A rua da ladeira

Publicado em Contos, Crônicas
O Palhaço via a Moça passando pela rua as voltas com seus livros e mil pensamentos que lhe agitavam o cabelo moreno. Ele, cercado de pequenas crianças que lhe admiravam a habilidade de equilibrar bolas no ar em movimento, lhe sorri quando ela passa. Ela lhe sorri de volta e segue o seu caminho.
A noite chega e as estrelas se escondem atrás das nuvens carregadas. Ela senta na janela do quarto que dá para a rua bebendo o vinho que comprou para o natal. Fica ouvindo Zélia Duncan enquanto lê e conversa com o velho labrador chocolate.
O Palhaço, sentado em sua própria janela, vê a silhueta da Moça na janela contra a luz e lhe desenha a carvão no papel. A Moça da janela devaneia e ele deseja por um segundo entrar em seus pensamentos e saber o que lhe vai na alma; a moça do desenho lhe diz que não tarda a chover.

Há muito que a Moça e o Palhaço se batem na rua, e não me ocorre os dois personagens em uma rua que não seja uma ladeira. A Moça mora mais acima algumas casas, e o Palhaço consegue lhe ver os contornos de sua janela. Ela até sente que é observada, mas não consegue ver de onde, então se lembra de que sua avó lhe diz que é seu anjo da guarda.
O Palhaço coloca o desenho junto com os outros que fez dela, e sorri pensando que precisa de uma visão mais próxima para lhe acertar as curvas do desenho. Não sabe exatamente o que ela tem que lhe prende a atenção. Sabe, todavia, que tem certa curiosidade declarada pelo cheiro do pescoço dela e acha bonito o sorriso que não cabe mais dentes.
Ela gosta de quando ele lhe oferece uma margarida. Sabe que há um flerte e gosta. Mas tem medo de palhaços. E gosta de esperar a chuva. Que finalmente cai sem piedade na rua da ladeira de madrugada. Ela abre a janela e desce pela árvore para a rua, o vinho lhe dando uma vontade de dançar incontrolável.
O Palhaço vê que a chuva lhe molha o vestido florido e por alguns minutos lhe admira a valsa trôpega na rua. Ela não vê que ele se aproxima e ele lhe toma a mão num convite reverenciado a dança. Ela sorri. E os dois valsam na madrugada da rua da ladeira. Ela sente o cheiro de cigarro e malabares nele. Ele sente o cheiro de lavanda e canela nela. Ela lhe pergunta se fuma, ele diz que pelo motivo certo ele pára. Os dois vão se aproximando sem perceber, ela considerando o preço, ele percebendo o sinal delicado de sua face molhada.
O céu clareia por um raio e ela se assusta – moças de histórias são sempre assustáveis- e ele lhe diz que está ali e lhe segura as mãos. Ela sorri. E ele percebe que precisa arrumar um giz de cor para lhe desenhar o rosado do lábio. Ela sabe que é ele que lhe observa, e da distancia de uma respiração não lhe desvia o olhar, ele sabe que precisa conhecer a textura daquela boca molhada de chuva para o bem do seu desenho.
A valsa se inicia outra vez, ele lhe conduz pela rua deserta a música que só eles ouvem e a gira e quando ela quase lhe foge, ele a puxa para si e a sua boca encontra a dela. Quando o segundo raio caiu, ele já sabia que o gosto de fruta fresca lhe lembraria sempre de beijos bem dados.