Todos são críticos

Eu comecei a escrever com onze anos. Tudo começou com um caderno que ninguém podia ver. Tudo começou sentimental, sem roteiro, sem história, sem leitores. A maior parte das coisas que eu escrevi na vida eu nem mesmo reli ou mostrei a quem quer que fosse. Era mais pra tirar da cabeça o que ia ao pensamento, eu não tinha muita gente com quem conversar. E eu fui educada pra não chorar, ter sentimentos ou demonstrar fraqueza. 
Nada do que eu escrevi nesse caderninho deixou de soar piegas, dramático, exagerado ou dramático. E nem eu tinha qualquer amor por nada que tivesse ali a ponto de deixar de jogar o caderno no lixo quando a última página fosse preenchida.
Antes de mostrar algum caderno inteiro pra alguém, escrevi uma história de amor cosplay de romances Nova Cultural, assim… DOCE DE MAMÃO COM AÇÚCAR que fez sucesso entre as amigas e que o professor de literatura pegou sem eu saber e fez uma série de anotações em vermelho dando uns toques. E ele fez um auê tão grande com isso que eu me senti muito especial e talentosa. Professor Álvaro, onde você tiver, eu te amo. Aqueles cadernos, mesmo, os que substituíam psicólogos e amigos, eu não mostrei pra ninguém.
Eu também tinha uma amiga que estava sempre se gabando de amigos poetas que lhe escreviam poesias que ela exibia orgulhosa no caderno dela. Eu gostava da poesia deles, mesmo que não gostasse muito de poesia. Daí, mandei meu caderno pra um deles, que voltou com uma cartinha rimada, um pequeno poema que Fernando Pessoa que me desculpe, mas é meu preferido até hoje. Foi assim que eu conheci os gêmeos Álesson e Alessandro. 
Nada do que eu escrevi nesse tempo foi pensando em ser escritora. Nada do que eu escrevi nessa época foi pensado, planejado, estruturado. E graças a Alesson que jamais me devolveu o último caderno, tudo se perdeu para todo o sempre, amém. Primeiro que era tudo sentimental demais, como tinha que ser, para eu querer ler de novo. Segundo que não quero mais, e pronto. Nem tudo o que se escreve precisa ser mostrado, do mesmo modo que ter uma câmera não faz de ninguém um fotógrafo e comer não transforma ninguém em um talento da gastronomia. Eu não era escritora porque eu escrevia (e não sou agora). Ser escritor está além. Implica viver disso, eu no máximo vivo com isso.
Eu sempre quis ser escritora, desde sempre, única vontade que nunca passou. E eu senti um frio na barriga que só de lembrar sinto de novo quando a minha professora publicou sem eu saber um conto curto e bobo meu no Clandestino, que voltou a ativa e a professora Karine e Mário Gerson não vão saber nunca a alegria que me deram com aquele “escritora” embaixo do meu nome. 
Do meu caderninho secreto com onze anos até hoje, muita coisa mudou (e falta ainda muito). Eu perdi a vergonha, aprendi a levar a coisa mais a sério, conheci meus leitores que me leem por cima do meu ombro ainda que eu nunca tenha visto na vida. Conheci pessoas cuja opinião eu realmente escuto ( e me leem sem revisão, no primeiro rascunho, cru e seco). Tenho um blog onde eu fui me despindo de pudores, de personagens, e fui me mostrando tanto que quem me lê há mais tempo consegue ver algum crescimento. E fui ter quase crise de pânico quando me convidaram pra falar sobre ser escritora na Feira do Livro daqui. Se isso faz de mim uma escritora reconhecida pela minha própria comunidade eu não sei, mas me faz feliz pra caramba.
Hoje eu estava zapeando pela internet enquanto fazia de conta que estudava e caí num site para novos autores feito por novos autores de um amigo meu. Tinha um texto lá falando de seis ‘defeitos terríveis’ de escritores. E o cara desenvolveu uma crítica pouco clara, nada objetiva, absurdamente arrogante e com uns erros de grafia que me fizeram precisar de alguma boa vontade pra não colocar tudo na conta do “vou fazer de conta que eu não vi” e seguir com a vida.
O negócio é que o amigo administrador do site é um amigo de quem eu gosto e eu sei que o site está lá por causa de muita boa vontade que ele tem para ajudar quem tá começando e dividir informações. Acho louvável. Mas nem tudo são flores. Eu tenho percebido que a coisa anda piorando depois que eu comecei a prestar atenção. Aparentemente ser crítico é descer a lenha do modo mais inconsequente possível. E está até ficando chato ver a voz que é contra tudo e todos se levantando sempre pra tudo. O texto do menino ficou na minha cabeça. Conversei com o meu amigo depois, ele disse que o autor do texto deu uma cacetada nele tão grande que ele parou de escrever durante um tempão. Achei meio irresponsável. 
Então, jovens autores, como eu, eu tenho uma dica. Só uma. Cuidado com as críticas. A crítica existe para que você melhore. Mas existe a que é feita com responsabilidade e respeito e existe aquela que te diminui e te faz se sentir incompetente. O melhor crítico é aquele que te ajuda sem destruir seu espírito. Ele deixa que você saiba que gostou, quando gostar. E sabe a diferença entre o que ele não gostou porque o que você escreveu não se adequa às preferências dele, não necessariamente implicando que está ruim. E aponta os defeitos que ele encontra em coisas que ele pode ou não ter gostado. E respeita tudo o que faz do texto o seu texto, sem implicar em traumas. E é preciso algum senso crítico seu mesmo para saber filtrar e crescer sem que o seu trabalho seja mais do mesmo.
Acredito que ser um bom crítico seja tão difícil quanto ser bom escritor. De verdade. Apesar do que uns e outros fazem parecer.

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