Cachos morenos

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Ele a viu certa vez por ter se atrasado. Ela e seus cabelos castanhos. E ele soube, num átimo, que a felicidade estaria sempre envolvida, ainda que minimamente, no jeito como aqueles cachos pouco definidos coroavam o rosto da dona do sorriso que se escondia atrás de sua mão. Jamais entendeu a necessidade dela de esconder o riso.

Mas era assim que ela era. Ela e o seu jeito que crescia os olhos para alguma coisa fofa e absolutamente inútil, e o jeito como o abraço dela tinha cara de lar. Ela e o cantarolar desafinado insuspeitado, os passos ridículos de dança, os cachos morenos jogados no travesseiro de manhã e ela nunca querendo levantar. O cheiro do cabelo dela no travesseiro a noite, o som da risada no celular.

E doía quando ela não estava, a presença dela tinha tanto dela que ela lhe dizia que saísse com os amigos pra que pudesse se entupir de porcaria vendo a fantástica fábrica de chocolates de pijamas e meia hora depois ele lhe batia a porta e a visão dela de rabo de cavalo e máscara para o rosto enquanto bebe a Coca Cola infernal que lhe dói o estômago era sempre uma visão linda. E ele reclamava, dizia que não bebesse tanta coca cola, e ela he oferecia travessa um sonho de valsa e findava adormecendo por força de cafunés que ele lhe fazia. Meia hora depois ela pulava do sofá pra o banheiro e descomia tudo e chegava na sala pra lhe perguntar como ele podia deixar ela comer tanta porcaria.

A foto dela na mesa sorrindo atrás dos óculos escuros: a boca fresca da foto de madrugada. Ela sempre tinha um jeito tão dela de ser ela que ainda estava na sala mesmo tendo ido embora a muito. Ainda lhe pesava na cintura mesmo ja tendo descido daquele pulo muito tempo antes. Ainda lhe acordava de madrugada muito depois de não estar mais no apartamento. A presença dela ainda lhe era nítida. Tanto ou mais que a tatuagem do sorriso dela com aqueles cachos morenos no seu peito.