De não querer

Publicado em Idiossincrasias



Tenho isso de não querer. E é um não querer simplesmente. Tem dias que eu não quero. Daí eu pergunto o que é isso que eu não quero. E eu mesma me respondo que eu não quero. Eu só não quero. E tem acontecido muito ultimamente.

Não quero essa tua mania idiota de transformar qualquer conversa amena numa discussão acadêmica valendo um título. Não quero a tua mania de me sugerir o óbvio como se eu não fosse capaz de pensar sozinha nunca. Não quero mais esperar que você ao menos se despeça. Não quero mais me alegrar do jeito que me alegro quando você diz que eu sou bonita desse teu jeito torto, quase violento.Não quero nunca que o café acabe.

Não quero esperar que você me note, e nem quero fazer mais um movimento sequer na direção da tua atenção. Ou me nota ou não. Assim, cortando na carne. Eu não quero mais esperar que você me respeite porque as pessoas merecem respeito. Não quero mais lidar com a sua loucura, nem com a tua futilidade de estilo de vida que eu não entendo. Não quero mais que você aja como se a sua opinião contasse e me ditasse comportamentos que eu devo seguir.

Eu não quero mais que você me afete. Não quero mais esperar calada a sensação aliviada da tua mão na minha coxa naquele bar. Não quero mais esperar uma ideia genial pra terminar os contos inconclusos nem sofrer com a ausência de ideias para escrever novos.

Eu não quero mais essa apatia. Eu não quero mais esse teu ar pedante. Nem a conversa pedante. Nem e-mails com esse teu tom sou melhor do que você porque eu fiz mais besteira na vida. Eu nem quero mais lhe dirigir a palavra, nem sentir tua falta e daquelas nossas trocas de música indie. Quando tudo era leve e você me explicou sobre as gaivotas naquele gramado. Eu não quero mais essa falta de rumo agora que eu cheguei onde eu queria.

Eu não quero mais essa auto sabotagem, nem a tua mania de me resolver problemas insolúveis como se o meu mundo fosse que nem o teu onde as pessoas são racionais e conversam. Eu não quero mais a tua necessidade incontrolável de ser idiota arrogante quando você é um completo inútil. Eu não quero mais a tua burrice. Nem o som da tua voz contando história da oficina e de quem tá dormindo com a mulher de quem. Eu não quero mais o jeito que você adula o pessoal com quem você anda mais. E quero menos ainda contato com esse pessoal com quem você tá andando agora.

Eu não quero mais as tuas conclusões convenientes que não respeitam a visão de outra pessoa. Nem o teu jeito coquete que você encerra o assunto dizendo que é lindo. Você ser lindo não é argumento, até porque você nem faz o meu tipo. Não quero mais ouvir falar nas tuas histórias com seus amigos que eu não gosto, nem da tua necessidade recente de ser amigo do povo que eu não gosto.

Eu não quero mais que você suma, mas entendo a tua razão em sumir. Eu não aguento que quem sumiu não fui eu. Eu não aguento você coberto de razão me dizendo naquele temporal que era daquele jeito mesmo e eu deixasse de barulho.Não quero mais que eu deitar não se transforme em eu dormir.

Eu não aguento mais que agora que eu tenho o que eu quero, não tenha restado muito mais pra querer. Eu não quero mais essa apatia com o que eu preciso, nem que o que eu quero e o que eu preciso nem sempre coincidam. Eu não quero mais sentir essa compreensão quando eu vejo aquilo daquela série, lembra? E não quero achar que você tinha razão aquele dia, quando a bagunça ganhou corpo, seja porque não é justo, seja porque é triste. É triste pra caramba. Eu não quero que você não tenha vergonha na cara, não seja homem, não passe de um moleque medíocre e ridículo que se presta a papeis tolos e faz questão. Não quero mais o constrangimento embaraçoso que você se tornou. Tão tolo, tão tolo. Tão irrelevante.

Eu não quero mais a tua apatia, e esse teu comportamento esquisito. E eu não quero entender a tua apatia. Nem saber que tu gosta de mim. Nem saber que você tem razão. Nem ver a nobreza, nem querer jogar a porcaria no ventilador. Nem querer te limar da minha vida. De novo. Nem pensar nisso de novo. E nem quero mais não poder te dar o abraço que eu vivo perguntando se você quer. Nem não poder comentar filme ruim com você dividindo um balde de sorvete.

Eu não quero mais a tua risada histérica e nem a tua melancolia e nem essa tua burrice congênita. Nem precisar me repetir que você é ótimo quando relaxa e não tá travestido do que você mostra a um primeiro olhar. Eu não quero mais que tu se furte da responsabilidade emocional, mas to quase feliz que você não se furta dela comigo.

Eu não quero mais essa ansiedade corrosiva. Eu não quero mais me sentir presa. Eu não quero mais evitar responder um email por saber que quem vai ler, vai usar os dons de me ver tão por dentro que eu me sinto nua. Não quero mais problemas pra dormir. Nem quero machucar sempre a porra do meu pé esquerdo em todo lugar e em lugar nenhum. Não quero que você acabe com o blog, não me importa que estivesse aquém do que você queria. Era o bastante pra mim. Não quero mais que tu não me deixe ajudar. Nem chegar perto. Não quero mais que você me apareça com esse ar superior que você tem, nem quero torcer pra você se lascar de vez em quando pra corrigir o universo.

Eu não quero mais a tua mania de me ver por dentro. Nem a verdade que tu não tem pena. Eu não quero mais ouvir essa música num repeat eterno de semanas. Eu não quero. Não quero dormir mal. Não quero ficar demente. Não quero não conseguir trabalhar por não conseguir pensar direito pela exaustão completa em que eu ando. Eu não quero mais essa exaustão. Eu não quero a tua voz me cobrando a lua que eu nem fiquei de dar.

Eu não quero mais. Só isso.