Mixtape de uma vida menos ordinária ou o melhor aniversário do mundo

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Na véspera do meu aniversário, Ela me vendou os olhos, colocou no carro e rodamos até perto da meia noite. Meia noite em ponto ela me pôs em frente a uma porta que, pelo tanto que a gente tinha rodado, não imaginei que fosse a do quintal da minha casa. E haviam luzes, brilhos, uma mesa pra dois, Eisenbahn e suco de cajá no balde de gelo onde o champanhe deveria estar. E eu a olhei surpreso, e antes que eu perguntasse alguma coisa sobre quando aquilo foi providenciado, ela me deu aquele sorriso dela e me puxou pela mão.
Na mesa, os pratos estavam cobertos e havia peixe e batata fritos pra mim, alguma coisa com galinha pra ela. Não lembro exatamente o que ela comeu porque eu odeio galinha e essa era uma das nossas discussões que eu mais gostava. Então, ela bateu palmas e a voz de Frank Sinatra começou a soar me desejando feliz aniversário. Entre a minha surpresa e o desejo de me esquentar do frio no corpo dela, tive a presença de espírito de lhe estender a mão num convite pra dançar. E tocou Strangers in the Night quando a minha mão lhe tocou as costas do vestido e eu consegui sentir a compressão suave dos seios dela no meu peito.
Ela tinha esse cheiro dela eternamente de banho tomado, de frutas frescas, uma coisa meio tropical e verão e primavera num pacote só constantemente usando coisas que lhe fariam mais encaixada numa praia em algum lugar quente e colorido com pessoas tomando bebidas com pedaços de fruta enfeitando o copo. E guarda chuvinhas coloridos. Eu sempre lhe dizia que eu adorava os vestidos de verão dela. Ela sempre gargalhava e dizia que de onde ela vinha, ‘vestidos de verão’ eram conhecidos apenas como ‘vestidos’.

Mas ela era minha, e isso a colocava na embaraçosa e desconfortável condição de moradora desse lugar que eu chamo de Inferno, pequeno e gelado onde o desconforto dela e meu com a temperatura me fazia prometer a cada ano uma mudança repentina rumo a alguma praia paradisíaca dolorosamente quente. Ela ficaria de biquíni, eu lutaria contra a vontade de esmurrar qualquer um que se aproximasse dela. E isso já é uma coisa complicada de ser feita com toda a quantidade de roupa que esse frio semi glacial que a cidade exige, ela já tem seus admiradores. Ela diz que são só pessoas gentis, eu sei a verdade, tenho quarenta e quatro anos, já vivi a minha vida. Aqueles vinte e cinco anos dela são deliciosos pra todo mundo, não é só pra mim.
As mãos dela passeavam pelos meus ombros e me estreitaram nela, como um abraço. Ela se chegando a mim, fosse por amor ou pelo frio, aquela velha nossa música nos unindo em respirações compassadas e a familiaridade da letra com a nossa insônia: que começou nela e eu adotei, me fizeram aperta-la mais perto de mim. Logo as coxas dela se enlaçavam nos meus passos e sem que lhe tirasse os olhos dos olhos dela, deitei seu corpo finalmente na nossa cama e, quando os primeiros acordes de under my skin começaram a soar, completamente esquecido do jantar que ela preparou misteriosamente pra mim que ficou lá fora, comecei a apreciar a batalha entre o meu toque e boca e a maciez dos seios dela, que cabiam exatamente em minha mão.
A pele dela, arrepiada ao meu toque, sempre parecia aguardar meus comandos. E cada parte daquele corpo era um banquete aos meus sentidos. Eu sabia onde tocar, onde lamber, onde a minha respiração bastava para criar os arrepios, os gemidos, e as contorções de prazer que a faziam ainda mais não só deliciosa, como mais minha. E ela era minha. E não há quem lhe conheça melhor seus cheiros e linhas do que eu.

Eu costumava me sentir velho demais pra ela, quando nos conhecemos. Confessou uma vez que achou que eu tinha uma crise de meia idade que me fazia preferir mocinhas, não é verdade. Hoje ela diz que cada um dos dezoito anos de diferença que separam minha idade da dela existem apenas porque ela é muito mais madura do que eu. Eu não seria interessante se tivesse a idade dela. Deus faz tudo certo e a gente não entende nada, ela diz. Minha falta de fé me faz sorrir. Acredito que nasci primeiro porque o mundo é uma piada de gosto duvidoso. E nada disso importa de verdade. Há muito mais sentido na vida quando me encontro entre as coxas dela. Havia muito sentido em todo o caos do mundo naquela noite, quando Sinatra tocava e minhas mãos passeavam pelo seu corpo bem feito e ela cantarolava entre suspiros que ela me tinha sobre a pele. Naquela noite, como em todas as outras noites que tivemos, aquilo era verdade.
A última coisa que ouvi antes de apagar foi ela me desejando ‘feliz aniversário, meu amor’ e ela própria desmaiando de exaustão nos meus braços. E eu mesmo não precisava de presente melhor. Eu não precisava de um novo presente desde a primeira vez que ela adormeceu nua do meu lado.

A manhã do meu aniversário tinha um cheiro de panquecas e geleias e um sol que eu não imaginaria. Levantei com um som de Mr. Sandman e fui sem fazer qualquer barulho até a cozinha, no faro. Ela não me viu observar sua dança desajeitada com a espátula de microfone enquanto me preparava o café da manhã do aniversário dos campeões, como ela sempre dizia. Sempre me surpreendi com o fato das minhas camisas ficarem melhor nela. Sempre gostei que o cheiro dela tivesse comigo o tempo inteiro, independente de eu estar ou não com ela e voltei pra a cama pra dormir mais um tempo, até que ela fosse me acordar com a bandeja do café da manhã surpresa do meu aniversário. Ou um dos gatos que ela trazia pra casa que apenas me toleravam enquanto eram devotados a ela. Ou um dos gatos tentando roubar comida que ela me fez.
E então ela me acordou com aquele cabelo preto naqueles palitos engraçados e uma bandeja de comida e tomamos café da manhã juntos naqueles nossos momentos de intimidade rotineira. Ela vestia minha camisa, eu vestia um cuecão. Ela ria dos meus absurdos, eu ria do jeito dela rir fechando o olho. Eu lhe perguntava como ela podia ser tão bonita de cabelo bagunçado, ela ficava corada. Ela sempre ficava corada quando eu lhe elogiava. Colocou uma música pra tocar, I need you (that thing you do), de uma banda já morta e começamos as palavras cruzadas do jornal. Nunca consegui ser mais rápido que ela. Nem ficar tão bem de óculos. Aquela foi a única mulher que conheci que me dava tesão físico e intelectual.
Eu lhe tirei novamente pra dançar naquele dia, disse que ficar mais velho me deixava preocupado. Ela era muito jovem. Eu era muito velho. Ela ia acabar arrumando um garotão e me deixando, e eu estava velho demais pra aquela merda de novo. Apertei seu corpo contra o meu mal disfarçando meus sentimentos de insegurança. Ela precisava ser pra sempre. Mas era ela, e ela sempre sabia. Cantarolou no meu ouvido e o toque dos lábios dela nos meus e o jeito que ela me fazia pender na cama dando um jeito misterioso de rebolar pra mim me tranquilizava quanto aos sentimentos dela enquanto me deixava com um tesão do cão. Segurei-lhe o quadril quando ela sentou no meu colo e me disse let’s get it on e me beijou.

Tocava ain’t no mountain high enough quando, sem se vestir, pegou a polaroid velha e começou a dançar pra mim daquele jeito canastrão dela, tirou diversas fotos minhas no meu estado de ser ranzinza quando ela começava a pular na cama. Eram vinte e cinco anos, mas haviam momentos em que pareciam 10. Ranzinza, porém feliz. Ela me chamou pra tomar banho com ela e lhe levar pra almoçar. Eu lhe sorri e cantarolei where you lead, e a música guardava a promessa de que eu iria com ela onde ela fosse. Até pro banho menos quente que o ideal naquele frio.
Naquele dia, almoçamos o que deveria ter sido o meu jantar de aniversário. Dividíamos um cobertor perto da lareira e ela me fez achar que eu era o eixo que segurava o mundo dela no lugar, como ela era o meu. E a minha cerveja ficou mais capaz de curar o mal do mundo vendo ela ler Hemingway com a cabeça no meu peito. Under the boardwalk era a trilha desse nosso almoço de inverno. Ela gargalhou quando eu lhe disse que tinha visto duro de matar no cinema, lançamento. E me chamou de velho, como uma piada dela, perguntou se eu não tinha vergonha de seduzir mocinhas tão jovens como ela e cantarolou Mrs. Robinson, nossa piada particular na voz de Simon e Garfunkel. Eu era VELHO, ela era uma criança. Não consegui não lhe dizer o quanto ela era linda sob a luz do fogo que eu nunca sabia se vinha só da lareira ou ardia dentro dela também.
O sol já ia embora quando ela me perguntou se eu estava tendo um aniversário feliz. Como seria ruim com ela ali, tão minha? Eu nem lembrava de um aniversário melhor. Ela sorriu e cantarolou say a little prayer no caminho da cozinha e me pedia pra escolher um filme pra ver enquanto jantávamos. Fiquei sentado na minha poltrona, trajando minha pose de dono da casa e tomando minha cerveja quando reconheci o cheiro do molho do cachorro quente especial nosso. Ingrediente secreto: infarto, como eu sempre a ouvi dizer. Exatos trinta segundos depois ela apareceu no vão da porta me pedindo ajuda e eu fiquei cuidando da panela do molho enquanto ela cuidava de outras coisas. Cantarolamos come on, let’s go e foi um jantar feliz.

Falávamos sobre filmes e eu lhe confessei que não tinha visto os filmes do Bogart, e então ela resolveu que era hora de corrigir um desvio da minha personalidade e fomos ver Casablanca. Era uma vergonha ter 44 anos e nunca ter visto Casablanca. Mas quando se fica mais velho, e deve ser uma das poucas graças de envelhecer, é que você realmente entende as coisas. Eu sei hoje que não poderia ter visto o filme sem ela. Então, secretamente para mim, o caos do universo se organiza me impedindo de ver um filme até que ela estivesse debaixo da minha asa, como eu pensei uma vez enquanto tomava banho. Tenho muitos bons pensamentos enquanto me tomo banho Ela se aninhou no meu braço depois de vestir meu moletom da faculdade, com os dizeres ‘tudo o que eu quero na vida’ e eu sorri, porque era verdade. Fechei os olhos e sorri e a apertei contra mim, pensando no momento feliz em que a minha moça de olhos escuros e as ondas do cabelo dela saíram dos meus sonhos e entraram no meu carro, como na música velha para me dar um aniversário feliz junto dela.

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