Não posso mais viver sem mim e notas sobre o BBB

Publicado em Crônicas, Idiossincrasias
Um dia a gente se aceita tal como é, e nada nunca mais é igual. Eu sempre fui criticada e chamada atenção por “falar difícil”, não que eu me esforçasse, mas não eram palavras estranhas pra mim e comunicação costumava me ser importante. Por definição, conhecendo a multiplicidade de sentimentos que eu costumo ser, quanto mais palavras eu conheço, melhor me expresso, certo?
Quando não me criticavam pelo português, era pelo meu cabelo em ondas. Houve momentos em que eu mesma não gostei dele por achar que se tanta gente falava mal e brigava pra ter madeixas lisas, devia ser porque liso é melhor. A minha própria mãe perdeu várias horas da vida dela criticando o meu penteado.
Falam mal do meu manequim, eu não uso 38. Falam mal do meu dente torto. Falam mal do meu gosto musical, não adepto de “rebolation” pra ouvir no meu mp3. Incomoda que eu não goste de micaretas, que não considere uma oportunidade de beijar vários bofescândalo de uma vez. Ouvi que eu era louca quando um cara de quem eu gostava muito resolveu que queria ficar comigo e eu disse não por achar que não daria em nada e por já ter começado a achar que tudo seria bem menos interessante que na minha fantasia.
Fui criticada por não achar que todos os homens são canalhas, mas é bem comum que as mulheres sejam; por crer seriamente que se todos os seus namorados são canalhas você ta namorando sempre o mesmo cara, ainda que com RGs diferentes. Gosto pouco de pizza, costumo me apaixonar por um personagem secundário e dificilmente gosto dos heróis perfeitos. Uma amiga minha disse que eu não posso gostar de Desperate Housewives porque eu sou uma intelectual. O que é ser intelectual que eu não entendo?
Como diz a minha xará desse blog, depois da Jolie tudo bem ter bocão, mas fico feliz em dizer que eu já gostava do meu bocão, que nem é tão grande assim, antes dela ser megaboga. Só não curtia muito o batom vermelho, costumava me sentir o Bozo, e eu sempre tive medo de palhaços, embora eu não costumasse admitir.

Demorou pra eu ser feliz com os meus verbos e substantivos, para aceitar cada significante como uma parte minha também, e se o meu português que lê é melhor que o de quem só vê novela, o problema não é porque eu fale difícil pra ser mais inteligente, mais esperta que todo o resto, é que eu conheço mais palavras e só. Se você não conhece eu posso recomendar alguns bons dicionários, que sempre gostei de carregar na bolsa. Custou um bocado pra eu dizer alto que queria ganhar um Aurelião, e ainda quero. Sempre me disseram que eu falo difícil e que com certeza é pra ser melhor que os outros e eu nem mesmo consigo usar os porquês corretamente. Não é estranho?
Demorou pra eu aceitar os meus cachos, minhas ondas, minha morenice que eu tanto gosto. Mas eu gosto de cada um dos meus cachos e não lamento mais o cabelo liso que eu tinha quando era pixota e não tenho mais. Não foi sempre que me aceitei diferente, com o meu dente torto de uma queda que sofri aos seis anos. Hoje eu acho que não destrói o meu sorriso de bocão, mas ajuda a construir uma imagem que é só minha. Hoje eu curto o meu olho pequeno que fecha pra cima como um anime, dizem, por causa das minhas bochechas. Hoje eu gosto do som que a minha risada tem, das minhas crises de riso, das minhas curvas. Gosto de não usar 38, de ter peitos de bom tamanho, de ler Saramago e assistir Desperate Housewives e de não conhecer a letra de rebolation. É difícil não ter medo do espelho e entender, assim de aparecer no olho, que eu sou linda mesmo sem ser loira, sem ter o nariz da Xuxa. Que existe uma beleza muito mais rica quando não se pertence a um padrão BrNTM. E eu sou linda, do jeito que eu sou. E isso incomoda tanto que tem muita gente que não gosta e insiste em colocar pra baixo só porque eu não tenho olhos azuis. Vi gente dizer que eu não podia estar namorando, que era mentira, que eu não podia conquistar alguém. Já naquele tempo eu tive a serenidade de só rir disso e ser mais feliz.
Gosto que eu tenha aprendido a não me limitar numa coisa só, a não ser sempre uma coisa só. Mas do que eu mais gosto em mim é de não usar os termos “mal-amada”, “recalcada” como argumentos. Gosto de mim por achar isso de um ridículo tal e de uma ironia tão fina que quem usa jamais vai entender porque eu não gosto. Uma colega me disse que o cara tendo um corpão ela perdoa a falta de cérebro, foi a mesma que disse que ia fazer só faculdade porque quem estuda demais fica doido. Eu ri e disse que nada justifica a falta de cérebro, e se fosse pra não ter cérebro, pode não falar comigo. Não acho que eu seja melhor que ela, acho que se fosse existir todo mundo igual a mim, talvez eu clamasse por ser loira. Fico feliz de tudo isso não acontecer.
Sigo gostando da diversidade, de não gostar de certas coisas e pessoas e me realizando com o fato de eu ter me aceitado ter suplantado o fato da sociedade não fazer isso bem. Eu sei que o meu manequim, os meus cachos, o meu dente torto, o meu gosto musical, é visto como um incômodo muito mais do que eu acho que é, mas eu sou tão feliz e linda assim que se te incomoda… bem… se te incomoda, problema teu.

Em tempo:
Preciso confessar o meu vício em BBB, incompatível com qualquer atividade intelectual, certo? Rá.
E aqui eu deixo o meu único comentário sobre o programa nesse blog. Ontem saiu a Elenita, uma das poucas participantes com cérebro na edição. Ela saiu porque o público é mais Lia, mais Anamara. É isso que me entristece. E eu fiquei triste mesmo, minha identificação com Elenita não foi só porque ela era obviamente um peixe fora d’água na casa, era porque o absurdo lá foi tal que me incomodou pessoalmente. Eu vi repetido em rede nacional como se fosse uma coisa correta absurdos que eu ouvi a vida inteira. Fernanda, a loira ridícula que disse que ela era uma bruxa gorda e cheia de celulite que combinou de dar todos os monstros pra a Lena porque não agüenta cantar marchinha, mas pode passar 20h tomando banho de sabão. E Anamara, que abriu a boca pra dizer que não entende pra que a pessoa tem título de doutorado se estudar demais deixa a pessoa louca. Eu nem vou falar do ridículo e lamentável que a líder de torcida e a ex-PM pensem assim, mas que é ridículo que o resto do país também pense é. E é isso que me entristece. Bem vinda aqui fora Diva Pipoca, ao menos você não tem aquele nariz da Fernanda.


Nerd way of life

Publicado em Idiossincrasias

Quando eu penso em namorar, meu pensamento é um pouco diferente de algumas amigas. Eu não penso em nada como companhia de balada, uma que eu não sou muito baladeira e duas que pra isso eu tenho amigos. Daí que pra mim, namorar tem a ver com companhia, filmes, desenhos animados e, com isso na cabeça, fiquei pensando em como seria o meu casamento ideal.

Por conta da minha função no mundo de fazer concurso e reduzir os custos de trânsito, resolvi que era melhor eu ficar em Recife direto, até passar a última prova. E isso acabou proporcionando um ensaio de uma eventual vida a dois com o meu namorado. Gostei do papel mulherzinha de fazer o almoço e cozinhar pra ele, mas me acho muito moleca pra cuidar de uma casa. Nem sei escolher abacaxi. Não sei quando os melões estão maduros, não sei cozinhar feijão.

Ele me chamou pra ver Ta chovendo hambúrguer com a sobrinha, e estava lá eu de pijama, cabelo assanhado e pensando se passava ou não creme no rosto. Quando a gente terminou de ver, eu disparo que eu sou nerd poser, que queria usar óculos grossos, rabo de cavalo e ser branca demais – que nem ele – de não sair no sol. Aí ele, míope, ri gostoso e me lança um olhar maquiavélico, como se antevendo que em breve eu me arrependeria amargamente do comentário infame, dizendo que tem uma caixa cheia de óculos enormes, já que sendo criança, míope bastante, a mãe escolhia os óculos dele e mãe a gente sabe, né? Escolhe o mais durável, nunca o mais bonito.

Aí ele me aparece com a famigerada caixa de óculos e percebo que ele estranha muito a minha fascinação alegre com tudo aquilo. E eu saio experimentando os óculos, fazendo caras e bocas e realizo o meu sonho de uma foto fazendo a mão do Spock. Diante da minha cara de felicidade, vejo ele me olhando abismado. “Que foi Rafael?” “Você ta linda de óculos! Como é possível?” E eu vou ver as milhões de fotos que ele tirou.

Aí é que a verdade me atinge com a força de um soco na boca do estômago. Só com muito amor mesmo pra alguém achar essas fotos abaixo bonitas.


Conclusão: Eu posso aprender a escolher abacaxi, melão e a fazer feijão. E a versão dele da história você vê em Memórias do Invisível.

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