Cotidiano

Publicado em Contos

Ele chegou do trabalho como quem tem o mundo nas costas pra carregar todos os dias. Arrastava pés doídos, quase não chega à porta de casa. Respirou profundamente, abriu a porta e entrou. Ela ouviu o trinco, conferiu a hora. Ela viu quando Ele entrou, disse que já chegava lá. Ele sentou na poltrona e respirou cansado. Chamou-lhe a atenção passos leves que se aproximavam e a viu chegar em seu vestido de bolinhas. E sorriu entregue àqueles olhos negros dela, sempre vivos não interessava o quanto o trabalho tinha sido puxado. Ela, a mulher que era sua.

Ela ajoelhou a seus pés, tão morena, tão sua, tão bonita lhe tirando os sapatos e lhe entregando a cerveja – era dia de futebol? – sorrindo anfitriã de sua casa. Sapatos tirados, Ela senta em seu colo de frente pra Ele, que deixa a cerveja no chão e lhe ensaia um afago nas coxas que segura em mãos familiares por baixo do vestido. Ela lhe morde a orelha e o beija com a boca fresca que lhe pergunta do dia, Ele lhe conta por alto, não há de reclamar de nada com Ela no colo. Ela lhe diz anedotas do trabalho, Ele nem ouve direito devido à risada gostosa dela com alguma coisa que lhe aconteceu no expediente, o que mesmo? Não sabe. Sabe que não lembra mais o que lhe aborreceu no trabalho. Sabe que ela cheira a banho recém tomado e que ela gosta que lhe desate os cabelos quando a beija. Ela, a mulher que era sua.

Ela lhe convida a tomar banho enquanto termina o jantar, Ele concorda. Ela liga o som num blues conhecido, Ele lhe observa o jeito como a forma do quadril aparece sob o vestido leve. Acompanha a forma do seio cheio no decote casto, a puxa pra dançar enquanto a música toca e lhe sussurra que se casou com a mulher mais linda do mundo. Ela lhe sorri sem graça, Ele e seus galanteios, Ele lhe observa a curva do lábio, o sinal perto do nariz, e toma a mulher que é sua num abraço apertado. Ela, a mulher que era sua.

Jantaram. Ele lavando a louça e ela guardando. Ele a sujando de sabão no nariz, ela lhe sorrindo tão dele, ele esquecendo a louça e a tomando pra si num beijo de quem passou o dia longe. Aquele vestido curto. Mãos que correm famintas sob ele. Aqueles suores e gemidos urgentes de quem nem pode esperar chegar ao quarto. E Ela tão dele, com aquela boca sempre fresca, aquele eterno cheiro de banho tomado, aquela coisa que ela tinha de lhe fazer esperar por ela num pause de filme porque o chuveiro a chamava. Normalmente ele ouvia o chuveiro e se juntava a ela, de modo que o cheiro de banho recém tomado pertencia aos dois. Ele gostava que o cheiro de maracujá do óleo dela impregnasse a casa, o cheiro dela lhe dava paz. O cheiro dela, o cheiro da mulher que era sua.

Ele sentado vendo o jornal. Ela se joga no seu colo com qualquer romance denso. Ele lhe diz que não há meio de ler e ver o jornal. Ela lhe sorri e leva a mão dele ao próprio seio de modo que ele lhe segure. Ele se cala. Gosta da intimidade de lhe segurar os seios. Ela fica bem de óculos. Livros combinam com ela. Todo aquele ar inteligente e sensual com as pernas de fora. Afaga-lhe a vasta cabeleira morena, que morena era toda Ela, e percebe, poucos minutos depois que Ela dorme tranqüila e indefesa em seu colo com o seio em sua mão. Terminado o jornal, tenta não acordar a mulher que é sua pois quando a conheceu, ela não dormia bem. Colocá-la pra dormir era seu principal desafio quando a escolheu pra sua vida, e isso tinha se revelado uma tarefa gostosa. Bastava a Ela ser dele. E enquanto Ele a levava ao quarto, Ela acordou carregada e se aninhou gostosamente em seu pescoço e lhe enlaçou entre as pernas bronzeadas. As pernas da mulher que era sua.

Colocou a mulher na cama sem que ela lhe liberasse. Dedicou-se demoradamente a arte de visitar com beijos cada um dos sinais que ela tinha no corpo. Amaram-se como dois pagãos, Ele adormeceu com os seios dela ainda em suas mãos. Os seios da mulher que era sua.

Dividindo o café da manhã do dia seguinte, combinaram o cinema após o trabalho, haviam mesmo de comprar mais sorvete, Ela não vivia sem e Ele se divertia com a calda quente. Ela lhe diz que não esqueça de passar o dia com saudade dela. Ele lhe diz que não se esqueça dele também. Ela lhe abraça por trás e escorre as mãos por seu peito e lhe sussurra que o corpo dela sabe que ela é dele. Ele a puxa pra ele e a beija com a mão já sob o sutiã. O corpo dele também. O corpo do homem que era dela.

ps. pra ler ouvindo Cotidiano, do Chico… Aiai. o Chico. Porque eu escrevi ouvindo.

Sobre o nosso Bar

Publicado em Crônicas

(ou Texto de domingo chato perto da noite de sexta, ou comecei com inspiração e terminei sem)

Luis Fernando Veríssimo lamenta o não existir do bar perfeito, por inviável. Concordo que o bar perfeito não estaria localizado num lugar com tanta gente de shortinho e saltos enormes e mal calculados, mas eu sou feliz por, não tendo encontrado o bar perfeito que jamais existirá, encontrei um bar que está virando o nosso lugar.

Não é o bar perfeito porque a Praça de Convivência anda repleta de adolescentes insuportáveis – coisa de cidade de médio porte sem ter pra onde se ir – e o bar perfeito precisaria de certa áurea de viela parisiense de uma foto que eu vi esses dias e um teto maior. Mas há, no bar que é nosso lugar, aquelas coisas que fazem com que eu tenha reconhecido o lugar como meu.

Há o fato de eu ter descoberto por rumores ou por acaso que ele existe, há algo em palavras sussurradas entre outras conversas várias que me é muito estimulante. Há o garçom que sabe o meu nome, que conversa comigo, que cuida para que a minha estadia lá no bar que eu vou chamar de meu seja realmente prazerosa, há que o foco não é a cerveja (muito óbvia e sem personalidade), é a cachaça e há, sobretudo, a aptidão de saber do produto que vendem e o envolver em ar de fino produto de uma arte antiga e tradicional de um artesanato alcoólico que me embriague, mesmo que até achar esse lugar, eu não beba.

Criatura social – nem tanto – que eu sou, há de chegar a esse lugar de braços dados com aqueles amigos que eu sempre quis ter e não tive. Aqueles que não estudaram Direito, que se permitem sorrir, sem prejulgamentos inúteis. São aqueles amigos do espírito inteiro. E aí eu converso, sorrio, conto história e o bar, que agora é o nosso lugar, fica vivo e repleto dos nossos sorrisos, conversas, alegrias e jogos de bêbados. Somos tão jovens, tão lindos, e a noite da gente não se acaba só por ter o sol nascido. Vamos ser lindos nesse mundão afora.

Em tempo: dormi uma hora só de ontem pra hoje, perdão pela provável falta de coerencia, coordenação, qualquer coisa.

Sobre toda aquela coisa que não se sabe o nome

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Eu venho de um tempo conturbado. Cheio de senãos, de desculpas, de fugas, de desejos reprimidos, sentimentos nefastos, confusão e caos. E depois que você diz tudo o que você precisa colocar pra fora, os medos, os calos, os sonhos, quando você explica o inexplicável e a outra pessoa, que te ama de volta, entende, há paz. E essa paz não tem preço.
E hoje o sol me pegou fazendo o que eu nunca fiz, dançando Britney Spears em cima da cadeira, até suar, repetidas vezes. Gimme more, gimme more. E essa de querer mais, heim? Esse sonho de mundo, essa fome de tudo. Ser a menina mais linda do universo, não do mundo. Essa aposta em que todo mundo ganha. O grito que não tem razão pra ficar preso, essa coisa de ter a melhor risada do mundo bêbada numa cachaçaria com o amigo de infância que não sabe o que aconteceu na sua vida desde a infância – mas que continua me dando a mesma paz, o mesmo sorriso, a mesma alegria profunda e legítima de coreografar a Madonna e os Backstreet Boys, não que houvesse isso na infância, mas há agora e o agora é tudo o que a gente tem – e uma mesa de completos, ou não, desconhecidos. Conseguir finalmente blogar depois de muito tempo.
Essa coisa de ser senso comum que a noite foi perfeita, mesmo sem beijo na boca pra quase todo mundo; essa compreensão do que não está certo, do que incomoda, do que machuca, do que me faz mal. A noção do que eu preciso fazer pra mudar. A lembrança do que não foi, a saudade. Ahh, a saudade. Passear com a minha cachorrinha e saber que há coisas que só ela entende; a satisfação de dois olhos realmente negros de pinsher me olhando com ar de quem ta entendendo exatamente o que eu estou sentindo. Meu tesão na chuva que caiu, no banho que eu me deixei tomar; a falta de saber andar de bicicleta e não passar vergonha assim, tão facilmente; boiar na água e me perguntar se a alegria do vento no meu rosto justifica o ser humano não ser aquático.
Sorri quando me disse que lembra de mim quando escuta Clara Nunes, que eu sou muito Nelson Rodrigues – nunca li, meu aniversário é 16/05-; que Chico Buarque me cantou em todos as músicas dele, mas fica mais óbvio em “Ela faz cinema”. A coisa que precisa acontecer; a pessoa que não entende o que pra você é cristalino. Dançar Juanes até a exaustão e desabar na cama com a alegria do cansaço; não dormir; insônia crônica. Saber que a insônia é sintoma de um problema com o qual eu não quero lidar. Lembrar da paz. Aquela paz. Saber que eu dou conta. Confiar que eu consigo. Lembrar do que é importante e já era desde menininha. Não deixar de ser menininha. A doce alegria de uma manhã que eu achei que era imperturbável até que uma frase baqueia. Preocupação com quem eu gosto que não consigo tocar, chuva no Rio de Janeiro, minha falta de juízo; minha verdade Natália que encabeça a lista das pessoas que eu queria ter perto. Saber que a lista não é longa e que se toda ela fosse verdade eu estaria em sérios problemas. Sorrir disso. Sorrir muito disso. E sorrir mais, porque a vida a gente cria todo santo dia, e lembrar do Bernard Shaw, saber que ele tinha razão. Pra quê me encontrar se eu posso me inventar?