Livros: Infância, Coetzee


Neste primeiro volume de ficção autobiográfica (de uma trilogia que se completa com Juventude e Verão), um narrador seco e distante conta, sempre no presente, a dura experiência de deslocamento de um garoto sul-africano. Em uma sociedade baseada na violência – que por isso mesmo irradia para todas as instâncias do cotidiano -, entre negros surrados por motivos banais, professores sádicos e colegas de escola truculentos, John mantém viva, como pode, a identidade “diferente”. Tarefa difícil nessa infância nada rósea que J. M. Coetzee evoca: com um pai falastrão e perdulário, uma mãe excessivamente bondosa para esse mundo hostil e uma identidade familiar opaca – os Coetzee são de origem africânder, mas falam inglês em casa -, o menino John encontra refúgio só mesmo na introspecção, e o leitor testemunha a construção de uma personalidade fechada e solitária, que é a um tempo herdeira e vítima da brutalidade circundante.

Pra quem não recebeu o memorando, eu participo do Clube do Livro da Companhia das Letras. Mês passado a gente leu o livro do africânder Coetzee. Infância é o primeiro livro da trilogia ficcional autobiográfica que se segue com Juventude (2002) e Verão (2009).
Eu nem sou capaz de dizer o tanto que eu adorei o livro. Foi o meu primeiro Coetzee, mas deu pra perceber certas nuances do autor, mais do que do livro, logo de cara. E eu não sei se é porque eu também escrevo, mas eu tenho sentido que meu olhar de leitora também dá uma mudada quando eu vejo que posso aprender alguma coisa com o livro que escolhi.
A mim pareceu que o africânder é um sujeito que gosta mesmo de linguagem. E é muito minucioso com as escolhas que faz. Nada sobra, nada falta. A projeção emocional que o que é narrado cria fica por conta do choque ou deleite do leitor. O autor não sugere emoções. O narrador é sempre cuidadosamente distante, quase sádico, mas sempre impessoal. E só isso pra mim já valeu o livro. Mas o livro é mais do que isso.
Também gostei bastante de reconhecer certas nuances da minha própria infância na infância dele. A crueza da narrativa do africânder é primorosa. Há uma sensação de opressão que dura o livro quase todo, sempre levada com uma ironia delicada. Eu achei o livro enriquecedor, principalmente para mim, que me arrisco a escrever. A leitura é autobiográfica, é dura, quase hostil, mas a narrativa no presente e seu tom impessoal roubam do narrador sua qualidade de onisciente, sendo quase observador dos fatos.

Também chamou a minha atenção o fato da criança do livro não ser pueril como o que se costuma ver em explorações de infância. O pequeno Coetzee não se perde em delírios masturbatórios e a descoberta do sexo quase não importa. O que se vê é um personagem recortado de seu cenário, culpado da ausência de culpa, sem qualquer referência religiosa e familiar e com toda uma série de personagens quase caricaturados deles mesmos.
A estranheza com que você recebe o livro, e a distorção entre o que é narrado e como é narrado é a melhor parte da coisa. Foi quando eu entendi o Nobel do Coetzee. Foi quando eu sorri de novo por ter sido lembrada que autor é Deus no seu mundinho e tudo é possível dentro da literatura.
As melhores partes do livro, pra mim, são o capitulo dos castigos escolares e a descrição da Guerra Fria como desenho animado. Ah, também gostei do lirismo escondido no capítulo da fazenda. Mas gostei muito do livro inteiro, podem ler. Vale muito também pela relação com os fatos africanos que eu não tinha muito contato, mas gostei. Gostei tanto que quando acabei, reli.
Meu único pesar é o fato da edição que eu li, da Cia. Das Letras não trazer tantas notas de rodapé. Senti falta, não sou fluente em africânder e acho interessante esse relacionamento.

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