija o amante distante outra vez.