no meu winamp

Publicado em Uncategorized

Precário, provisório, perecível;
Falível, transitório, transitivo;
Efêmero, fugaz e passageiro
Eis aqui um vivo, eis aqui um vivo!

Impuro, imperfeito, impermanente;
Incerto, incompleto, inconstante;
Instável, variável, defectivo
Eis aqui um vivo, eis aqui…

E apesar…
Do tráfico, do tráfego equívoco;
Do tóxico, do trânsito nocivo;
Da droga, do indigesto digestivo;
Do câncer vil, do servo e do servil;
Da mente o mal doente coletivo;
Do sangue o mal do soro positivo;
E apesar dessas e outras…
O vivo afirma firme afirmativo
O que mais vale a pena é estar vivo!

É estar vivo
Vivo
É estar vivo

Não feito, não perfeito, não completo;
Não satisfeito nunca, não contente;
Não acabado, não definitivo
Eis aqui um vivo, eis-me aqui.

Lenine – Vivo

Não empresto!

Publicado em Crônicas

Mulher é um bicho muito estranho. Ta que eu adoro ser mulher e ter milhares de opções de roupas e sapatos, mas ficar mudando de bolsa pode dar trabalho. A minha mãe pediu a minha bolsa emprestada porque combinava com o sapato dela e eu, muito generosa, emprestei. Foi aí que o dia começou a desandar.

Só porque eu tava esperando uma ligação importante, saí de casa e esqueci o celular. Depois de trabalhar a tarde inteira no estágio, ligo pra o meu pai amado ir me buscar, e, já conhecendo os hábitos dele, liguei e só desci cerca de vinte minutos depois.

Fiquei na rua esperando mais quarenta minutos em cima do salto e nada dele. O sol começou a ir embora e a noite já ia alta quando eu vejo o “Doze Anos” e resolvo ir pra casa de ônibus mesmo. Entro, passo pela roleta e lógico que estava lotado. Começo a procurar a carteira de estudante e advinhem quem não estava na bolsa?!?!!? Ela, a minha adorada carteira carregada de meias passagens nos transportes coletivos.

Em pânico e morrendo de medo da vergonha iminente que eu ia passar quando dissesse ao motorista que não tinha com o que pagar, lembro que eu sempre podia pagar a passagem inteira e sorrio aliviada ao ver dentro da bolsa a minha carteira, que abro e TCHAM! Vazia, salvo pela nota fiscal da locadora e da livraria. Então lembrei de que na minha outra bolsa estavam a carteira e o dinheiro. Demais, né?

Cara no chão, respiro fundo enquanto o bêbado – sempre tem um bêbado – me olha e começa a berrar “a madame não tem dinheiro pra pagar o ônibus! Tadinha, tão gostosa e lisa, se sentar do meu lado eu pago a sua passagem, mas você tem que ser simpática e deixar eu passar a mão na sua bunda”. E todo mundo me olhando , inclusive o motorista, com cara de nenhum amigo e como se eu tivesse matado alguém.

Sim, eu queria morrer, jamais torci tanto para sofrer um acidente grave de ônibus e realizar assim a profecia que Albino fez – mas isso é outro post- e entendi o impulso suicida no ato.

Sim, eu estava achando ótima a idéia de pular pela janela na Frei Miguelinho em horário de pico.

Como Deus é mãe, uma mocinha que mora perto da minha casa – com quem eu nunca tinha conversado muito profundamente – veio em meu auxilio e pagou a minha passagem. E é ótimo saber que ainda existe gente solidária no mundo. Hoje, na minha lista de pessoas preferidas estão inclusas aquela menina e o homenzinho que deu um cascudo no bêbado.

Lições importantes que aprendi hoje:

  1. Não empreste a sua bolsa a sua mãe, jamais. Aliás, bolsa entra para o rol dos inimprestáveis, e não duvide, se você teve uma experiência ruim com coisas emprestadas, será recorrente. Emprestar algo e devolverem sem te causar problemas é a exceção, não a regra;

  2. Não saia de casa sem celular; jamais;

  3. Sempre tenha o suficiente para uma passagem de ônibus; e,

  4. Se você está bêbado, eu sou gostosa.- não resisti-

Ps. Cult – painted on my heart.Clica aqui ou no tcham! A música do post abaixo é a da trilha sonora de “Curtindo a vida adoidado”.

Ela & Ele

Publicado em Contos

Ela sorria fácil. Ele precisava mostrar que ainda sabia sorrir de vez em quando.

Ela chorava com filme de cachorro. Ele ainda assim era mais sentimental.

Ela não gostava que saíssem de sua presença tristes ou zangados. Ele não dava segundas chances a ninguém.

Ela acreditava não controlar nada. Ele lhe ensinou que se não controlasse a própria vida a vida lhe controlaria.

Ela gostava do Saramago. Ele gostava de Goethe.

Ela se perdia nela mesma. Ele encontrou o caminho pra ela.

Ela bebia Coca-Cola. Ele só tomava vinho seco.

Ela, humanas. Ele, exatas.

Ela entendia que o Rick era altruísta. Ela achava fraco.

Ela estava sempre cercada de gente. Ele era naturalmente ranzinza.

Ela se apaixonava por movimento. Ele não sabia dançar.

Ele sabia exatamente o que queria. Ela não fazia idéia.

Ele não gostava de dirigir. Ela achava inconstitucional ela dirigir com ele no ‘carona’.

Ele gostava do Kubrick. Ela achava que “Curtindo a vida adoidado” era um clássico de sessão da tarde que não perdia nunca.

Os dois achavam uma afronta cachorro quente com purê de batata.

O amor só perdura quando há acordo quanto às questões fundamentais.