Livros: Jakob von Gunten, de Robert Walser

Jakob Von Gunten é o diário do próprio Jakob, enquanto foi aluno do Instituto Benjamenta, escola para a formação de servos. Um lugar perturbador onde se aprende a abandonar o impulso individual em nome do melhor servir, quase como uma lavagem cerebral mesmo. “Honroso para os pupilos é seu adestramento, isso está mais do que claro”. Sendo o adestramento também razão de críticas: “Para o inferno com essa brandura que só faz nos desencaminhar”, observa o rapaz.
Jakob está sempre lembrando sua família nobre e de posses e reafirmando sua decisão de crescer pelas próprias mãos, o que talvez reflita a solidão do próprio Walser. Jakob por vezes se questiona por sua decisão, exaltando a nobreza da família, para em seguida abraçar o servilismo. É um livro doloroso. Assombrou-me desde a reunião do Clube do Livro da Cia das Letras. Não é uma leitura simples, mas a dificuldade vem do questionamento que traz, mais do que por qualquer dificuldade que o livro apresente. É um livro angustiante, repleto de receios particulares e nos enigmas mentais do narrador, que por vezes se confunde com o incompreendido Walser, que só nos dias de hoje é amplamente aceito como uma das grandes influências da narrativa moderna e seca que vemos Coetzee e Kafka.
É interessante notar a sexualidade confusa de Jakob, uma sexualidade que viaja entre mulheres e homens sem chegar exatamente a lugar algum, ele parece apaixonado pela Sra Benjamenta ao mesmo tempo em que confessa sentimentos confusos pelo Kraus, colega de instituto: “Uma ocasião, ousei tomar-lhe a mão suavemente”, escreve em seu diário; e mais adiante: “Se, então, contemplo Kraus, apodera-se de mim uma satisfação profunda, maravilhosa”, sendo este Kraus o contraponto ideal à personalidade de Jakob.
Já nas páginas finais, Jakob, incapaz de ser plenamente servil, desafia o diretor e este lhe diz que ele jamais deixará o Instituto. Jakob expõe uma risada histérica, mas a desfaçatez de sua conduta não o impede de ficar no Benjamenta, ainda tentando calar seu pensamento interior até o desfecho. 
É aceito que o livro tenha notas autobiográficas. Então, podemos entender a obra de Walser como um tratado sobre seus dias no sanatório e muitas das frustrações pessoais do escritor são transmitidas e modeladas através de Jakob Von Guten. Jakob diz que só existe em suas questões interiores e mesmo ao abandonar o Instituto, não deixa a prisão de seus pensamentos.
Livro lido no Clube do Livro da Cia. das Letras.

Uma ideia sobre “Livros: Jakob von Gunten, de Robert Walser

  1. Agora eu fiquei com vontade de ler. Mas deve ser esses livros bem inteligentes que vc pega pra ler e eu não entendo nada. Que nem você agora olha pras pinturas de Magritte e ENTENDE e eu olho e acho bonito ou feio, mas não ambos.
    Acho que meu negócio é número mesmo.

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