Letícia Carneiro

Publicado em Uncategorized
Gente, olha só!
Temos atrás eu fiz um concurso aqui de aniversário do blog, o Concurso Cultural 1 Ano Insone. A vencedora foi uma moça chamada Letícia Carneiro, que eu soube essa semana que veio a falecer. Em homenagem a ela, nossa escritora campeã, estarei republicando o conto vencedor.

A Casa da Bruxa

Já tinha ouvido falar que aquele prédio era mal-assombrado, mas nunca acreditei nas lendas urbanas que eram contadas. Era um colégio de freiras, que eram muito rígidas com os alunos. Talvez daí tivessem surgido tantas histórias sobre aquele colégio.

Aos dez anos ouvi falar que havia uma loira no banheiro. Diziam se tratar de uma mulher que foi assassinada e que aparecia no banheiro caçando suas vítimas. Aos doze anos ouvi falar que a estátua da fundadora do colégio se mexia. Alguns diziam que ela piscava, outros diziam que ela mexia o pé e havia ainda os que contavam já ter visto a estátua chorar.

Mas foi aos catorze anos que conheci o que os alunos mais velhos chamavam de “a casa da bruxa”. Era uma casinha de madeira que ficava escondida no bosque. Da casa era possível ver a quadra poliesportiva e os quiosques em volta, mas de nenhum desses lugares é possível ver a casa.

Eu estava no meio da oitava série quando ouvi a história pela primeira vez. Diziam que lá habitava uma velha de cabelos longos e brancos, toda enrugada e curvada, que saía de tempos em tempos para assustar as crianças que teimavam em pisar em suas flores para olhar para dentro da casa e saber o que havia lá dentro.

O bedel dizia para as crianças que a história não passava de uma lenda, mas pedia para que elas não se aproximassem da casa. Era, afinal, apenas um depósito de ferramentas.

Num belo dia ensolarado, minhas três amigas inseparáveis e eu resolvemos entrar no bosque. Pegamos um copo e umas folhas de papel e fomos brincar de invocar espíritos, mesmo não acreditando na brincadeira. Estávamos concentradas, esperando algum espírito se comunicar conosco, até que, de repente, ouvimos um grito vindo da casa da bruxa.

Corremos para lá para ver o que aconteceu. Ficamos olhando de longe, sem pisar nas flores que rodeavam a casa. Não havia nada. Maria Aparecida, uma das amigas, resolveu saber de uma vez por todas o que havia lá dentro. Pulou as flores sem pisá-las e se aproximou da porta.

Nós, que ficamos longe, não nos atrevemos a chegar tão perto, mas a curiosidade era tanta que não nos mexíamos. De repente, Maria Aparecida encostou a mão na porta de madeira já envelhecida e a empurrou bem devagar. Não se via nada. Tudo era escuridão. No momento em que ela enfiou a cabeça por entre o vão da porta, eu olhei para as minhas amigas e saímos as três correndo apavoradas.

Eu não cheguei a ver nada, só a escuridão. No dia seguinte, Maria Aparecida não foi à escola. Estranhamos, já que se tratava de uma aluna assídua. Liguei para ela assim que cheguei em casa, mas o que ouvi foi uma mensagem gravada dizendo que aquele telefone não existia.

Na manhã subseqüente, fomos avisados pela diretora da escola que a aluna Maria Aparecida havia sido transferida de colégio. Minhas amigas e eu fizemos um pacto de nunca revelar o que aconteceu naquele dia na casa da bruxa. A verdade é que não só nunca mais tocamos no assunto, como nunca mais nos falamos.

Bem, eu cresci, naquele fim de ano mudei de colégio e nunca mais voltei lá. Aliás, nunca mais falei com ninguém de lá e não tive mais notícias das minhas amigas. De vez em quando tenho alguns pesadelos com o colégio, mas não com o bosque ou a casa da bruxa, mas com os corredores pintados de verde e o elevador medieval que funcionava com uma alavanca.

Um dia desses eu voltava da aula de inglês e resolvi mudar de caminho, passando em frente ao colégio. Parei de frente para o portão principal e fiquei olhando lá para dentro. Não pude deixar de ouvir algumas crianças conversando. Estavam contando histórias de terror. Contavam todas aquelas lendas urbanas que eu ouvira quando tinha sua idade. Uma delas então se levantou e começou a contar uma história sobre a casa da bruxa.

Dei uma risadinha discreta e continuei ouvindo a garotinha contar sua história. Devo ter ficado branca ao ouvir o final da história. A história não terminava com a bruxa que assustava as criancinhas, mas com uma menina que entrou na casa e desapareceu. À noite, disse a menina que contava a história, é possível ouvir o choro da garota que ficou presa dentro da casa da bruxa. Ela chora porque está procurando pelas amigas que saíram correndo, abandonando-a naquele bosque. As outras garotas ficaram de cabelo em pé, mas não tanto quanto eu ao ouvir a garotinha fechar a história dizendo: “diz a lenda que duas já se foram. Agora, só falta uma.”

Obladi, oblada

Publicado em Idiossincrasias

Andava faltando um colorido nessas postagens mais recentes, e como quem manda em mim sou eu, se o colorido não vem sozinho, a gente pega um monte de tinta e pinta mariposas azuis em tudo o que é lugar. Qualquer coisa que me faça dormir bem à noite.
E só por achar que já chega de tudo o que eu não tenho, por que o que eu tenho não assim horrível. Ao contrário: eu tenho o sorriso de dente torto mais lindo do mundo, uma flexibilidade invejável, péssimas idéias divertidíssimas, vários travesseiros e um pijama de coraçãozinho super fófis que super combinam com a coisa que mais me fez feliz hoje: BEATLES REMASTERIZADO, que eu sou uma pessoa mega blaster massa demais deixei disponível para download aqui, é só a primeira parte, próximo post sai a segunda.

De tudo o que me alegra, pijamas e meias combinando – ou não – têm um lugar de destaque. Eu realmente não entendo a razão de não me deixarem sair de casa com eles ou a verdadeira razão de tanta gente preferir sapatos desconfortáveis, roupas desconfortáveis em uma freqüência assustadora. Eu, nos meus momentos de maiores felicidades estou sempre de pijamas ou vestidos super velhos que eu comprei em feirinhas de praias mal cortados e vagabundos. E é esse o meu segredo de ser tão magistralmente feliz estando em casa: a vagabundagem, essa amiga maluca. Eu sou uma pessoa liberal e o único lugar onde eu posso estar à vontade sem ser presa é na minha casa. E eu adoro muito estar em casa. E sou feliz com os meus pijamas confortáveis de pequenos corações e meias combinando.
E hoje eu tirei a noite para ficar em casa, fazendo coisa nenhuma e nem me ocorrendo a segunda fase da OAB. Hoje eu queria só fazer nada e aí achei os Beatles remasterizados digitalmente e aí é claro que eu fiquei a mais feliz das criaturas cantando todas as músicas no meu inglês venusiano, mas principalmente a mais maravilhosa de todas. E é assim que eu levo a vida, dançando Beatles de pijamas no quarto, cantando com a escova de microfone e extraordinariamente feliz.
Só pelos pijamas, meias, e Beatles.
Mas talvez o filme de Bette Davies que eu vi mais cedo tenha alguma coisa a ver com isso. Obladi, obladá pra vocês todos e vamos todos viver felizes para sempre em supermercados.
Em tempo: Álesson, do Inincol, me deu a melhor idéia do mês: o site Skoob: uma comunidade de leitores onde se permite e estimula a troca de livros. Além da vantagem da troca de livros, ainda dá pra manter um cadastro dos seus livros, de modo que você não vai mais emprestar o livro pro seu cunhado mala e esquecer e acabar perdendo livros. Vão lá, se cadastrem e me adicionem todos para sermos todos amigos nesse Orkut mais legal.



De como eu virei eu – a instabilidade, a volatilidade e a fantasia que não morre nunca

Publicado em Crônicas, Idiossincrasias

Ontem eu percebi que havia posto em prática uma série de pequenos gestos sobre a minha sempre planejada mudança de hábitos. Desse modo, percebi que eu não comia porcaria tinha um tempo, e talvez em razão disso eu esteja dormindo melhor. Ontem eu resolvi que ia fazer boxe chinês, já que eu acho que o boxe normal desperdiça muitos bons chutes não usando as pernas. Ontem eu comecei um texto sobre a profunda felicidade que senti quando saí do primeiro treino, morta de cansada e toda quebrada de tanto tempo no sedentarismo.
Ontem eu finalmente consegui sentir aquela sensação de prazer do cansaço que acomete as pessoas depois do exercício físico e eu só conhecia de ouvir falar. Mas aí nem rolou o boxe chinês, e hoje eu só consigo pensar em tudo o que eu ando sentindo falta. É difícil ter vinte e quatro anos e não ter a própria renda. É difícil e eu sei que é por uma causa maior: o meu tão sonhado concurso público de salário que banque os meus sonhos. Eu sei que eu vou conseguir, que eu só preciso de mais concentração. Mas é ruim adiar os sonhos, e é pior quando não se tem mais a certeza se os sonhos são mesmo meus.

Hoje eu só consigo fechar os olhos e lembrar que seja lá qual for o concurso que eu passe, estarei condenada a uma série de ternos e sapatos fechados e cabelo em corte sóbrio quando o meu jeans rasgado pelo uso, minha camiseta branca do WWF e havaianas me fazem tão mais feliz do que o Direito jamais fez. Hoje eu só consigo desejar minha faculdade inútil pra mim, só sei sonhar com o mar azul das Ilhas Fiji onde eu só poderei ir a passeio depois que eu passar no meu concurso que vai chegar, eu tenho fé e talento, mas onde eu queria trabalhar vendo se os vulcões afetaram e afetarão muito a geografia marinha e os golfinhos estarão em perigo.
Hoje eu quero sentir o vento o meu rosto e que ele me faça rir como há muito tempo ele não faz, não que falte vento, mas falta a minha liberdade para contemplar com a paz de espírito necessária. Hoje eu só quero tomar banho de chuva sem ligar pro fato da camiseta ser branca. Hoje só dá pra escrever sobre a falta que me faz sentar num banco da praça do Pax pra discutir questões importantíssimas e absolutamente inócuas com os amigos que eu já não vejo e nem por isso deixo de sentir falta. Hoje eu quero planejar o meu romance, quero falar com as editoras e discutir projetos de capa. Hoje eu quero curtir as ondas do meu cabelo e lamentar a definitiva – não, não ficou feio, na verdade ta linda e eu preciso fazer de novo – só por que os meus cachos morenos sempre me fizeram muito bem e me tornaram mais eu.
Eu não consigo hoje achar que me tornei uma pessoa que não devia, apesar da sensação de que por mais que eu não possa pagar o boxe chinês eu já sei dar soco e chute e só lamente não poder bater em toda essa frustração por ela ser imaterial a despeito das reações físicas que ela me provoca.
Hoje eu só consigo sentir falta de dançar a música que toca na minha cabeça de vez em quando; só sei querer ser oceanógrafa mesmo sem saber nadar; ter minha banda de jazz mesmo sem saber tocar/cantar/o que seja. Hoje eu só consigo me perguntar quando eu parei de fazer um bolo e chamar as amigas; só sei lamentar que eu não tenho mais o sol se pondo que o amigo de infância de quem eu mais sinto falta me fez, e lamento que quando a gente se encontrou de novo já fazia tempo demais pra recriar o laço. Hoje eu só sei sentir falta de morar na mesma cidade do namorado, porque ele tem um abraço excelente que cura qualquer coisa.
Hoje eu só sei ficar triste por não ter puxado fumo em Woodstock, não importando que a minha mãe nasceu em 69. Hoje eu só consigo sentir falta do meu gato Eufeidolócio que morreu na sua primeira expedição fora de casa. Eu estou devendo um texto alegre aqui, mas não vai dar pra sair hoje. Hoje eu só sei pensar em como foi que o colorido desbotou. Eu li hoje sobre coisas urgentes num poema que eu não sei de quem é. E digo a vocês que me lêem, se alguém ainda o fizer, que o poema tem razão e é mesmo urgente encontrar novos raios, rios e manhãs claras. E eu não sei como eu passei tanto tempo sem dar pela falta que eu sinto das minhas amigas de muito tempo que eu só conheci agora.
Hoje eu só sei procurar bolsa pra estudar fora, perto do mar, porque eu sempre fui do mar e do céu e estudar direito sem ver as pessoas me mata um pouquinho todos os dias e me rouba alguns centímetros sempre que eu me privo de alguma coisa pra estudar. “Deu meu coração de falar esperanto na esperança de ser compreendido”. Só sei sentir falta de tudo o que eu não tenho e me dói saber que eu não sei como foi que eu deixei de ser a menina que queria ser astrônoma quando, na verdade, eu nunca deixei de olhar pra cima.

Para Amélia.


Happiness (is a warm gun, momma)

Publicado em Idiossincrasias
Eu quero escrever sobre a minha fúria. Mas não consigo encontrar as palavras certas que me façam ver satisfeitas a minha necessidade de desabafo e a minha fúria, simplesmente. Entre as várias razões, por não ter exata certeza da real razão da intensidade da minha raiva. Acho que é por não conseguir ser uma pessoa de mentira, não é de mim usar máscara. Eu sou só eu sempre e não consigo fazer de conta que não me importo. Eu sei o que eu quero, e é uma coisa tão simples, tão básica.
Eu quero ser livre. Eu quero fazer coisas pelo sentimento de dever cumprido, sem esperar um “obrigada” mínimo. Mas é uma m*rda porque nem isso eu tenho. E me irrita. Não só pelo fato de ser obviamente injusto e desagradável, mas pelo fato de que quem não fez nada, só auto-promoção consiga todos os louros e benefícios de ser filho único quando não se é.

Tenho problemas com a minha própria fraqueza, talvez eu seja mais cobrada por esperarem mais de mim, mas não é exatamente uma coisa legal saber que se desaponta alguém. E me irrita mais ainda eu me importar tanto com o que pensam de mim, mesmo sendo a minha mãe. Eu estive sempre sendo comparada com alguém, e sempre me irritou. No começo era com a minha prima “perfeita”, a sobrinha do meu pai que escreveu uma redação onde o time do meu pai empatava e mesmo assim era uma vitória. Aparentemente ela era muito boa em tudo e eu era uma droga que devia ser como ela, mas eu ganhava todos os concursos em que eu entrava – só de redação e poesia, eu sempre soube do meu eleitorado – e ela se revelou medíocre.
Fui criada querendo ser adulta porque criança não tem vez aqui. E não desenvolvi maiores vaidades já que era coisa de gente burra. Às vezes me pergunto como eu consegui chegar a idade adulta sendo criada por eles dois e irmã dos meus irmãos… Quer dizer, aqui só tem pessoas com uma clara personalidade esquizóide, não que eu esteja totalmente livre de danos: me esbagaço pra agradar pessoas que não se importam com ninguém, e não sabem confortar e nem apoiar e não tem respeito por ninguém e tudo o que acontece vira piada. Não entendo e nem acho graça de humor pastelão. Não gosto de chutar cachorro morto.
Talvez eu só precise melhorar a minha imagem, investir mais no marketing pessoal, aqui em casa ser de verdade e honesto não leva ninguém a nada. Deixa pra la, no meu estado de fúria hoje qualquer duas palavras serve.