Todos são críticos

Publicado em 750 palavras, Crônicas

Eu comecei a escrever com onze anos. Tudo começou com um caderno que ninguém podia ver. Tudo começou sentimental, sem roteiro, sem história, sem leitores. A maior parte das coisas que eu escrevi na vida eu nem mesmo reli ou mostrei a quem quer que fosse. Era mais pra tirar da cabeça o que ia ao pensamento, eu não tinha muita gente com quem conversar. E eu fui educada pra não chorar, ter sentimentos ou demonstrar fraqueza. 
Nada do que eu escrevi nesse caderninho deixou de soar piegas, dramático, exagerado ou dramático. E nem eu tinha qualquer amor por nada que tivesse ali a ponto de deixar de jogar o caderno no lixo quando a última página fosse preenchida.
Antes de mostrar algum caderno inteiro pra alguém, escrevi uma história de amor cosplay de romances Nova Cultural, assim… DOCE DE MAMÃO COM AÇÚCAR que fez sucesso entre as amigas e que o professor de literatura pegou sem eu saber e fez uma série de anotações em vermelho dando uns toques. E ele fez um auê tão grande com isso que eu me senti muito especial e talentosa. Professor Álvaro, onde você tiver, eu te amo. Aqueles cadernos, mesmo, os que substituíam psicólogos e amigos, eu não mostrei pra ninguém.
Eu também tinha uma amiga que estava sempre se gabando de amigos poetas que lhe escreviam poesias que ela exibia orgulhosa no caderno dela. Eu gostava da poesia deles, mesmo que não gostasse muito de poesia. Daí, mandei meu caderno pra um deles, que voltou com uma cartinha rimada, um pequeno poema que Fernando Pessoa que me desculpe, mas é meu preferido até hoje. Foi assim que eu conheci os gêmeos Álesson e Alessandro. 
Nada do que eu escrevi nesse tempo foi pensando em ser escritora. Nada do que eu escrevi nessa época foi pensado, planejado, estruturado. E graças a Alesson que jamais me devolveu o último caderno, tudo se perdeu para todo o sempre, amém. Primeiro que era tudo sentimental demais, como tinha que ser, para eu querer ler de novo. Segundo que não quero mais, e pronto. Nem tudo o que se escreve precisa ser mostrado, do mesmo modo que ter uma câmera não faz de ninguém um fotógrafo e comer não transforma ninguém em um talento da gastronomia. Eu não era escritora porque eu escrevia (e não sou agora). Ser escritor está além. Implica viver disso, eu no máximo vivo com isso.
Eu sempre quis ser escritora, desde sempre, única vontade que nunca passou. E eu senti um frio na barriga que só de lembrar sinto de novo quando a minha professora publicou sem eu saber um conto curto e bobo meu no Clandestino, que voltou a ativa e a professora Karine e Mário Gerson não vão saber nunca a alegria que me deram com aquele “escritora” embaixo do meu nome. 
Do meu caderninho secreto com onze anos até hoje, muita coisa mudou (e falta ainda muito). Eu perdi a vergonha, aprendi a levar a coisa mais a sério, conheci meus leitores que me leem por cima do meu ombro ainda que eu nunca tenha visto na vida. Conheci pessoas cuja opinião eu realmente escuto ( e me leem sem revisão, no primeiro rascunho, cru e seco). Tenho um blog onde eu fui me despindo de pudores, de personagens, e fui me mostrando tanto que quem me lê há mais tempo consegue ver algum crescimento. E fui ter quase crise de pânico quando me convidaram pra falar sobre ser escritora na Feira do Livro daqui. Se isso faz de mim uma escritora reconhecida pela minha própria comunidade eu não sei, mas me faz feliz pra caramba.
Hoje eu estava zapeando pela internet enquanto fazia de conta que estudava e caí num site para novos autores feito por novos autores de um amigo meu. Tinha um texto lá falando de seis ‘defeitos terríveis’ de escritores. E o cara desenvolveu uma crítica pouco clara, nada objetiva, absurdamente arrogante e com uns erros de grafia que me fizeram precisar de alguma boa vontade pra não colocar tudo na conta do “vou fazer de conta que eu não vi” e seguir com a vida.
O negócio é que o amigo administrador do site é um amigo de quem eu gosto e eu sei que o site está lá por causa de muita boa vontade que ele tem para ajudar quem tá começando e dividir informações. Acho louvável. Mas nem tudo são flores. Eu tenho percebido que a coisa anda piorando depois que eu comecei a prestar atenção. Aparentemente ser crítico é descer a lenha do modo mais inconsequente possível. E está até ficando chato ver a voz que é contra tudo e todos se levantando sempre pra tudo. O texto do menino ficou na minha cabeça. Conversei com o meu amigo depois, ele disse que o autor do texto deu uma cacetada nele tão grande que ele parou de escrever durante um tempão. Achei meio irresponsável. 
Então, jovens autores, como eu, eu tenho uma dica. Só uma. Cuidado com as críticas. A crítica existe para que você melhore. Mas existe a que é feita com responsabilidade e respeito e existe aquela que te diminui e te faz se sentir incompetente. O melhor crítico é aquele que te ajuda sem destruir seu espírito. Ele deixa que você saiba que gostou, quando gostar. E sabe a diferença entre o que ele não gostou porque o que você escreveu não se adequa às preferências dele, não necessariamente implicando que está ruim. E aponta os defeitos que ele encontra em coisas que ele pode ou não ter gostado. E respeita tudo o que faz do texto o seu texto, sem implicar em traumas. E é preciso algum senso crítico seu mesmo para saber filtrar e crescer sem que o seu trabalho seja mais do mesmo.
Acredito que ser um bom crítico seja tão difícil quanto ser bom escritor. De verdade. Apesar do que uns e outros fazem parecer.

Quando os heróis não morrem de overdose

Publicado em 750 palavras, Crônicas
Esperar o show do Guns n’ Roses. E eu gostava do Guns quando eu tinha 15 anos. E pra quem viveu pra ver Plutão ser planeta, entende a importancia disso. Eu era fã como hoje se é fã do Restart, salvo que dos Restarts da vida nos meus 15 anos tinham mais dignidade.
E eu era fã mesmo. Eu sabia tudo da vida do Axl e ainda assinava Anna Ingrid Rose nas provas. Fã poster na parede. Mas nunca fui idiota de achar que tudo o que ele fazia era certo, bom, justo e exemplo. Eu era fã de achar gostoso e gostar do som. Só. Sempre gostei pela música. Senti falta do Slash nos cd’s em que ele não estava. Ainda acho que ele faz uma senhora falta. Mas existem outros no mundo. Superem isso.
E eu entendo que é triste quando os heróis não morrem de overdose e ficam achando que não existe profissionalismo no rock e ficam se envergonhando publicamente e fazendo pouco dos seus sonhos revolucionários com listas de exigências de quatro laudas. Mas né? Envelhecer vai além de ficar mais velho. Ele não usa mais aqueles shortinhos, mas continua no sexo, drogas, e rock n roll.
Se você for ver, é o que costuma acontecer com os astros que não morrem de overdose. E morrer de overdose é coisa de loser. Não quero saber. Várias pessoas de quem eu gostava muito morreram de overdose e eu lamento. Envelhecer não é pra todo mundo. E tem uns que fazem bem, outros fazem mal, outros se matam (ativa ou passivamente) aos 27 anos com medo. Axl tá aí desafiando os bravos. Ah Anna, o Lenny Kravitz e o Bon Jovi tá melhor. E ai? Todo mundo que você conhece que bandeirou os quase cinquenta anos, fez isso bem? Tem barriga tanquinho? Namora super modelo? Corre maratona? Não? Imaginei.
Axl é do tempo que em que rock era mais suor. E me mata de vergonha não ter entendido que os tempos mudam e é meio papelão a pessoa não saber envelhecer. E atrasa show em mais de uma hora. E aí é aquela. Todo mundo vai curtir o show num tom saudosista, querendo muito ouvir Use Your Ilusions, mas ele deve… bem, começou o show e ele abriu com Chinese Democracy, que ninguém gostou. Guns foi ficando cover dele mesmo. Ele passou da idade do sexo drogas e rock n roll, passou a idade de ser inconsequente, mas não avisaram pra ele.
Mas é isso, e isso, que ninguém gostou, é a tentativa dele de não viver no passado. (hahaha ele ironizou dando bom dia pra a platéia, como não amar?)Não vai ter muito sucesso porque demorou uma cacetada de tempo pra ficar pronto o disco e não amarra a chuteira dos anteriores. Mas eu me senti com 15 anos de novo quando ele nos disse que fôssemos bem vindos a selva.
Até agora, não to achando o show ruim. Faz falta a juventude da sainha de escocês, faz falta a impunidade do shortinho que Carla Perez popularizou, faz falta ter 15 anos. Mas ainda é a banda que me abriu os olhos pra a música. Antes do Guns eu ouvia Backstreet boys. Lembro como se fosse hoje da sensação de cabeça explodindo pelo súbito alargamento do horizonte musical quando eu ouvi Sweet child of mine, eternamente uma das minhas músicas preferidas. Só quem conseguiu a façanha de repetir isso foi o Chico Buarque.
E Chico Buarque é aquela coisa, jamais me decepcionará porque eu ja sou grata por todas as músicas que ele cantou e escreveu sobre mim sem me conhecer. Acho que com o Axl Rose acontece uma coisa similar. Essas coisas que ele apronta, hoje, as listas de exigências absurdas infinitas, os aviões que ele não pega, os shows que ele atrasa, as modelos abaixo do peso, o mesmo microfone de 1985 que ele usa, esses colares de crucifixo, a gibeira (é, gibeira em 2011), a calça rasgada (que felizmente não é o shortinho, o que demonstra que algum senso ele conseguiu com a idade), não me fazem gostar menos ou achar que não vale a pena. Tá, não pagaria pra ver, mas se eu tivesse que pagar por algum show, ia preferir pagar pra ver o Axl do que pra ver Maroon 5.
E eu sempre vou achar que é melhor Axl Rose num show ruim do que o melhor e mais implacável show do Maroon 5. Do mesmo jeito que eu acho que uma voz grossa é melhor do que uma voz fina. Me processem.

ps. sem contar que o público que tá lá na chuva gritando o nome da banda, ta feliz com o show.

Diálogo 1. Desencontro

Publicado em Contos, Crônicas

– Então é isso? Você tá indo embora?
– É. É exatamente isso. Eu to indo embora. E você pode ser gentil e por favor me ajudar a pegar essas coisas da prateleira de cima?
– Então você vai embora e quer a minha ajuda?!
– Desculpa. Eu achei que nós fôssemos amigos.
-….
-…?
-Se eu não tivesse aparecido aqui eu só ia chegar e ver o apartamento vazio. Ou você ia me dizer?
– Não, eu não ia lhe dizer.
– Mulher é tudo a mesma coisa.
-Claro que sim.
-Então isso foi uma ironia?
-O que você acha, Mauro?
– Acho que isso foi sarcasmo.
-E?
-E é uma filhadaputagem sua ir embora sem me avisar. Eu moro com você, esqueceu?
– E você sempre odiou morar com outra pessoa, esqueceu?
-Porque dividir lugar é uma merda. Você sabe disso. A gente discutiu isso um milhão de vezes.
-É, a gente discutiu isso um milhão de vezes. E você veio morar aqui só por conta da vizinhança infeliz que você tinha. Eu sei, mas…
-Você tinha que me avisar que tava indo embora. E se eu não pudesse bancar o lugar sozinho?!?! Você nem pensou nisso, ne? Você nunca pensa em nada, é sempre essa bagunça.
– … É. Eu nunca penso em nada, né?
– Desenvolve…
-Não. Sai daqui, por favor.
– Olha. Eu só fiquei surpreso com essa sua mudança repentina.
-Não é repentina.
-É repentina porque eu sou o principal interessado e só estou sabendo por acidente. E a quanto tempo você vem pensando nisso?
-Desde que eu vi que não estava funcionando.
-E por que caralhos você não me disse nada? E por que você tá chorando? Eu fiz alguma coisa errada?
– Nada, Mauro. Eu que fiz. Mas eu vou me mudar e vai ser tudo como antes. Agora vamos mudar de assunto? Você viu a minha camiseta?
– E o que foi que você fez?
– Ai, tudo precisa mesmo ser dito?
-Tá! A sua linguagem corporal me diz que você tá com raiva e não sei o que foi que houve. E eu estou perguntando gentilmente se aconteceu alguma coisa e o que. Eu entro em casa e você tá arrumando mala e empacotando coisas e eu vejo que você vai se mudar e eu não fiquei sabendo disso antes… porra! Eu moro aqui também, não merecia um aviso? Nada? E você tá chorando como se nós fôssemos namorados rompendo e eu não sei o que fazer. Dá pra voltar à normalidade e me dizer alguma coisa? Se você não quiser eu volto outra hora e a gente conversa.
-“como se nós fôssemos namorados…”
-Ah! Então é isso?! Olha Fernanda, eu sempre disse pra não se apaixonar por mim… Eu não sou material pra amor. Eu aprendi a minha lição.
-Ora por favor….
-Por favor o que?
-Eu estou indo embora porque eu cansei de ficar esperando você deixar de ser palhaço
-Eu? Eu sou palhaço?
-E moleque. “Ah eu não sou material pra namoro eu aprendi a lição muito bem” Quantos anos você tem, 12?
– Você tá fora de si, eu volto depois.
-Claro, é a tua mania de ir embora e só ver o que você quer ver, né?
– Do que você está falando?
-De sempre. De todo dia. De você insistir em etiquetar coisas na geladeira com o teu nome. De você falar comigo pelo MSN quando é só bater na minha porta. De você me beijar e fazer questão de contar os contos das mulheres quase bonitas com quem você não fica por um senso de oportunidade que você diz que não tem, mas funcionou bem pra me levar pra cama. De você me pedir pra ficar quando eu tenho encontros, de você aparecer nos meus encontros, de você se aborrecer comigo por eu ter me atrasado pra coisas que eu marco com você e nunca dá as caras quando é o contrário. De você sumindo uma semana e meia depois que a gente transou. É disso que eu tô falando.
– A gente divide o apartamento. A gente não tem nada um com o outro. Mulher é um negócio estranho. Tão sempre querendo casar e amor eterno e ignorando a realidade. Que nem homem, mas sem nenhum senso lógico.
-É verdade. Somos todas loucas.
-Fernanda, eu não sou ….
-“Emocionalmente disponível”. Eu sei. Você vai insistir nisso até não ter sobrado ninguém na tua vida. Não vou conseguir levar todas essas coisas, você pode dar um fim nesses cremes e nessas roupas velhas?
– Ah… lá vem você com essa conversa mulherzinha sobre intimidade. Eu não quero namorar. Eu não quero me casar, eu não quero filhos, eu não quero dividir cama, banheiro,conta conjunta, poupança pra pagar faculdade de filho, macarronada de domingo, eu não quero essa porra toda. Eu sou um homem diferente, eu não vou cair nessa conversa de que intimidade é bom. Você é minha amiga e eu gosto muito de você, a gente transou algumas vezes e é legal conversar com você mas é isso.
-Eu não estou pedindo nada, Mauro. Eu só estou indo embora. Eu sei que você não está emocionalmente disponível, eu sei que você não vai estar. Então eu vou embora. Eu vou fazer mestrado em Sorbonne. Eu vou pra a França, Mauro. E você vai ser ‘lobo solitário’ sozinho aqui também.
-FRANÇA?! Como assim você vai pra a França? Que história é essa?
-Não tem história. Eu fiz uns exames um tempo atrás e eu recebi o resultado há algumas semanas e eu vou pra embarcar amanhã meio dia.
-Semanas? Você sabe disso tem semanas e não pensou em me dizer? E é que dá valor a intimidade. Mulher é tudo igual…
-Ah é?! A mulher que te chifrou também foi embora?
-Ela… ela não me chifrou. Porra. Ela tinha…
-Então ela fez alguma coisa muito pior. Ela fodeu com a tua vida e tá fodendo até hoje e você pensa que tá muito bem na fita com essa conversa imbecil de emocionalmente indisponível. Eu ia te contar, eu te conto tudo.
– Menos que você vai embora e vai pra a França estudar. Ou qualquer coisa útil.
-Não é justo. Eu ia te contar. Eu recebi a resposta no dia seguinte que a gente transou. Eu ia te contar, mas eu acordei e você tinha sumido. E você não voltou. E você nunca me disse onde foi. Eu não sabia o que fazer. Eu chamei o Eduardo, ele só não foi atrás de você oficialmente porque ele adivinhou que você é babaca e só tava sumindo pós sexo.
-Ai você correu pros braços do teu amiguinho babaca que quer te comer e só você que não enxerga! O “Dudu” aproveitou e falou mal de mim pra você porque você disse que a gente tinha transado, né?!
-Ele não falou mal de você, que inferno! Foi só uma observação. E você sumiu mesmo, não foi ele que inventou nada, você sumiu e eu fiquei aqui me sentindo mal. Mas eu entendi. Desculpa. Você não quer um relacionamento. Você não é emocionalmente disponível ou seja lá como se chame os teus traumas de namoros antigos e acha que isso é uma coisa válida. Eu respeito isso. E eu te conheço o suficiente pra achar que você pensou a respeito. Mas eu gosto de você. E eu quero um relacionamento e acho que nós poderíamos dar certo…
-… Fernanda, foi mal. Eu não queria. Mas a gente não devia ter transado. Você é minha amiga.
-Eu sei, eu só me deixei levar. Desculpa. Eu nem sei o porquê de tá insistindo nessa conversa, eu já tinha decidido nem tocar no assunto. Eu acho que nós poderíamos dar certo porque se você for pensar bem, a gente funciona bem junto. Mas eu não tenho mais como esperar você perceber nada. A gente sempre se deu tão bem junto. Eu vou embora, eu não queria sair de mal com você.
-Eu não quero perder a minha amiga. Por que a gente não sai pra comemorar a sua ida pra Paris? Liga pros teus amigos, vai ser legal.
-Eu já comemorei. Eu comemorei no dia que eu recebi. Você deve ter recebido os sms que eu mandei. Mas, sei lá, deve ter sido um daqueles dias em que você não se deixou ‘manipular’ pelas mulheres e não quis fazer a minha vontade vencer a sua ne?
– Pesou a mão.
– Você sumiu e eu não tenho tempo pra isso agora. Eu não consigo, entendeu? Eu vou embora. E é isso.
-E você pode me fazer um favor?
-O que?
-“Providencie uma chuva no seu primeiro dia. E não ande nunca com um guarda-chuva porque eu ouvi dizer que quando chove, a cidade fica mais bonita”.
– Poxa, você se lembra… Mas é cheirosa que a cidade fica na chuva.
-Lembro sim. Eu sei da tua paixão pelo cinema antigo. Você é minha amiga e eu gosto de você.
-Tá. Eu providenciarei a chuva. E, ó… Fica com o meu guarda chuva. Eu não vou precisar dele lá. Mas ó, a gente sempre vai ser amigo e eu vou esquecer isso e quando você for até lá, me avise. Adeus, Mauro.
-Adeus agora? Eu não vou mais te ver antes de você viajar?
-Não, eu to indo pra a casa da Ju, ela preparou uma festa do pijama. Você tá livre do cheiro do meu perfume. Haha. E o encanador finalmente resolveu o problema dos canos do meu banheiro. Você tá finalmente livre das minhas calcinhas penduradas no teu. Seja por uma razão ou por outra. Eu só queria saber onde será que foi parar a minha camiseta branca. Não tá em lugar nenhum  e eu gosto dela pra caramba… Mas deixa pra lá, eu vou pra a França e não há de faltar roupa na capital da moda, talvez só não sejam tão confortáveis, né?
-Deve ter perdido. Você é tão estabanada e bagunceira. Esse quarto é o caos, você precisa ser mais organizada.
-Bem, vou indo. Até, Mauro.
-Até, Fernanda. Boa viagem, sucesso. Me escreve.
-Mauro…
– O que?
– Nada. Me dá um abraço.
-hahah Eu vou sentir saudade.
-Eu também. Tchau.
-Tchau.
Ele fecha a porta. Respira fundo. Entra no próprio quarto e abre a gaveta onde guarda as cuecas. Ouve barulho de gente entrando e corre para a sala para ver Fernanda colocando as chaves na mesa.
-Não vou mais precisar.
-Ahh… tá certo. Tchau. Você vai de vez? Sabe quando esse curso acaba?
-Tchau.
Ela vai embora. E ele pensa em uns trinta jeitos diferentes de pedir pra ela ficar segurando a camiseta dela escondida na gaveta dele.