PLC 122/2006 – Eu quero acreditar

Publicado em Crônicas, Idiossincrasias


Eu tenho cabelo castanho escuro. Tenho olhos negros. Tenho lábio cheio. Tenho pele dourada do sol do nordeste, minha primeira paixão em qualquer lugar. Eu gosto de rock, de axé, de samba, de bossa nova e não me sinto menor por dançar funk se tiver tocando e me der vontade. Meu sobre nome não é nobre. Estudei um curso dito de elite e me irritava profundamente o pensamento elitista, legalista e medíocre que dominava.

Eu sonhava em não terem preconceitos por eu ir à aula de havaianas por eu gostar de havaianas. E saí frustrada do curso por serem raros e preciosos momentos em que os nossos Legislativo e Judiciário tinham decisões que honrassem o meu diploma. Somos um país miscigenado. Somos um povo colorido que não se aceita nas cores que tem mas já demos avanços importantes. Avançamos quanto a pesquisa de células tronco, apesar da voz do retrocesso ser forte.



E vejo a voz do retrocesso gritando louca em seu desvario preconceituoso na enquete do Senado que não quer a aprovação da PLC 122/2006 que pune a discriminação contra homossexuais. Minha primeira vontade também era para a lei não existir: eu realmente quero que não seja preciso. Mas é. E constatado esse fato, dói que o preconceito seja tão grande e desconfio de algumas frentes religiosas por trás de números tão impressionantes.

A razão do meu envolvimento é simples. Eu não vivi a época do preconceito contra as mulheres mais fortes, mas as marcas são indeléveis e dá pra sentir até hoje. Eu tenho correndo nas minhas veias e colorindo o rebolado do meu samba uma pele que não é branca e é resultado de muita mistura pra chegar nesse tom exato. Não me considero branca, gosto dos traços negros que tenho em mim. Quero ser mãe. Quero muito ser mãe. E eu não sei que pessoa estarei colocando no mundo. Eu só sei que tentarei ser a melhor mãe que eu puder, tentarei ensinar a ser o melhor cidadão possível e vou amar do jeito que ele vier.

Se o filho que eu não tenho for homossexual, quero que ele tenha ao menos a garantia de que pode haver punição para eventuais discriminações contra ele e sua condição particular, como tem contra o racismo. Sou a favor da lei sim. Mesmo sendo absurdo que ela seja ao menos necessária num país com o nosso histórico.

A votação na enquete do Senado não tem nenhuma validade vinculante, mas os números são desapontadores. Eu quero acreditar que condições pessoais não diminuam ninguém. E eu não estou dizendo que é preciso que todos nos amemos, porque não é. Mas a gente precisa se respeitar. E isso é o mínimo.

Anna é hétero e acredita justa, justíssima, toda forma de amor.