Sobre o Concurso

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Quando tudo voltar ao normal, provavelmente vou escrever sobre tudo o que ta dando errado esse mês. Seguinte pessoas:

A partir de amanhã, estou na exclusão digital. E esse é um assunto do post, a razão de ficar sem internet. De qualquer modo, posto agora os textos da quarta rodada pra tentar não ter tanto prejuízo assim em termos de concurso.

Boa Sorte!

ps. lembrando que a votação do terceiro round estará aberta normalmente até amanhã – 25/01- e estejam de parabéns todo mundo que faz aniversário durante a minha exclusão digital.

TEXTO 7

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A carteira

– Senhor, a carteira!

Essas coisas só acontecem comigo quando estou atrasado para o serviço. Pior é que eu já cheguei fora do horário ontem. O supervisor vai querer comer meu fígado hoje. Já posso ir me preparando pro esporro. Mas eu tenho que fazer isso. Eu podia apenas ficar com o dinheiro do cara e dane-se a carteira com os documentos dele, mas eu não sou assim.

– Senhor, a carteira!

Ta certo que ele está um pouco distante, mas não é possível que ele não esteja me ouvindo. Será que ele é surdo? Só me faltava essa.

– Senhor, a carteira!

A partir de amanhã vou começar a fazer uma dieta, caminhar todo dia, o que for. Só não da pra ficar assim. O senhor deve ter uns 20 anos a mais que eu. Não está correndo e mesmo eu andando num passo acelerado não estou conseguindo alcançá-lo. E nem pensar em correr no meio da rua até ele. Eu prefiro morrer a fazer esse papel de ridículo.

– Senhor, a carteira!

Maldita carteira. Devia ter deixado ela lá. Espero que ao menos ele me dê uns trocados como recompensa. Pelo menos assim posso comprar um refrigerante e matar a sede que essa perseguição ta me causando.

– Senhor, a carteira!

Será que ele não percebeu ainda que derrubou a carteira na hora que pagou o restaurante? Que droga. Estou atrasado.

– Senhor, a carteira!

O semáforo! É agora. Ele parou. Vou conseguir alcançá-lo!

– Senhor, a carteira!

Ainda um pouco distante. Mas vai dar tempo. Vou alcançá-lo, entregar a carteira e dar no pé para tentar chegar no horário no serviço.

– Senhor, a carteira!

Droga, ele resolveu atravessar a rua mesmo com o semáforo fechado. Já está no meio da rua. Que droga. Mas já estou perto o suficiente. Agora ele já consegue me ouvir, não é possível.

– Senhor, a carteira!

Ele me ouviu. Percebeu que não está com a carteira. Parece feliz com a minha boa ação. Talvez até me dê uma recompensa.

– Senhor, a carteira.

Quase lá. Cinco, seis passos, talvez.

Mas peraí. Não!

– Senhor, o ônibus!

Droga! Vou chegar atrasado a toa…

TEXTO 8

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A História de Nadamundo

Até hoje não se sabe ao certo como foi que ninguém, absolutamente ninguém na cidade desconfiou que aquele homem, ou antes aquele rapaz, ou antes ainda, aquele menino não possuía as faculdades mentais “normais”. Justo ele, que sempre fora absurdamente saudável – na ficha hospitalar de nº 1.378 sequer constavam carimbos comprovando as vacinações obrigatórias – pois, mesmo tendo sido abandonado pelo pai antes de nascer, não se ouvira queixa alguma de sua pobre e infeliz mãe; ao contrário, sempre que possível, ouvia-se as pragas das vizinhas, com seus filhos com caxumba, catapora e todo esse dicionário de moléstias infantis de quase sempre começam com “c” ou “s” e quando os médicos não têm o que dizer, sempre se saem com uma palavra geralmente longa e terminada por “ite”, pra não repetirem o já enfadonho “-Não se preocupe, senhora, é apenas uma virose; em uma semana ele já estará recuperado!”.

Mas eis que agora, em seu velório, as pessoas se desnudaram de seus maus-caráteres e desandaram a torcer narizes e olharem de lado ou mesmo balbuciarem palavras ofensivas diante do fato estarrecedor da viúva estar sendo consolada justamente pelo amante, sabido e ressabido nos quatro cantos, menos pelo morto, corno, chifrudo, indiferente a tudo e a todos, absorto como se requentado pelas velas derretentes próximas aos seus ouvidos. Era um tal de pobre homem daqui, um coitadinho dali e um só ele é que era feliz dacolá; Os evangélicos reclamavam o direito dele ser um “irmão”, enquanto católicos lembravam que ele fizera a 1ª eucaristia, mesmo sem nunca haver decorado os 10 mandamentos. Houve quem dissesse que já o vira, por diversas vezes, madrugada adentro, perambulando pelo bairro das casas de “caridade”; outros exaltavam sua ilibada reputação, como digna de nome de praça ou, pelo menos, um canteiro bem ajardinado.

Na hora em que o féretro entrou pelo portão principal e único do cemitério, a multidão esparramada, que encarava todo enterro como evento social da mais alta importância, para poderem assim apresentar seus óculos escuros que cobriam quase todo rosto sem uma lágrima sequer, ou a humildade de caminharem dois ou três membros da família, enquanto outros dois vinham atrás, num carro no final do cortejo, ficou quase absorta, entre o nada e o coisa alguma a dizer; houve quem perguntasse: “-Morreu de quê?”; e quem respondesse: “-Parece que foi de repente!”, ambos se dando por satisfeitos.

Sabe-se, com certeza, que tinha dois ou três amigos, dos quais pelo menos nunca chegou a esquecer os nomes; o resto das pessoas eram para ele como pedaços de pau, pedras, ou mesmo nada; estranho portanto, que tanta gente fosse à sua despedida final. Os amigos estavam lá, cansados de responder, minuto a minuto, qual era o seu nome,em que trabalhava, se não tinha mais ninguém da família, se a viúva não tinha vergonha, ao que concordavam balançando afirmativamente a cabeça pra cima e pra baixo ou dando de ombros e franzindo a boca e mexendo sobrancelhas.

Por volta das cinco da tarde, a mãe, constrangida por todo o alvoroço que foram as últimas horas, vira-se para um dos amigos do filho falecido e indaga-lhe: “-Por que razão ele sempre aceitou tudo, nunca brigou com a mulher, com os colegas, com professores, comigo, porquê jamais se revoltou contra todo tipo de humilhação e indignidades que sofreu durante sua breve existência?”. O Amigo tornou-se para ela e suavemente, reposicionando os óculos um pouco mais acima, no nariz (como quase todos os médicos costumam fazer quando vão descer do alto de sua condição de semi-deuses), respondeu-lhe: “-Só agora a senhora e alguns mais vêm perceber, seu filho era autista.”

12×8

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Essa semana foi interessante. Deu tempo de reler os textos do concurso. E deu pra meio que mudar de idéia quanto ao próprio concurso. Quando eu me propus a tocar pra frente a idéia do concurso eu pensei em 12 textos selecionados, sendo um pra cada mês do ano de vida do blog.

Quando eu comecei a ver uns textos, querendo acirrar a competição na fase em que só eu me divertia, reduzi os selecionados pra um número menor, de modo a implementar a criatividade dos possíveis participantes.

Acontece que oito não é um número com uma simbologia legal pra mim. E nem diz nada quanto ao blog. E tem muito estilo legal que não aparece ainda.

Daí: volta o número 12.

E tenho dito

Texto 5

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Um homem atormentado

Sentado na cadeira, suando frio, coçava as mãos e olhava o relógio a toda hora.

Estava atrasado, mas o medo era mais alto. As mãos suavam e a aflição tomava conta de seu corpo. A palpitação do coração podia ser ouvida do outro lado da rua.

Pensou em ligar para algum amigo para pedir conselho, mas sabia que não havia ninguém para ouvi-lo.

Algum parente? Sempre ouvira que a família é importante nesses momentos, mas naquela hora ninguém iria ajudá-lo.

Olhou o relógio novamente, sentiu que um século havia passado em um minuto.

Decidiu se levantar. Andou para um lado. Voltou para onde estava.

Resolveu sair.

As dúvidas o atormentavam. As pessoas na rua andavam alheias aos seus supostos problemas. Como podiam andar tranqüilas assim?

Olhou mais uma vez o relógio e viu um milênio em 10 minutos.

Passou por um bar e viu todos rindo. Passou por um salão de beleza e viu todas conversando alegremente. As pessoas agiam com hábitos normais, ignorando totalmente o que se passava com aquele homem.

Chegou até uma igreja.

Olhou e resolveu entrar para ver se achava as respostas para sua angústia.

Chegou perto do altar e encontrou uma mulher, de branco.

Sabia que não me desapontaria.

Com lágrimas nos olhos, viu em volta todos os amigos e familiares que foram convidados para o seu casamento.

Com apenas uma palavra de três letras todas as suas dúvidas, aflições e questionamentos se dissiparam:

– Sim!