A cola

Publicado em Contos
Costumava ir à escola ansiosa. Não era uma coisa pensada, só ficava ansiosa de ir pensando que derrubaria alguma coisa de outra pessoa, esbarraria em alguém, deixaria alguma coisa quebrar ou as três coisas juntas. Nunca pensou muito sobre se ir assistir aulas era uma coisa boa ou ruim, confortável ou não até o segundo grau e mesmo lá atribuía muito mais a alguma natureza rebelde tipicamente adolescente do que ao raciocínio comum. Ia à escola porque todas as crianças iam e isso era tudo.

Também costumava achar que as rotinas eram iguais em todas as famílias, em todos os lares. Todos tinham três crianças: a mais velha, uma menina que achava que todos os lares eram iguais; o do meio um menino que era a realização dos sonhos do pai, carregava o nome dele, e era um tanto boboca (usava muito essa palavra quando tinha oito anos) e o caçula uma criança estranha que parecia muito com o avô materno. À tarde, nas férias, as mães de cabelo curtinho levavam seus filhos para passar à tarde na casa dos avós, havendo revezamento entre os maternos e paternos.

Ia à escola para aprender coisas e não ser burra, que era o que a mãe dizia e morria de medo de ser burra. Fazia as tarefas de casa, tirava boas notas, participava das apresentações temáticas e era odiada por uma menina loirinha que tinha tudo cor de rosa. Achava que tudo era igual em qualquer lugar que fosse.

A única coisa em que não conseguia boas notas era na aula de Ensino Religioso. A ideia de Deus em casa era uma coisa um tanto confusa. A mãe lhe contara uma vez que Deus criara o céu, a terra e todas as coisas. A mãe só queria o seu bem, como todas as mães. Achava que Deus era muito ocupado, criou tudo, todos, cuidou de pequenos detalhes, como a mania de todos os filhotes de serem fofinhos. Respeitava muito Deus, evitava ao máximo pedir a Ele qualquer coisa. Ele era muito importante e não podia perder tanto tempo com os problemas bobos de uma criança. A mãe dizia que crianças não tinham querer e deviam fazer silêncio enquanto o pai dormia.

Óculos e chaves eram as coisas mais importantes para Deus. A mãe e o pai gritavam e clamavam por Ele quando um dos objetos sumia na hora em que eram necessários. Achava que só pessoas importantes que tinham a chave de casa, usavam óculos e tinham querer podiam pedir coisas a Deus e o que pedissem precisava ser tão importante quanto chaves, óculos e desejos.

Não sabia que existiam religiões. Nunca ia para a igreja e nunca relacionou Deus com as igrejas. Não conseguia se interessar pelas aulas de Ensino Religioso na escola. Um dia a professora contou a história de Caim e Abel e ela perguntou com quem Caim se casou, já que só a família de Adão existia no planeta. A professora a expulsou de sala, disse-lhe pra deixar de ser insolente. A mãe foi chamada, a filha estava tumultuando a aula. A mãe ficou orgulhosa do raciocínio da filha, discutiu com a professora, disse que a filha tinha um futuro promissor e ela não foi punida. Começou a se sentir mais inteligente do que os colegas. Não conseguia esconder a alegria da consciência de sua superioridade intelectual.

Na prova de ensino religioso, respondia displicente e não se incomodava sequer em saber a nota. Aquela prova, naquele dia, tinha uma questão que não sabia. Qual era a religião dela. Não tinha. Não sabia. Não sabia de rituais para louvar o Deus dos óculos e das chaves. Não podia deixar a questão em branco porque ia perder o futuro promissor. Seria igual aos colegas menos inteligentes. Começou a tremer. Não sabia o que responder. A ideia toda lhe escapava. Prometeu nunca mais deixar de prestar atenção no que a professora dizia, mesmo que a professora não fosse muito inteligente e não soubesse que não se pode casar entre irmãos.

Pensou que era uma promessa para Deus. Fechou então os olhos e pediu em pensamento, em nome da promessa pessoa importante que teria óculos e chaves e poderia ter vontades, que lhe mostrasse a resposta. Abriu os olhos e viu que a colega ao lado havia escrito “católica apostólica romana” na questão. Sorriu. Agradeceu. A professora só dava pontos para respostas iguais. Escreveu que era católica apostólica mas não escreveu o romana para que não desconfiasse que pegou a resposta de outra menina. Deus realmente ajudava, mas colar era errado, aprendeu isso. Ficou doente, consumida pela culpa de ter roubado a inteligência da colega, mas achou que Deus tinha permitido. Se Deus permitiu que ela tivesse um desejo, que crianças nunca tinham, talvez ela também fosse ganhar óculos e chaves. Foi a primeira vez que colou. A primeira. Deus permitia. Experimentou uma sensação de estar tendo vantagens porque era inteligente. Dormiu em paz. Sonhou que Deus a amava.