Grace is gone

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Os filmes de guerra[bb] sempre foram freqüentes em Hollywood[bb], geralmente mostram o lado do soldado e não é comum que apareça o lado do drama da família que espera o seu ente que foi para as trincheiras. Quando acontece, é, via de regra, a família que o recebe vivo de volta são e salvo ao seu estilo de vida. Seja uma crítica a guerra ou não, Grace is gone[bb] não é assim.

O filme conta a história de um pai de família comum que recebe a notícia de que a esposa foi morta em batalha na guerra do Iraque[bb]. Ele se vê sozinho em definitivo com as duas filhas que já estão sofrendo a falta da mãe pela guerra que não entendem, e ele fica tão desesperado que decide levar as crianças a um parque de diversões, até conseguir contar a verdade para as crianças.

O filme de James C. Strouse foi bem recebido no Festival de Sundance, recebendo o prêmio de melhor roteiro e prêmio do público de melhor filme dramático. John Cusack[bb] é o núcleo do filme. Tem um desempenho tão carregado de desespero e agonia que poderia ser qualquer pai de família que perdesse a esposa amada em qualquer situação. O brilhantismo de Cusack é tal que Grace, que não aparece no filme nem em flashback, parece estar lá, fazendo falta para o marido que é um pai cuidadoso e para as filhas e sente necessidade de que Grace lhe ajude a suportar o fardo. Dá pra sentir o amor entre os personagens, as dificuldades que eles vão enfrentar. Cusack conseguiu passar o desespero, a dor, a agonia de um homem machucado em cenas que a indústria do cinema costuma desprezar pela banalidade, como quando ele explode com o irmão e quando chora sozinho no quarto que lhe pertencia quando solteiro na casa da mãe. O sofrimento é crível e real, poderia ser com qualquer um.

As cenas são simples, o que joga a responsabilidade de segurar o filme no talento dos atores que não deixam a desejar. A minha cena preferida é a que Stanley dá cigarro para a filha de 12 anos, vivida pela delicada Shélan O’Keefe, que rouba algumas cenas com a irmã, personagem da Gracie Bednarczyk, que dá leveza e inocência ao filme quando o fica difícil a agonia de Stanley. A cena é de impacto e quando se juntou com a brilhante trilha sonora de Clint Eastwood[bb], que lhe valeu indicação para o Globo de Ouro e o prêmio da sociedade dos críticos, admito que foi difícil segurar as lágrimas, a emoção aumenta em progressão geométrica e culmina no fim do filme de modo sincero e elegante.

Grace is gone é um filme triste, um drama familiar sem grandes explosões, carros, tiros, traições e outros elementos dos pipocões da vida. É um filme sobre grandes perdas, família e união com um realismo que chega a incomodar, dá pra sentir que conhecemos Grace, e não é estranho que a dor deles também seja a nossa.

Invencível (Invencible, 2006)

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Dirigido por Ericson Core e com roteiro de Brad Gann, Invencível conta a história real de um Vince Papale, grande fã de futebol americano que depois de ser demitido, abandonado pela mulher que levou tudo de dentro de casa e deixou um bilhete dizendo que ele nunca seria ninguém na vida, consegue entrar na escalação do seu time do coração, o Philadelphia Eagles.

O filme, estrelado por Mark Wahlberg, tem a assinatura da Disney Pictures, e é um dos filmes mais inspiradores que vi esse ano. Bem cuidado, com uma fotografia em tons de sépia, tem cenas bem cuidadas e com qualidade técnica invejável que quase deixa a própria mensagem do filme em segundo plano e consegue englobar a trilha sonora, a fotografia, a atuação num todo único e indissolúvel que ganha ritmo a ponto de fazer o espectador querer mais. A história rendeu um roteiro criativo e com um ritmo que foi bem aproveitado na direção. O filme passa a sensação de um bom drama humano, fala de gente comum que conseguiu ser grande e superar todos os revezes de sua vida, que não são diferentes de batalhas que setenta por cento da população enfrenta.

A Disney é carimbada em trilha sonora, e quando apareceu o logo no início do filme eu já sabia que podia esperar sucesso. E não me desapontei. A trilha sonora dita o ritmo do filme e encontra uma bela parceria com a brilhante edição de imagem.

Quanto ao elenco, Mark Wahlberg ( Os Infiltrados, Boggie Nights) é um ator que cresce a cada filme e vem se destacando a cada trabalho ainda que esteja sempre usando e abusando de músculos. Ficou até parecido com o Papale real, o que se observa nas fotos originais ao final do filme, e soube dar vida ao personagem como se ele sempre fosse e o jogo de cena com Greg Kinnear (Pequena Miss Sunshine) é muito bem colocado. A mocinha do filme, vivida pela bela e graciosa Elizabeth Banks (O Virgem de 40 anos) também ajuda na evolução dos personagens, pois Banks está impecável como a única torcedora dos Giants, a única em uma cidade apaixonada pelos Eagles, e ela é exatamente o mote para abordar o tema da relação entre torcidas rivais, embora não aconteça qualquer cena de violência além das inerentes ao futebol americano, até por ser uma produção de um estúdio aclamado por jogar no mercado filmes para toda a família.


Invencível está longe de ser um pipocão, não tem grandes explosões, carros, tiros ou cenas que a física deixe e explicar. É um filme sobre pessoas que se superam e mostram a que vieram e pra isso se apóia em talento. De todos os envolvidos.

Não achou? No Submarino tem!

A Casa dos Maus Espíritos

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Vincent Price (Museu de Cera, Edward Mãos de Tesoura, O Corvo, Força Diabólica) vive um milionário que, pra se vingar de sua esposa (Carol Ohmart), reúne diferentes pessoas escolhidas meticulosamente em uma mansão assombrada prometendo dez mil dólares para quem ainda estiver vivo ao amanhecer dentro da casa.

O que vale observar é que o filme, rodado em preto e branco, é um dos filmes sagrados do cinema de horror que levanta a bandeira dos fantasmas, tendo servido de inspiração também por Hitchcock quando gravou Psicose, dado que o diretor Willian Castle conseguiu com A Casa dos Maus Espíritos um sucesso inacreditável para um filme que só custou cento e cinqüenta mil dólares. Castle ficou conhecido por sua desenvoltura em campanhas de marketing para seus filmes, tendo chegado a oferecer apólices de seguro para o caso de alguém morrer de medo durante as projeções de seus trabalhos.

Quanto ao filme, faz jus aos elogios que recebe. Possui os caracteres típicos do gênero, inclusive sangue caindo de manchas no teto, esqueletos, gritos agudos de mocinhas indefesas e histéricas, cabeças monstruosas e afins mas em situações que para os fãs dos efeitos especiais de hoje são risíveis, mas para a época impressionam pela qualidade. Outra característica da época do filme é a interpretação de excesso, sendo por vezes forçada dada a raridade de recursos de cena e de imagem do cinema no período do lançamento.

Vincent Price é o carro chefe da produção e está impecável como o empresário cínico que quer se ver livre da mulher, sua quarta esposa, também cheia de ardis contra o marido por questões financeiras e em conluio com o amante, um dos convidados para a festa do terror. O papel de Price foi revivido caricatamente por Geofrey Rush em um péssimo remake do filme produzido em 1999, do diretor Willian Malone (feardotcom), mas não conseguiu grandes feitos. O remake utiliza alguns recursos do original, mas atualiza certos pontos do filme, como a recompensa, que passa a ser de um milhão de dólares, e o nome dos anfitriões, que passam a ser chamados de Sr. e Sra. Price numa clara referencia a Price, principal responsável pelo clima angustiante do filme. Cinema de Horror com classe, como o próprio Price.