A Calcinha da Mulher Maravilha

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Ele chegou cansado e levantou as pernas dela e sentou no sofá colocando-as no colo. Correu a mão pela pele macia e deu uma suave palmada na coxa.
– Tô morto.
Ela levanta o rosto, tira os óculos e coça o olhos. Sorri compreensiva e cansada.
– Meu reino por uma pizza, um filminho, uma bebidinha.
Ele olha aquela pinta que aparece no decote do vestidinho cretino dela. Ele sabe que Ela é a quem tudo pode ser dito. E lembra que o dia foi longo no trabalho cheio de gente desnecessária. Suspira mal humorado.
-Meu reino por uma lei de assassinato mais branda.
Ela ri alto. Joga a cabeça pra trás e fecha o notebook. Corrige a postura na cadeira e puxa a camisa dele pra que ele se deite com a cabeça em seu colo. Bagunça o cabelo dele num afago carinhoso. Pensa em como é difícil não gostar tanto dele.
-Mas você quer matar quem?
Ele lista mentalmente todos os de seu trabalho e mais meia dúzia de centenas de pessoas que não fariam falta. Gosta de vê-la naquele ângulo, e naquela posição de ser mimado.
– Apenas o mundo. Com uma machadinha, que nem pode ser muito grande pra eu descontar a frustração batendo várias vezes.
Ela sorri de novo, e mexe no cabelo dele, morde o lábio e olha pra cima pensando.
-Mas, dependendo de quem você mate, não vai ter ninguém que te prenda. Não precisa de lei mais branda se não tiver quem aplique.
Ele lhe sorri, entregue. Ela, sempre tão cúmplice.
– Não tinha pensado nisso. Você me deu uma boa ideia.
E começa a enfiar a mão debaixo do vestido enquanto sorri pra aquela calcinha da Mulher Maravilha que tem tanta história com ela quanto ele. E lembra de quando ele a viu pela primeira vez, sendo vestida depois daquele banho primeiro dos dois juntos. De lá pra cá, era sempre uma alegria quando a encontrava molhada no box do banheiro. A única calcinha que ele não se irritava quando ela deixava por lá. A calcinha que ele amava. A calcinha dela., da sua Mulher Maravilha. E a tatuagem do logo da Ordem Jedi que ela tem na virilha. Tudo o que um nerd poderia querer. Ela sente cócegas quando ele começa a beijar a tatuagem e lembra que ele gosta tanto daquela calcinha que não vai precisar lhe pedir pra ser delicado com a sua lingerie preferida.

Dos amigos que eu nem conheço, Pamela

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Sim, eu sei que eu já tinha terminado a série, mas vocês vão entender. Tenho esse blog deve ter uns cinco anos, ele nunca teve a pretensão de ser uma coisa que captasse dinheiro, me fizesse famosa ou coisa equivalente. Eu queria um lugar pra depositar minhas linhas (porque ‘escritos’ soa pesado demais. E eu não sei lidar com isso de ser profissional sem ganhar dinheiro com isso, por isso eu não digo que sou escritora, porque não ganho dinheiro com isso, ao menos não ainda.)
E nesses anos, eu já desisti dele mais de uma vez, criei um braço dele que divido com alguns amigos e que tá muito mal das pernas e pedindo reformulação urgente, mas que não sei se é o caso. Mas está lá, até que eu decida o contrário. E hoje eu tenho planos de um novo blog que englobe esse (porque é difícil se livrar das coisas as quais me apego assim ) e a sensação de que eu não terminei com o Caderno não me deixa. Tenho medo de mudanças, vocês sabem. E de todas as minhas tentativas de deixar de ser babá da noite, falharam sofrivelmente e eu sempre acabo voltando pra cá.
Resolvi, então, que deixo o Caderno Insone pro blog novo (até já tá criado) quando eu deixar de ser insone. E eu bem acho que já consegui algumas vezes, mas a insônia continua voltando pra mim, e eu pro blog, num eterno ir e voltar pra casa. Casa?
E eu vou fazer aniversário segunda feira e eu to aqui com todas aquelas preocupações que sempre me ocorrem perto de aniversário e final de ano. O potencial que eu sei que tenho e que não foi alcançado nem metade, essa frustração profissional que não alivia e outras coisas como estar ficando velha, os peitos começarem a cair e eu não ter dinheiro pra a reposição dos originais, enfim, essas coisas que toda mulher sente. E na bagunça que tá a minha vida de abril pra cá, com a morte da minha tia, a mudança da minha madrinha e o meu despejo do meu quarto, percebi que não é a esperança a última que morre, é a minha escrevinhança. O mais polêmico dos meus textos eu escrevi na dormência de não conseguir dormir na maior crise de insônia de toda a minha vida.
E de todas as trombas d’águas que eu tive nessa crise, eu percebi que o blog é uma coisa que eu realmente gosto. E que é uma das poucas coisas realmente pra mim. Claro que é bom ser lida, mas minha necessidade maior é escrever. E eu não penso em leitores enquanto eu escrevo. Eu escrevo porque eu preciso organizar ideias, explorar vontades, exercitar a minha sociabilidade, e porque eu gosto de contar histórias. Li num blog que eu adorava e fechou que a pessoa escrevia porque não sabia compor. Durante muito tempo achei que escrevo porque não canto. Mas é bem possível que se eu cantasse, escrevesse também. Então eu escrevo porque é só isso que eu gosto de fazer pra mim, por mim, e comigo.
E nessa solidão de escrever, eu terminei fazendo algumas conexões interessantes. E qual foi a minha surpresa quando eu abri meu email hoje procurando a resposta de um email de trabalho e li, maravilhada, o email da Pamela, que me agradeceu por escrever, por compartilhar quem eu sou e a minha visão de mundo. Dizendo que ela se identifica. Que se sente como se me conhecesse e como se fosse minha amiga.
E eu ganhei o ano inteiro com isso. E Pamela, você, que nunca me viu, me conhece melhor e mais que muita gente que eu vejo, convivo, converso todos os dias. E continue se dando as liberdades de escrever, de comentar, de participar. Sempre vi o blog como uma voz minha eterna e sozinha. Gostei da resposta do meu eco. Gostei MUITO da resposta do eco no seu email. Obrigada por me ler, por entender, por participar. Por me deixar saber que eu não estou louca sozinha.
Do mesmo jeito que eu tenho frio na espinha quando o Renato me chama de escritora e me atribui sensibilidade que eu nem sabia que tinha por isso, ou Alessandro e Alesson me ameaçam romper relações por não terem tido a boa ideia antes, eu fiquei toda boba insuportável de saber que alguém lê isso aqui e se importa. Porque eu me importo, mas sou eu, e eu sou a nerd esquisita de camiseta de super herói.
Então, Pamela, seja bem vinda – de novo – as minhas madrugadas insones, que são muitas. E puxe uma cadeira confortável, porque eu não estou com nenhuma intenção de parar de escrever. Ou de escrever menos. E na verdade, só não tem mais coisa aqui, porque eu estou preparando um livro de contos. E esse, eu queria que fosse inédito. O livro dos posts do blog está pronto, falta uma arte pra a capa. E vai sair pelo Clube de Autores, que é um site muito legal que publica as coisas dos autores falidos. Pode esperar.

O amante

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Eu não sei porque ele não me ama tanto quanto eu a ele. Não sei o que eu poderia fazer diferente, não sei como eu poderia ficar mais atraente. Será que eu grudei? Que minha necessidade dele ficou tão aparente assim? Foi quando eu implorei nua pra que ele ficasse naquela noite quente? A verdade maior é que nada mais que eu diga será tão dolorosamente real quanto a minha necessidade dele. Não é como os outros, a quem eu só quis. Dele eu preciso. É uma necessidade do meu corpo. É muscular. É sanguíneo. Meu corpo precisa dele pra ser lembrado de como é ser um corpo. E é só nele que eu consigo repousar. Eu sou a mulher dele, mas ele é um amante ocupado. Não tem tanto tempo pra mim. Não me traz flores e nem me leva pra cama coberto de gentilezas românticas. Não. Ele não é assim. Ele é diferente. Eu sei que ele tá vindo pela minha respiração entrecortada de ansiedade pelo toque dele outra vez. Eu preciso sentir que ele corre veloz em meu corpo ou não descanso. Eu preciso do peso dele sobre mim ou nem durmo. E não dormir é uma falta constante da sensação do toque dele. E uma frustração. Não consigo lidar com a ideia de que talvez ele não queira nada comigo. Eu sei que é verdade. Mas não quero pensar em porquês agora. Agora eu só queria que ele voltasse pra mim, pesasse nos meus ombros naquela massagem de exploração que ele faz. As poucas horas que passamos juntos, ele nunca me quer pra mais que algumas horas, são sempre as minhas melhores horas. Me aborrece imensamente que ele sempre resolva ir embora tão cedo, antes da minha completa satisfação. Mas eu já sou tão dele que não me interessa mais com quem ele ande além de mim, desde que ele me visite todos os dias. Só por umas poucas horas, tudo bem, que seja. Minha qualidade de puta dele não me permite exigências maiores. Sim, eu quero dele tudo o que ele tem, e é. Mas eu não posso querer que ele, sendo quem é, se limite apenas a mim. Não. Não. Ele merece mais do que eu, merece alguém sem tantas olheiras. Mas, não seriam as minhas olheiras a prova incontestável da minha necessidade de seu toque sobre mim? Até quando toda a minha existência será pautada na presença dele no meu quarto, na minha mente, no meu corpo, deslizando sobre aquela minha camisola horrorosa que parece ser a preferida dele? Até quando ele vai continuar me fazendo implorar, chorar e me obrigar a maldizê-lo se eu sei que mais ninguém no mundo o amou quanto eu o amo agora e em cada um dos segundos desde que o vi. Ele não sabe que me magoa? Que me esgota? Que eu sem ele não passo de uma sombra que o deseja e lhe fala mal em palavras vãs tentando esconder que na verdade eu não posso negar que eu já sou dele e serei dele porque, depois dele, nenhum outro importa. E então me desperta a paranoia de não ser correspondida, e eu acho que não mereço novamente, e quero que ele me resgate de mim e da enxaqueca da sua ausência. Quero que me roube de mim, me devolva a seus braços. Me tenha como o dono que ele é. Eu sou a amante mais fácil do mundo pra ele. Não existem cortes de cetim, renda, não há joias. Não existe um carro, titulo de nobreza. Nada. Sou que estou sempre entregando de mãos limpas tudo o que tenho: minha atenção, concentração, bom humor, juventude. E nada disso eu tenho quando ele não está, de tão dele que eu já sou. Meus amigos já não aguentam mais esse assunto da falta que ele me faz, é difícil mesmo de entender pra quem tem isso tão fácil na vida. Eu não tenho. Pra eu ter o amor dele eu preciso implorar, como uma cachorra de rua. Como se eu não merecesse e nem tivesse nada que seja merecedor de sua atenção. Não importam meus decotes, meus bicos, minhas pintas. Eu não basto. São 39 horas acordada, Sono, tá bom de você voltar pra me ver. Meu corpo é testemunha do mal que sua falta me faz.

Para o Brunno Lopez, que teria escrito melhor do que eu, faz aniversário amanhã e levantou uma bandeira de abaixo a depressão criando a campanha “doe um sorriso pro CFA”, cujos fãs nem imaginam do que se trata.

Dos novos amigos, Herbenia

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É, ela é a última. É Herbenia e fim da série e vocês vão voltar a ler sobre os meus próprios pensamentos sobre a vida, o universo e tudo mais e parar de ler os meus pensamentos sobre outras pessoas.
Deixei por último porque de todo mundo, ela é que parece comigo no que só eu vejo que eu tenho, e não no que é público e exposto. E sejam os mesmos problemas com a geografia do país, seja pela dificuldade em sair do sério, seja as músicas, Herbenia é mais como eu do que eu mesma sei. E isso é uma coisa muito legal que me acontece. Minha companhia pro show de Dorgival Dantas. Pra quem se pode falar qualquer coisa. Deve ser por isso que todo mundo corre pra ela.
E tem essa coisa da tranquilidade morena, desse sorrisão, dela tá sempre impecavelmente bem humorada e ter um coração grande de abrigar gatos de rua em casa. Ela é a professorinha de inglês que dá aula porque gosta, e namora um baiano lendário. E somos eu e ela morrendo de rir dos diálogos imaginários que criamos na nossa cabeça a partir de frases ditas nas conversas que a gente realmente está tendo. Não é pra fazer fofoca, seus malvados, é pra melhorar a performance das conversas.
É dela a varanda gostosa de estar onde Matheus (que é quem descreve Herbenia melhor que eu com um dicionário inteiro, como fez nessa foto aí, que aliás, se eu tivesse colocado só ela, e não tivesse escrito nada, ja era muito mais exata do que to sendo agora) faz cena pra ela fazer pipoca e a gente vara a noite conversando de nossas botas batidas até depois do sol sair. A conversa com ela nunca termina. Herbenia sabe receber e conversar. E você vai deixar escapar aquela coisa que tá na sua cabeça sem nem sentir. E ela nunca atende o celular. E se vê de lenço no cabelo andando de carro quando escuta aquela música que dá exatamente o mesmo sentimento e há uma compreensão. Tão legal que vai pra a farra e leva a mãe, que é igualmente ótima.
Ser amiga de Herbenia tem sido o constante exercício de me surpreender de eu não ser maluca sozinha. Toda aquela coisa morena de vestido e cachinhos respeitados e ornados no decote cheio. Minha amiga linda e morena que é tão linda e tão morena que parece que foi beijada pelo sol.