Cem anos de mau hálito

Conheci hoje o 750 words. E na pressão pra escrever 750 palavras todos os dias, acho que vem muito post instantâneo por ai. Esse é um texto criado do nada. Começou com uma palavra aleatória e esse é o resultado. Sem roteiro, sem planejar, sem ideia e se virando no tempo. 

Eu sempre quis escrever alguma coisa que tivesse início com “era uma vez..” e nunca fiz. Não entendo as razões. Era uma vez me parece uma expressão que se traveste de fantasia. É lúdica também. Tem esse jeito só dela de anunciar uma fantasia, uma mágica, uma fantasia mágica. Acho que a culpa primordial é dos contos de fadas. Eles sempre começam com “era uma vez” e você já espera a bruxa má, a conspiração maldosa, o universo em que o ser é mais importante que o ter. 
Espera também o príncipe, que se não for encantado, é alguém em quem se pode confiar. Aparentemente, é tão difícil encontrar alguém em quem se possa confiar quanto é difícil encontrar fadas, elfos, gnomos e seres mágicos de qualquer natureza. Em dias de hoje, é comum que o mágico, extraordinário, fascinante e diferencial sejam as características impactantes que são basilares em contos de fada. Talvez por isso sejam sempre revisitados.
Queremos a segurança estável da confiança inabalável; a certeza de não estarmos sós quando mais precisarmos. E este momento crucial pode vir de qualquer lugar,  seja da narcolepsia (como é o caso da Bela Adormecida), seja quando a frustração em se lidar com o próximo é tanta que a pessoa desconta na comida com a voracidade tão animalesca que se entala com um pedaço de maçã e desmaia, não é mesmo Branca de Neve? 
Pode ser até por conta de um animal selvagem e faminto que engole a tua vó sem mastigar. Queremos ser capazes de nos tirar de todos os buracos que caímos, matar nossas próprias baratas, mas queremos principalmente saber que não estaremos sós caso a gente precise de uma ajudinha a mais. E esse resgate não precisa ser charmoso como um sapatinho numa almofada de seda que passou pelo reino inteiro estuprando o nosso sapato…. 
Aliás, essa história toda da Cinderela é esquisita. Que mulher esquece um sapato? UM SAPATO? Entendo esquecer o marido, o irmão, o sutiã, uma calcinha, mas esquecer um sapato é assim.. forçar a barra. Principalmente com a leva de gente que assiste Sex and the City, aquela série idiota daquela mulher feia que devia ter operado aquele nariz séculos atrás e não fez e suas amigas quengas numa cidade onde todo mundo só quer dar. A Carrie jamais deixaria seus Manolos numa escadaria, e nem ia querer o Manolo de volta depois que as all the single ladies com todos os tamanhos de pés colocarem os seus pés dentro. E nem eu. Não é higiênico. 
Bem diz a Beyonce que se você gosta, bote um anel no dedo da pessoa, e vamos ser práticos e ao menos maneirar na bebida e nas drogas pra lembrar do rosto da mulher e do nome. Facilita e preserva o Manolo, ainda fico pensando em que explicação o cara deu. “oi gata, eu não me lembro da sua cara, nem sei o seu nome, mas você foi a coisa mais importante que aconteceu nesse momento em toda a minha vida, o paradoxo do pretérito perfeito da teoria da relatividade”. Veja, pro cara não se lembrar de nada da cara dela, só por ela ter se arrumado, ou a manguaça era grande, ou ela passou por um desses programas de tv assistencialistas. Em todo caso, ao menos ele se arrependeu e foi atrás do prejuízo, né? É mais do que muita gente faz.
Pensando bem, e seguindo essa linha de raciocínio, príncipes encantados são aqueles caras com qualidades que deveriam ser requisito, não diferencial. Mas em todo caso, nem eles são perfeitos. O Príncipe da Bela Adormecida tem um timming pavoroso, a mulher dormiu cem anos. 
Mas ele é Príncipe Encantado por ter assumido a responsabilidade da própria besteira e beijando a moça encarando cem anos sem escovar os dentes assim mesmo. O da Cinderela coitado, vamos acreditar que tinha amnésia, deu a cara a bater e se aproveitou da sorte de ter se apaixonado pela única mulher em todo o reino com os pés tão pequenos que podia usar sapato de cristal sem quebrar, se cortar. Deve ter sido o primeiro cristal blindado da história.
 O romantismo perdoa tudo. Como nos contos de fadas de hoje. Acaba-se acreditando que ele estava no trabalho, que vai ligar no dia seguinte, que ele está com a esposa pelas crianças, que é você que ele ama. A mulher de hoje, antes de senhora do próprio nariz, é romanticamente crente. Talvez a necessidade do outro seja ancestral e inevitável. Talvez sejam os malditos ovários.

2 ideias sobre “Cem anos de mau hálito

  1. “O Príncipe da Bela Adormecida tem um timming pavoroso, a mulher dormiu cem anos. “
    HAHAHAHAHAHAHAHAHAH
    Fazia tempo que eu não ria tanto. Eu gosto de tudo o que tu escreve, mas eu gosto mais quando é na bagunça, como você diz.
    Você é boa em tudo, mas é especialmente boa no modo se vira nos trinta.

  2. Adorei, é engraçado mesmo olhar os contos de fadas por esse outro ãngulo. Parece tudo tão perfeito, tão romãntico, tão tudo, e na verdade a vida não é assim, os principes não são mais encantados, mas eles encantam e deixam se encantar, acho que talvez isso não tenha se perdido com o passar dos anos, o encanto. Para amar alguém é preciso que haja um encanto por ela, encanto que deve ser sustentado no dia a dia, para que se cumpra o “felizes para sempre”, a cada dia.Beeijos

    taimaranetto.com

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