Diálogo 1. Desencontro

– Então é isso? Você tá indo embora?
– É. É exatamente isso. Eu to indo embora. E você pode ser gentil e por favor me ajudar a pegar essas coisas da prateleira de cima?
– Então você vai embora e quer a minha ajuda?!
– Desculpa. Eu achei que nós fôssemos amigos.
-….
-…?
-Se eu não tivesse aparecido aqui eu só ia chegar e ver o apartamento vazio. Ou você ia me dizer?
– Não, eu não ia lhe dizer.
– Mulher é tudo a mesma coisa.
-Claro que sim.
-Então isso foi uma ironia?
-O que você acha, Mauro?
– Acho que isso foi sarcasmo.
-E?
-E é uma filhadaputagem sua ir embora sem me avisar. Eu moro com você, esqueceu?
– E você sempre odiou morar com outra pessoa, esqueceu?
-Porque dividir lugar é uma merda. Você sabe disso. A gente discutiu isso um milhão de vezes.
-É, a gente discutiu isso um milhão de vezes. E você veio morar aqui só por conta da vizinhança infeliz que você tinha. Eu sei, mas…
-Você tinha que me avisar que tava indo embora. E se eu não pudesse bancar o lugar sozinho?!?! Você nem pensou nisso, ne? Você nunca pensa em nada, é sempre essa bagunça.
– … É. Eu nunca penso em nada, né?
– Desenvolve…
-Não. Sai daqui, por favor.
– Olha. Eu só fiquei surpreso com essa sua mudança repentina.
-Não é repentina.
-É repentina porque eu sou o principal interessado e só estou sabendo por acidente. E a quanto tempo você vem pensando nisso?
-Desde que eu vi que não estava funcionando.
-E por que caralhos você não me disse nada? E por que você tá chorando? Eu fiz alguma coisa errada?
– Nada, Mauro. Eu que fiz. Mas eu vou me mudar e vai ser tudo como antes. Agora vamos mudar de assunto? Você viu a minha camiseta?
– E o que foi que você fez?
– Ai, tudo precisa mesmo ser dito?
-Tá! A sua linguagem corporal me diz que você tá com raiva e não sei o que foi que houve. E eu estou perguntando gentilmente se aconteceu alguma coisa e o que. Eu entro em casa e você tá arrumando mala e empacotando coisas e eu vejo que você vai se mudar e eu não fiquei sabendo disso antes… porra! Eu moro aqui também, não merecia um aviso? Nada? E você tá chorando como se nós fôssemos namorados rompendo e eu não sei o que fazer. Dá pra voltar à normalidade e me dizer alguma coisa? Se você não quiser eu volto outra hora e a gente conversa.
-“como se nós fôssemos namorados…”
-Ah! Então é isso?! Olha Fernanda, eu sempre disse pra não se apaixonar por mim… Eu não sou material pra amor. Eu aprendi a minha lição.
-Ora por favor….
-Por favor o que?
-Eu estou indo embora porque eu cansei de ficar esperando você deixar de ser palhaço
-Eu? Eu sou palhaço?
-E moleque. “Ah eu não sou material pra namoro eu aprendi a lição muito bem” Quantos anos você tem, 12?
– Você tá fora de si, eu volto depois.
-Claro, é a tua mania de ir embora e só ver o que você quer ver, né?
– Do que você está falando?
-De sempre. De todo dia. De você insistir em etiquetar coisas na geladeira com o teu nome. De você falar comigo pelo MSN quando é só bater na minha porta. De você me beijar e fazer questão de contar os contos das mulheres quase bonitas com quem você não fica por um senso de oportunidade que você diz que não tem, mas funcionou bem pra me levar pra cama. De você me pedir pra ficar quando eu tenho encontros, de você aparecer nos meus encontros, de você se aborrecer comigo por eu ter me atrasado pra coisas que eu marco com você e nunca dá as caras quando é o contrário. De você sumindo uma semana e meia depois que a gente transou. É disso que eu tô falando.
– A gente divide o apartamento. A gente não tem nada um com o outro. Mulher é um negócio estranho. Tão sempre querendo casar e amor eterno e ignorando a realidade. Que nem homem, mas sem nenhum senso lógico.
-É verdade. Somos todas loucas.
-Fernanda, eu não sou ….
-“Emocionalmente disponível”. Eu sei. Você vai insistir nisso até não ter sobrado ninguém na tua vida. Não vou conseguir levar todas essas coisas, você pode dar um fim nesses cremes e nessas roupas velhas?
– Ah… lá vem você com essa conversa mulherzinha sobre intimidade. Eu não quero namorar. Eu não quero me casar, eu não quero filhos, eu não quero dividir cama, banheiro,conta conjunta, poupança pra pagar faculdade de filho, macarronada de domingo, eu não quero essa porra toda. Eu sou um homem diferente, eu não vou cair nessa conversa de que intimidade é bom. Você é minha amiga e eu gosto muito de você, a gente transou algumas vezes e é legal conversar com você mas é isso.
-Eu não estou pedindo nada, Mauro. Eu só estou indo embora. Eu sei que você não está emocionalmente disponível, eu sei que você não vai estar. Então eu vou embora. Eu vou fazer mestrado em Sorbonne. Eu vou pra a França, Mauro. E você vai ser ‘lobo solitário’ sozinho aqui também.
-FRANÇA?! Como assim você vai pra a França? Que história é essa?
-Não tem história. Eu fiz uns exames um tempo atrás e eu recebi o resultado há algumas semanas e eu vou pra embarcar amanhã meio dia.
-Semanas? Você sabe disso tem semanas e não pensou em me dizer? E é que dá valor a intimidade. Mulher é tudo igual…
-Ah é?! A mulher que te chifrou também foi embora?
-Ela… ela não me chifrou. Porra. Ela tinha…
-Então ela fez alguma coisa muito pior. Ela fodeu com a tua vida e tá fodendo até hoje e você pensa que tá muito bem na fita com essa conversa imbecil de emocionalmente indisponível. Eu ia te contar, eu te conto tudo.
– Menos que você vai embora e vai pra a França estudar. Ou qualquer coisa útil.
-Não é justo. Eu ia te contar. Eu recebi a resposta no dia seguinte que a gente transou. Eu ia te contar, mas eu acordei e você tinha sumido. E você não voltou. E você nunca me disse onde foi. Eu não sabia o que fazer. Eu chamei o Eduardo, ele só não foi atrás de você oficialmente porque ele adivinhou que você é babaca e só tava sumindo pós sexo.
-Ai você correu pros braços do teu amiguinho babaca que quer te comer e só você que não enxerga! O “Dudu” aproveitou e falou mal de mim pra você porque você disse que a gente tinha transado, né?!
-Ele não falou mal de você, que inferno! Foi só uma observação. E você sumiu mesmo, não foi ele que inventou nada, você sumiu e eu fiquei aqui me sentindo mal. Mas eu entendi. Desculpa. Você não quer um relacionamento. Você não é emocionalmente disponível ou seja lá como se chame os teus traumas de namoros antigos e acha que isso é uma coisa válida. Eu respeito isso. E eu te conheço o suficiente pra achar que você pensou a respeito. Mas eu gosto de você. E eu quero um relacionamento e acho que nós poderíamos dar certo…
-… Fernanda, foi mal. Eu não queria. Mas a gente não devia ter transado. Você é minha amiga.
-Eu sei, eu só me deixei levar. Desculpa. Eu nem sei o porquê de tá insistindo nessa conversa, eu já tinha decidido nem tocar no assunto. Eu acho que nós poderíamos dar certo porque se você for pensar bem, a gente funciona bem junto. Mas eu não tenho mais como esperar você perceber nada. A gente sempre se deu tão bem junto. Eu vou embora, eu não queria sair de mal com você.
-Eu não quero perder a minha amiga. Por que a gente não sai pra comemorar a sua ida pra Paris? Liga pros teus amigos, vai ser legal.
-Eu já comemorei. Eu comemorei no dia que eu recebi. Você deve ter recebido os sms que eu mandei. Mas, sei lá, deve ter sido um daqueles dias em que você não se deixou ‘manipular’ pelas mulheres e não quis fazer a minha vontade vencer a sua ne?
– Pesou a mão.
– Você sumiu e eu não tenho tempo pra isso agora. Eu não consigo, entendeu? Eu vou embora. E é isso.
-E você pode me fazer um favor?
-O que?
-“Providencie uma chuva no seu primeiro dia. E não ande nunca com um guarda-chuva porque eu ouvi dizer que quando chove, a cidade fica mais bonita”.
– Poxa, você se lembra… Mas é cheirosa que a cidade fica na chuva.
-Lembro sim. Eu sei da tua paixão pelo cinema antigo. Você é minha amiga e eu gosto de você.
-Tá. Eu providenciarei a chuva. E, ó… Fica com o meu guarda chuva. Eu não vou precisar dele lá. Mas ó, a gente sempre vai ser amigo e eu vou esquecer isso e quando você for até lá, me avise. Adeus, Mauro.
-Adeus agora? Eu não vou mais te ver antes de você viajar?
-Não, eu to indo pra a casa da Ju, ela preparou uma festa do pijama. Você tá livre do cheiro do meu perfume. Haha. E o encanador finalmente resolveu o problema dos canos do meu banheiro. Você tá finalmente livre das minhas calcinhas penduradas no teu. Seja por uma razão ou por outra. Eu só queria saber onde será que foi parar a minha camiseta branca. Não tá em lugar nenhum  e eu gosto dela pra caramba… Mas deixa pra lá, eu vou pra a França e não há de faltar roupa na capital da moda, talvez só não sejam tão confortáveis, né?
-Deve ter perdido. Você é tão estabanada e bagunceira. Esse quarto é o caos, você precisa ser mais organizada.
-Bem, vou indo. Até, Mauro.
-Até, Fernanda. Boa viagem, sucesso. Me escreve.
-Mauro…
– O que?
– Nada. Me dá um abraço.
-hahah Eu vou sentir saudade.
-Eu também. Tchau.
-Tchau.
Ele fecha a porta. Respira fundo. Entra no próprio quarto e abre a gaveta onde guarda as cuecas. Ouve barulho de gente entrando e corre para a sala para ver Fernanda colocando as chaves na mesa.
-Não vou mais precisar.
-Ahh… tá certo. Tchau. Você vai de vez? Sabe quando esse curso acaba?
-Tchau.
Ela vai embora. E ele pensa em uns trinta jeitos diferentes de pedir pra ela ficar segurando a camiseta dela escondida na gaveta dele.

6 ideias sobre “Diálogo 1. Desencontro

  1. Adorei o diálogo, simplesmente muito bem elaborado… Tentarei acompanhar o seu blog sempre que for possível, bem como ir ‘voltando’ no tempo das postagens.
    Mas… me tira uma dúvida? Para que o “?!?!” ? Só um ‘?!’ não traria o mesmo significado?

    P.S.: Uma descrição de cenário seria muito bem-vinda, mesmo que ela fosse diluída no meio do texto(para não quebrar com a ideia de ir desvendando o que está ocorrendo na cena).

    Abs e boa sorte!

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