Minha Primeira Ruga

Publicado em Crônicas, Idiossincrasias

As coisas que eu quero andam com a mania feia de serem incompatíveis com aquelas que eu preciso. E nessa escala de urgência se leva a vida inteira. Aquela prova de história no segundo ano que me tirou do cinema com aquele “amigo” pra me jogar no meio de uma civilização antiga que era bem cruel e que agora não me ocorre o nome. Quando o delta do Nilo, a área do triângulo e o movimento retilíneo uniforme são mais importantes do que ter dezesseis anos.

Você deixa de fazer o que você quer, e eu queria mais o cinema que o amigo, pra fazer o que você precisa e com isso ganha um título de responsável. As pessoas te levam a sério, escutam o que você tem a dizer. E eu ganhei toda uma reputação de inteligente e responsável por adiar minhas vontades até que as obrigações estivessem satisfatoriamente executadas.

Tomei algumas decisões profissionais estranhas. Fiz coisas que não gostaria. Cheguei onde eu não planejei. Mas nunca, em nenhum momento, eu achei que as coisas que eu quero e gosto não dariam certo ou chegariam nunca. Minha protelação com as minhas ambições pessoais é tal que me atrapalha. E eu acredito que é só por essa fé descabida de escrever todos os contos do caderno de capa azul (meu caderno de ideias para contos que fica ao lado da cama), ir a todos aqueles lugares do livro da Elizabeth Kostova, ver todos os restos de história que eu via nas aulas ainda hoje resistindo a uma modernidade atroz que me faz adiar os momentos.

E eu aprendi a apreciar o momento enquanto faço o que eu quero e a estender em nome de um otimismo travestido de protelação. Daí fico mais dez minutos ao telefone com aquele amigo distante, mais meia hora no messiene com aquele outro amigo com quem é divertido reclamar da vida e mais uma semana longe de casa. E eu venho percebendo que meu paladar mudou. Eu ando menos de sair, menos de lugar, mais de pessoas, mais de mim. Meus livros ganharam mais peso, como os filmes, silêncios, conversas. Melhor lugar continua os privados, mas estão infinitamente superiores. Tem sido melhor ficar em casa. Tem sido melhor tudo.Até o meu cabelo. 

Até que um dia, e esse dia chega pra todo mundo, eu achei minha primeira ruga. E ela me soou como uma marca de que as escolhas que eu adiei e que achei que viessem um dia podem não chegar. E a rotina de limpeza do rosto mudou. Agora eu quero mais tempo. Mais tempo pra cumprir o que eu tenho que fazer. Mais tempo pro que eu quero fazer que não é mais depois. E sou eu voltando a escrever depois de meses. Eu cheia de coisas a dizer depois de encarar minha primeira ruga constantemente depois de três dias.

No começo, eu odiei. Eu a encarei entre lágrimas. Estou envelhecendo, estou morrendo, acabando. Eu não fiz o que eu tinha que fazer ainda, como eu posso já ter uma ruga? E aí eu vi que a ruga, mais que o sinal do tempo, é um lembrete de quem eu sou. Ela está acima da minha sobrancelha esquerda. E veio de tanto eu arquear tentando entender a vida, o comportamento das pessoas e o sucesso de calças saruel, mechas californianas, tatuagem de estrela na nuca e borboleta no ombro, roupas de tafetá, luzes vermelhas no cabelo e unhas decoradas. Nunca entendi, mas não deixei de me perguntar. 

A minha ruga vem do meu constante estranhamento com a vida, de me preocupar demais, de ficar triste com a constante necessidade de bagunçarem minha internet. Vem da minha capacidade de me surpreender, assustar, e me embasbacar com o mundo. Também me lembra de que eu ando muito mais centrada e menos nostálgica, lembrando que as coisas tem sempre um início e um fim, ando de bem com isso. Comecei a gostar dela, mesmo eu achando que a primeira ruga que eu acharia seria o bigode chinês de tanto eu rir. Acho que tenho estado mais pensativa do que sorridente, mas é bom saber que eu penso mais. É isso ou as risadas são rejuvenescedoras, o que me restaura a fé na vida mesmo que eu precise usar anti-idade. 
Engraçado que encontrar minha primeira ruga tenha me feito mudar, ou ver que mudei, tanto. Eu começo a esquecer nomes de pessoas da televisão que sempre soube, mas meu raciocínio nunca foi tão veloz. Não me lembro da roupa que usei pra sair com os meus amigos mais novos a última vez que fiz, mas me aproximei das antigas amigas, que por uma razão e outra chamada vida, acabei afastada. Eu ando a mesma eu que era aos dezesseis, mas numa versão tão melhor internamente que se me contassem, nem eu mesma acreditaria. Anna, aos 16, tinha tanto desejo de mundo quanto eu tenho de continuar “caminhando pra dentro”, como disseram no meu outro blog. É como se aquela pessoa que eu era tivesse morrido, mas eu já aprendi que o que morre é sempre o ponto de vista.

E eu até voltei a escrever.

Livros: Jakob von Gunten, de Robert Walser

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Jakob Von Gunten é o diário do próprio Jakob, enquanto foi aluno do Instituto Benjamenta, escola para a formação de servos. Um lugar perturbador onde se aprende a abandonar o impulso individual em nome do melhor servir, quase como uma lavagem cerebral mesmo. “Honroso para os pupilos é seu adestramento, isso está mais do que claro”. Sendo o adestramento também razão de críticas: “Para o inferno com essa brandura que só faz nos desencaminhar”, observa o rapaz.
Jakob está sempre lembrando sua família nobre e de posses e reafirmando sua decisão de crescer pelas próprias mãos, o que talvez reflita a solidão do próprio Walser. Jakob por vezes se questiona por sua decisão, exaltando a nobreza da família, para em seguida abraçar o servilismo. É um livro doloroso. Assombrou-me desde a reunião do Clube do Livro da Cia das Letras. Não é uma leitura simples, mas a dificuldade vem do questionamento que traz, mais do que por qualquer dificuldade que o livro apresente. É um livro angustiante, repleto de receios particulares e nos enigmas mentais do narrador, que por vezes se confunde com o incompreendido Walser, que só nos dias de hoje é amplamente aceito como uma das grandes influências da narrativa moderna e seca que vemos Coetzee e Kafka.
É interessante notar a sexualidade confusa de Jakob, uma sexualidade que viaja entre mulheres e homens sem chegar exatamente a lugar algum, ele parece apaixonado pela Sra Benjamenta ao mesmo tempo em que confessa sentimentos confusos pelo Kraus, colega de instituto: “Uma ocasião, ousei tomar-lhe a mão suavemente”, escreve em seu diário; e mais adiante: “Se, então, contemplo Kraus, apodera-se de mim uma satisfação profunda, maravilhosa”, sendo este Kraus o contraponto ideal à personalidade de Jakob.
Já nas páginas finais, Jakob, incapaz de ser plenamente servil, desafia o diretor e este lhe diz que ele jamais deixará o Instituto. Jakob expõe uma risada histérica, mas a desfaçatez de sua conduta não o impede de ficar no Benjamenta, ainda tentando calar seu pensamento interior até o desfecho. 
É aceito que o livro tenha notas autobiográficas. Então, podemos entender a obra de Walser como um tratado sobre seus dias no sanatório e muitas das frustrações pessoais do escritor são transmitidas e modeladas através de Jakob Von Guten. Jakob diz que só existe em suas questões interiores e mesmo ao abandonar o Instituto, não deixa a prisão de seus pensamentos.
Livro lido no Clube do Livro da Cia. das Letras.