Da substancial dificuldade de definição e ordem

Publicado em Idiossincrasias

Comprei hoje finalmente uma nova bolsa para guardar meus vários dvds. Filmes baixados, arquivos em avi da minha compulsão pela sétima arte que a falta de emprego não permite esmiuçar e ostentar numa vasta estante de dvds originais, mas que exibo, sim e desavergonhadamente, vários originais copiados.

Percebi, enquanto tentava achar uma ordem dentro do meu caos particular, não é segredo pra ninguém a minha desorganização, que é absolutamente natural para mim o quarto bagunçado, a última roupa que tirei jogada em cima da cama até a hora de dormir, livros espalhados pelo quarto trazidos ou não de outras partes várias da casa. Eu respeito a minha bagunça. Eu sei que ela é um reflexo de quem eu sou. Explico:
Tenho mania de palavra impressa. Quer me ver feliz? Ponha em minhas mãos o singelo presente de poder escolher um livro de dez reais num site com frete grátis para qualquer quantia em livros – sim, não preciso dos volumes enormes e caros, sou uma pessoa simples, mas isso não quer dizer que eu não queira os livros – e a alegria de saber que minha estante receberá um novo volume me fará parecer uma criança numa loja de brinquedos. Sério. Eu tremo, ensaio pulinhos, não desmancho o sorriso do rosto e tenho verdadeiros problemas pra decidir que livro levar. E dor de estômago.
Aí você me diz que isso faz de mim, singelamente falando, uma pessoa que adora livros. Adorar livros me faz ter sempre um por perto. Gosto de tê-los perto. O hábito deve ter começado por alguma antiga necessidade de parecer não estar só quando estava. Hoje eu não me sinto só se estiver com um bom livro. Preciso ler e escrever para organizar meus próprios pensamentos. E preciso ler diferentes coisas e estilos em consonância com o meu humor e estado de espírito. Então, sempre leio mais de uma coisa ao mesmo tempo. No momento, eu me reparto entre a prosa densa cheia de análises sociais e psicológicas de Umberto Eco; a contemporaneidade de O Diabo veste Prada e a ficção histórica de Bernard Cornwell.
Então se eu estou com o espírito pra Eco, pego e leio, o mesmo acontece para os outros autores. Já disse aqui e quem me lê a mais tempo bem sabe que é verdade, que eu sou do tipo que precisa digerir as coisas pra não me exceder. Não gosto de não ter razão ou de ser injusta. Então se eu mudar de estado de espírito, o livro que estava lendo fatalmente ficará pelas mesas de centro, estantes, sobre a tv. Eu já mudei. Não estou mais lá.
Não consigo ter longos pensamentos durante muito tempo, minha atenção tem um limite e meu cérebro ta sempre pensando em alguma coisa – já falei da bolsa de dvds, da bagunça, dos livros e o texto só começou -. Quando alguém erra falando comigo, antes de fazer perguntas do tipo que me irrita, faço novas conexões baseadas no assunto tratado e normalmente consigo fazer com o que claramente não tinha sentido seja uma sentença inteligível. Não gosto de perguntas idiotas, ninguém gosta. Mas eu gosto menos ainda das perguntas desnecessárias.
Arrumando os dvds, finalmente organizados: dvds em uma bolsa, avis em outra, séries em outra, constatei de novo que não caberia num rótulo. Como a minha seleção de músicas pra esse texto, vou de filmes antigos de interpretações exageradas como Casablanca – que tenho duas vezes e não empresto, não insista – e E o vento levou… até o Exterminador do Futuro. Gosto de pensar que acharei meu Rhett Bullet um dia e ele me tomará em seus braços fortes e me beijará daquele jeito carinhoso dos filmes antigos e eu terei a presença de espírito de dizer alguns ‘ohhh Rhett” como a mocinha fez. Não vejo meus adorados preto e brancos pra ser culta. Vejo porque gosto. As mocinhas não me irritam como as das comédias românticas. E não acho que gostar dos preto e branco clássicos deveria me ilidir de gostar do Exterminador do Futuro ou de qualquer outra coisa que eu goste.
Li Crime e Castigo aos 14 anos, li Harry Potter com a mesma voracidade anos depois. Não gosto de Scorpions, não escuto Lady Gaga. Não gosto de Legião Urbana, Cazuza, não fecho os olhos ouvindo Ana Carolina. Escuto Claudinho e Buchecha ainda hoje e saio dançando, como danço forró, como sambo. Como me vejo em diversas letras do Chico, como me embalo imaginariamente nas mãos de Sinatra. Se for pra me dizer quem eu sou com um rótulo, digo só que eu sou Anna, isso já é muita coisa. Principalmente porque também sou Ingrid, Gui, Guiga. Depende de quem eu sou pra você. Até porque comigo, quem eu sou pra mim está sempre muito bem definido e de tudo o que eu falei aqui, a melhor conclusão a que posso chegar é que eu preciso de uma estante maior pra acomodar meus livros e dvds. Sonhos eu levo na cabeça. E eu garanto que ocupam mais espaço.