χαίνω, caos, bagunça

Publicado em Idiossincrasias


Tá caindo uma chuva preguiçosa na minha janela. Fininha, constante, tranquila. Anda chovendo por aqui desde que eu cheguei. Eu fico me enrolando mais no lençol de rosinhas, me abraço mais e tento me prender a confortos familiares, ainda que pareçam pequenos frente à cidade grande opressiva do outro lado da minha janela.

Há também aquela sensação de saudade. Uma saudade de mim. De não estar doente, de não ter o peito pesado da gripe eterna. Não dá pra mensurar o tanto que eu queria passar um ano só sem gripar, tossir, ter uma crise de rinite ou qualquer manifestação desagradável do meu aparelho respiratório. Eu ia contar que aquele ano em que eu não gripei foi um bom ano. O melhor ano. E todo mundo ia saber disso.

Eu tenho saudades de certas coisas que eu nunca tive. Um bom aparelho respiratório, dormir bem. Dois mil e onze chegou e trouxe uma sensação de desencaixe. O ano já está no meio, e a sensação só fica mais forte. De repente, tá bom, nem tão de repente assim, eu não caibo mais na minha vida. É a época do desencanto. É um tempo em que a bifurcação dos caminhos que de longe eu via, finalmente chegou. E como era de se esperar, eu não sei pra onde ir.

E é tanta coisa interessante, e é tanto que eu quero fazer, conhecer, criar. É uma baita porcaria que eu só tenha uma vida pra viver e fique sempre atrelada a uma coisa só. Gosto de multiplicidade. Gosto de possibilidades. Gosto de coisas que não se parecem umas com as outras, nem com nada. Gosto de áreas diferentes. Mas só eu gosto, só eu vejo conexões improváveis e fica aquela coisa de eu ser a única psicóloga-roteirista-arquiteta-que-trabalha-com-energias-renováveis do mundo. E não há como ganhar dinheiro com isso. E eu preciso de coisas concretas agora. Concretas tipo cimento, diz a Junta Homocinética da minha afeição, a trombada necessária sempre pontual. E isso que o único jeito de juntar tudo o que eu gosto numa coisa só é escrevendo. Então eu continuo fazendo. E não sei parar.

E fica aquela coisa que a vida para. Mesmo sem parar. E as coisas acontecem sem que eu tenha vontade delas, sem que eu as escolha. E eu fico aqui com uma tosse de cachorro de rua, uma náusea intermitente da vida e uma vontade de não sei. E dar o próximo passo é o meu K2 de todo dia. To aqui avaliando as possibilidades. Esperando o resto da minha análise. Aguardando o resultado dos testes.

Eu acabo pensando que a vida de quem só quer a mesma coisa é muito mais feliz que a minha. Veja bem, se você só quer o plano original simples trabalho – marido – filhos, você consegue muito mais fácil. Qualquer emprego serve, a busca de parceiro é por um que dê certo, seus filhos virão como consequência. Não precisa de esforço, não vai mudar nada na vida. E eu to aqui querendo uma carreira que não me mate o espírito nem me faça atingir os trezentos quilos porque to comendo demais de tanta frustração. Essa insatisfação com o fazer. Esse querer no superlativo.

E tem essa coisa agora. Minha descoberta que as pessoas são espantosamente mais interessantes depois dos trinta e cinco anos. Seja porque são, seja porque eu ando cercada de gente que teve o caráter construído por Gossip Girl e precisa de movimentos de cabeça, dar a última palavra, mostrar que se é, ainda que não seja. E é uma preguiça que eu tenho cada vez maior desse tipo de coisa. Tem uma hora que a pessoa cansa dessa imaturidade que se ser fútil tem. E eu sinceramente, não entendo mais as razões de certas coisas. Há que se viver. Há que se deixar viver. Há que se deixar pra lá e entender o que não dá. Há que se saber perder, ganhar. Há que se parar com essa frescura sem fim de querer tá em evidencia. E é preciso que se entenda que todo mundo que é famoso aparece, mas quando você aparece por coisas boas, é válido. Ô preguiça de quem não consegue conviver com o fato de ser irrelevante ainda que acompanhe as tendências.

As coisas pra mim andam meio laboratório literário. Ando encontrando personagens novos, pensando muito nisso e nunca escrever foi tão fundamental pra mim quanto hoje. Talvez pelo fato de eu não andar conseguindo fazer isso. Mas eu ando aqui com o meu bloquinho de pensamentos aleatórios. Minha própria ordem no caos. A bagunça que a minha vida é é criada no modelo Ford. E eu já sei ver ordem no meu caos. E a beleza dele. Principalmente a beleza dele.

Por agora, preciso do meu espaço de novo. Um real, virtual nunca me faltou. Onde eu possa conviver com a minha personalidade e seus desdobramentos. E meus livros, meus filmes, meus cadernos. Minha solidão que eu visito de novo com um fechar de porta que me tem faltado desde o dia oito de abril. Eu conto pra vocês depois. Agora eu sou só essa coisa que a teoria do caos namora. Talvez ela me ame muito. Ao menos é o que parece.

Aprendi muito esses dias, na minha vida de quem mora no computador e a insônia não permite muita coisa. Tenho trabalhado porcamente, nos dois empregos. Tenho aprendido nada pra a vida profissional. Mas se teve uma coisa que eu posso dizer que fez meu dia, foi ter aprendido sobre viagens na velocidade da luz. Valeu toda uma afeição que não diminui nem passa. E sobre a relatividade das coisas. Sobre circunstancias que mudam. Ninguém nunca me viu tão maleável. Nem tão intolerante pra outras coisas menores.

Eu ando querendo o que eu não vou ter. E ando muito crente que tudo no mundo é possível, e é a certeza nisso que me mata. Tudo é possível. E aí? O que diabo eu vou realizar agora? Se Deus existisse mesmo, nesse modelo que tão tentando me vender, Coca cola não fazia mal e eu teria noites de sono diárias, um metabolismo mais acelerado e a capacidade de decidir coisas mais rapidamente. Vou ali me bater com o taco de baseball imaginário de novo.

Pequenos prazeres são válidos. E eu amo muito a hot wheels por me permitir ter um de lorean com um ‘time machine’ escrito que me faz voltar pra onde eu queira nos meus pensamentos e um bat móvel porque é legal. E há momentos em que eu realmente penso ‘o que eu estou fazendo aqui com essa criatura conversando besteira de bem ou mal falem de mim? É melhor tá em casa brincando com os meus carrinhos’. E é mesmo.

Eu ando com necessidade de marcar meus espaços.Você aprende a dar valor pro sono quando passa muito tempo sem ele. Ele vira prioridade. Meus pés são quentes, não tenho essa nóia de pés quentes esquentando os meus. Não gosto de dormir de conchinha. Odeio que me acordem. Não quero ser menos caótica. Não mais. O caos e a bagunça são tão meus quanto eu sou deles. E tá tudo bem comigo nisso. E eu tenho bem certeza que isso incomoda mais os outros e os outros me incomodam do que eu me aborreço com o meu bagunçado estilo de vida. Gosto dele. Só queria não me distrair com tudo no mundo e conseguir um plano e seguir.

Quem disse que viver é melhor do que sonhar não era advogado em começo de carreira.

ps. Eu to até vendo Renato Benites discordando de cada linha do texto enorme, mas é isso que tem pra hoje.

Tatuagem

Publicado em Contos

Quem diria que eu ia esperar por uma segunda feira. Mas espero. Espero porque a segunda feira não me traz lembranças de um tempo que já foi e não volta mais. A verdade maior é que ela ainda parece estar deitada no meu peito reclamando de qualquer coisa e ninguém jamais ficou tão linda reclamando quanto ela.

Estranho não ter percebido ainda como aquelas ondas mal definidas coroando o rosto só perdiam pra o sorriso esfuziante que ela me dava sempre que ela lembrava de uma letra que eu tinha cantado errado. Incrível eu não ter me tocado de que não vivi melhor instante que aqueles vendo ela arrumar os seios travessa no sutiã pra que eles parecessem maiores, ou quando ela me arrastava de uma festa chata querendo que eu arrancasse sua roupa porque a gente se pertencia. Agora eu sinto falta até da calcinha molhada no chuveiro que me irritava tanto, e ainda não consegui me livrar do sutian de mil alças que ela deixou largado no piso do quarto, nem das havaianas rosa que ficou aqui depois daquele domingo de praia que terminou em pipoca, tv e aspirinas porque ela tinha rinite alérgica.

Ela tinha um jeito só dela de fazer bico me fazer perder o futebol com os amigos, o almoço com a minha mãe, a final do campeonato e todo o resto porque nada conseguia ser tão urgente. Nem mesmo o fato de eu me sentir o super homem sempre que via a boca entreaberta dela dormindo com o cabelo no rosto no travesseiro ao lado, ou como ela ficava horas na minha frente tentando me fazer ver a primeira ruga que teria surgido nela e que era o fim do mundo e que jamais enxerguei porque só ela via. Não vejo como eu pude deixar sair da minha vida alguém que chorou no meu ombro a morte do cachorro da vizinha; desceu do carro no meio do engarrafamento e seguiu andando só porque ia chegar atrasada na aula.

A verdade é que ainda não entendi como aquela sarda que ela tinha no rosto conseguiu ficar em mim tanto quanto a tatuagem de hena que eu fiz com o nome dela e nunca saiu.

Eu era como uma força da natureza. Ele como a ação humana que tentava me prender. Eu queria o mundo e pra ele só nós dois era melhor que suficiente, era perfeito. Mais velho, inteligente e engraçado, com um certo ar de amante a moda antiga, foi ele que me fez perder o medo, exceto o de baratas. No fundo ele gostava quando eu berrava assustada com aquelas coisas nojentas atravessando o quarto, ainda que estivéssemos lá escondidos e meus pais estivessem dormindo a 3m de lá.

Acho que não vou conseguir me livrar da sensação de vê-lo chegar à cozinha e do frio na minha espinha que me empurrava pra pular em cima dele e prendê-lo entre minhas coxas. Eu parecia ficar menor naquele abraço, pequena como qualquer criança que só ficava mulher de verdade com o toque da mão dele. E a mão dele tava sempre encontrando a minha mão, cabelo, cintura e me passava uma segurança capaz de me fazer dançar na chuva no melhor estilo Ginger Rogers. Ele e a eterna mania de ver filme antigo que tanto me irritava. Ele e aquele sorriso “arrasa quarteirão” quando me via nua, sinto falta do jeito como ele enfiava a mão embaixo da blusa e do modo como meu seio cabia perfeitamente naquela mão grande.

O mundo jamais rodopiou tão belo quanto em nossos passos de dança e eu gostava de girar quando sabia que encontraria o corpo dele como apoio. Ele carrossel, eu montanha russa. Ele não acompanhava meu ritmo “velozes e furiosos” e eu não arrumei espaço pra cavalo de pau no “dançando na chuva” dele. Eu era o furacão, ele a montanha que eu não conseguia arrastar.

O jeito como minha roupa simplesmente caía quando ele se aproximava e do gosto da boca dele ou de como ele ria do meu arrepio quando a barba dele encostava na minha nuca me marcaram bem mais que a tatuagem do nome dele que sumiu em vinte dias junto com o romance inteiro.

Ele jamais me perdoou ter dito que a minha tatuagem era de hena e a dele não no canto do ouvido do tatuador.