Crise nas Americanas.com, Correios, Redes sociais

Publicado em 750 palavras, Crônicas, Idiossincrasias

Acho difícil existir coisa que me incomode tanto quanto comprar alguma coisa online e a coisa não chegar, tá, mentira, um monte de coisas me incomoda tanto quanto ou mais, mas hoje eu estou aborrecida com isso. Comprei esses dias um box de livros da Agatha Christie e Alta Fidelidade, do Nick Hornby nas Americanas (estão em crise?) e eram pra ter sido entregues ontem. Não foram. E então eu liguei pras Americanas, mandei email, liguei de novo, mandei outro email. 
Esperei quase três horas com o pescoço torto aguardando falar com um atendente ouvindo uma mensagem dizendo que a minha compra é importante pras Americanas e que logo estaria sendo transferida. Não fui. A ligação sempre cai. Desconfio que nenhuma empresa de porte como essa teria um SAC tão ruim assim por incompetência, não é? (ver o Droider )
Então eu, que cresci assistindo televisão e estou sempre querendo uma boa teoria da conspiração, acabei achando que um descaso desse tamanho tinha uma razão de ser. Ou a repetição da mensagem é uma coisa proposital pra fazer uma lavagem cerebral e diminuir minha frustração de além de não receber minha compra ainda não ser atendida por nenhum meio em que tentei (já que atendente virtual é uma coisa que NÃO SERVE PRA NADA DIFERENTE DE IRRITAR O CLIENTE e ninguém respondeu meus emails ou formulários do site) ou não tinha atendente mesmo pra receber minha ligação e resolver o meu problema, o que é quase confortante, já que explicaria a razão de eu não ter sido nem respondida e nem ter recebido meus livros.
Eu já comprei antes nas Americanas.com, diversas vezes. Sempre recebi a encomenda no prazo, em ótimas condições e essa é a primeira vez que eu tenho problemas com a loja. E é chato. É chato pra caramba. E eu quero meus livros. “Ah Anna, o Correio está em greve”. E eu com isso? Minhas contas continuam chegando no prazo. E desde quando correio está em greve é problema meu? Se você jogar “transportadora” no Google vão abrir milhões de páginas de resultados com uma infinidade de empresas que fariam a entrega. E das compras que eu costumo fazer, quase nenhuma chega pela ECT. E eu nem sei como é que isso funciona direito, posso estar conversando besteira aqui.
A única que chegou esse ano foi um livro que comprei em pré-venda e quando veio, veio por SEDEX. E chegou inteiro. 24h depois de enviado. Não tenho um histórico de fúria com os correios e sei de gente que tem, mas eu mesma nunca tive. Espero nunca ter, porque é muito chato. Mas também cresci ouvindo que existe uma manobra do governo pra quebrar os Correios e abrir tudo pro capital privado. Não sei se procede, deve proceder, já que agora todo mundo taca pedra no correio sem dó.
 Até twittei que as Americanas não tinha entregado meu pedido e veio bem mais de um reply dizendo que a culpa é dos correios. E assim, manifestações violentas. Gente, oi? Eles estão em greve. Quer dizer que eles não tem condição de trabalhar do jeito que a coisa tá. E greve no Brasil é visto como coisa de quem não quer trabalhar. E essa é uma das razões do país não ir pra frente. Greve é uma coisa que você faz pra poder trabalhar melhor. Sejam quais forem as razões. O fim é sempre esse. Então, como é que um setor profissional é apoiado e outro não? Greve é greve, oras. 
Escuto também pessoal reclamando que as encomendas não registradas estão sendo abertas e roubadas. Aí é desonestidade e malandragem e é outra coisa. O nome disso é crime. É caso de polícia. Alguém tem que denunciar. É diferente da greve. O chato é que o crime corta o poder da greve. Em vez do apoio a população acaba se irritando porque é afetada (e tem que ser porque se a população não sentir a falta do serviço é porque ele não serve pra nada e a greve é inútil também) e acaba relacionando a greve, que normalmente é justa, com as encomendas roubadas e fica xingando muito no twitter, que é o portal internacional da reclamação. 
E é bom, porque as redes sociais finalmente tem uma utilidade maior do que saber que fulano está namorando, solteiro, mandar indiretas e  coisas assim. É bom que também seja capaz de mobilizar pessoas por causas sociais mais válidas. Vi muitas campanhas ganharem voz e corpo no twitter e ajudar muita gente esse ano, é louvável. Tem de tudo na internet, e tudo ganha uma amplificação muito maior do que teria, é a beleza da coisa. 

Esse ano eu já ajudei amigos a conseguirem doadores de sangue, agasalhos, dinheiro, alimentos, tudo com fins específicos e com sucesso. Eu me alegro que nem tudo lá seja a culinária exótica que ganhou vez essa semana. E Americanas.com, vamos entregar o meu pedido, né?

Cem anos de mau hálito

Publicado em 750 palavras, Crônicas, Idiossincrasias

Conheci hoje o 750 words. E na pressão pra escrever 750 palavras todos os dias, acho que vem muito post instantâneo por ai. Esse é um texto criado do nada. Começou com uma palavra aleatória e esse é o resultado. Sem roteiro, sem planejar, sem ideia e se virando no tempo. 

Eu sempre quis escrever alguma coisa que tivesse início com “era uma vez..” e nunca fiz. Não entendo as razões. Era uma vez me parece uma expressão que se traveste de fantasia. É lúdica também. Tem esse jeito só dela de anunciar uma fantasia, uma mágica, uma fantasia mágica. Acho que a culpa primordial é dos contos de fadas. Eles sempre começam com “era uma vez” e você já espera a bruxa má, a conspiração maldosa, o universo em que o ser é mais importante que o ter. 
Espera também o príncipe, que se não for encantado, é alguém em quem se pode confiar. Aparentemente, é tão difícil encontrar alguém em quem se possa confiar quanto é difícil encontrar fadas, elfos, gnomos e seres mágicos de qualquer natureza. Em dias de hoje, é comum que o mágico, extraordinário, fascinante e diferencial sejam as características impactantes que são basilares em contos de fada. Talvez por isso sejam sempre revisitados.
Queremos a segurança estável da confiança inabalável; a certeza de não estarmos sós quando mais precisarmos. E este momento crucial pode vir de qualquer lugar,  seja da narcolepsia (como é o caso da Bela Adormecida), seja quando a frustração em se lidar com o próximo é tanta que a pessoa desconta na comida com a voracidade tão animalesca que se entala com um pedaço de maçã e desmaia, não é mesmo Branca de Neve? 
Pode ser até por conta de um animal selvagem e faminto que engole a tua vó sem mastigar. Queremos ser capazes de nos tirar de todos os buracos que caímos, matar nossas próprias baratas, mas queremos principalmente saber que não estaremos sós caso a gente precise de uma ajudinha a mais. E esse resgate não precisa ser charmoso como um sapatinho numa almofada de seda que passou pelo reino inteiro estuprando o nosso sapato…. 
Aliás, essa história toda da Cinderela é esquisita. Que mulher esquece um sapato? UM SAPATO? Entendo esquecer o marido, o irmão, o sutiã, uma calcinha, mas esquecer um sapato é assim.. forçar a barra. Principalmente com a leva de gente que assiste Sex and the City, aquela série idiota daquela mulher feia que devia ter operado aquele nariz séculos atrás e não fez e suas amigas quengas numa cidade onde todo mundo só quer dar. A Carrie jamais deixaria seus Manolos numa escadaria, e nem ia querer o Manolo de volta depois que as all the single ladies com todos os tamanhos de pés colocarem os seus pés dentro. E nem eu. Não é higiênico. 
Bem diz a Beyonce que se você gosta, bote um anel no dedo da pessoa, e vamos ser práticos e ao menos maneirar na bebida e nas drogas pra lembrar do rosto da mulher e do nome. Facilita e preserva o Manolo, ainda fico pensando em que explicação o cara deu. “oi gata, eu não me lembro da sua cara, nem sei o seu nome, mas você foi a coisa mais importante que aconteceu nesse momento em toda a minha vida, o paradoxo do pretérito perfeito da teoria da relatividade”. Veja, pro cara não se lembrar de nada da cara dela, só por ela ter se arrumado, ou a manguaça era grande, ou ela passou por um desses programas de tv assistencialistas. Em todo caso, ao menos ele se arrependeu e foi atrás do prejuízo, né? É mais do que muita gente faz.
Pensando bem, e seguindo essa linha de raciocínio, príncipes encantados são aqueles caras com qualidades que deveriam ser requisito, não diferencial. Mas em todo caso, nem eles são perfeitos. O Príncipe da Bela Adormecida tem um timming pavoroso, a mulher dormiu cem anos. 
Mas ele é Príncipe Encantado por ter assumido a responsabilidade da própria besteira e beijando a moça encarando cem anos sem escovar os dentes assim mesmo. O da Cinderela coitado, vamos acreditar que tinha amnésia, deu a cara a bater e se aproveitou da sorte de ter se apaixonado pela única mulher em todo o reino com os pés tão pequenos que podia usar sapato de cristal sem quebrar, se cortar. Deve ter sido o primeiro cristal blindado da história.
 O romantismo perdoa tudo. Como nos contos de fadas de hoje. Acaba-se acreditando que ele estava no trabalho, que vai ligar no dia seguinte, que ele está com a esposa pelas crianças, que é você que ele ama. A mulher de hoje, antes de senhora do próprio nariz, é romanticamente crente. Talvez a necessidade do outro seja ancestral e inevitável. Talvez sejam os malditos ovários.

Livros: Infância, Coetzee

Publicado em Livros


Neste primeiro volume de ficção autobiográfica (de uma trilogia que se completa com Juventude e Verão), um narrador seco e distante conta, sempre no presente, a dura experiência de deslocamento de um garoto sul-africano. Em uma sociedade baseada na violência – que por isso mesmo irradia para todas as instâncias do cotidiano -, entre negros surrados por motivos banais, professores sádicos e colegas de escola truculentos, John mantém viva, como pode, a identidade “diferente”. Tarefa difícil nessa infância nada rósea que J. M. Coetzee evoca: com um pai falastrão e perdulário, uma mãe excessivamente bondosa para esse mundo hostil e uma identidade familiar opaca – os Coetzee são de origem africânder, mas falam inglês em casa -, o menino John encontra refúgio só mesmo na introspecção, e o leitor testemunha a construção de uma personalidade fechada e solitária, que é a um tempo herdeira e vítima da brutalidade circundante.

Pra quem não recebeu o memorando, eu participo do Clube do Livro da Companhia das Letras. Mês passado a gente leu o livro do africânder Coetzee. Infância é o primeiro livro da trilogia ficcional autobiográfica que se segue com Juventude (2002) e Verão (2009).
Eu nem sou capaz de dizer o tanto que eu adorei o livro. Foi o meu primeiro Coetzee, mas deu pra perceber certas nuances do autor, mais do que do livro, logo de cara. E eu não sei se é porque eu também escrevo, mas eu tenho sentido que meu olhar de leitora também dá uma mudada quando eu vejo que posso aprender alguma coisa com o livro que escolhi.
A mim pareceu que o africânder é um sujeito que gosta mesmo de linguagem. E é muito minucioso com as escolhas que faz. Nada sobra, nada falta. A projeção emocional que o que é narrado cria fica por conta do choque ou deleite do leitor. O autor não sugere emoções. O narrador é sempre cuidadosamente distante, quase sádico, mas sempre impessoal. E só isso pra mim já valeu o livro. Mas o livro é mais do que isso.
Também gostei bastante de reconhecer certas nuances da minha própria infância na infância dele. A crueza da narrativa do africânder é primorosa. Há uma sensação de opressão que dura o livro quase todo, sempre levada com uma ironia delicada. Eu achei o livro enriquecedor, principalmente para mim, que me arrisco a escrever. A leitura é autobiográfica, é dura, quase hostil, mas a narrativa no presente e seu tom impessoal roubam do narrador sua qualidade de onisciente, sendo quase observador dos fatos.

Também chamou a minha atenção o fato da criança do livro não ser pueril como o que se costuma ver em explorações de infância. O pequeno Coetzee não se perde em delírios masturbatórios e a descoberta do sexo quase não importa. O que se vê é um personagem recortado de seu cenário, culpado da ausência de culpa, sem qualquer referência religiosa e familiar e com toda uma série de personagens quase caricaturados deles mesmos.
A estranheza com que você recebe o livro, e a distorção entre o que é narrado e como é narrado é a melhor parte da coisa. Foi quando eu entendi o Nobel do Coetzee. Foi quando eu sorri de novo por ter sido lembrada que autor é Deus no seu mundinho e tudo é possível dentro da literatura.
As melhores partes do livro, pra mim, são o capitulo dos castigos escolares e a descrição da Guerra Fria como desenho animado. Ah, também gostei do lirismo escondido no capítulo da fazenda. Mas gostei muito do livro inteiro, podem ler. Vale muito também pela relação com os fatos africanos que eu não tinha muito contato, mas gostei. Gostei tanto que quando acabei, reli.
Meu único pesar é o fato da edição que eu li, da Cia. Das Letras não trazer tantas notas de rodapé. Senti falta, não sou fluente em africânder e acho interessante esse relacionamento.