Dos (nem tão) novos amigos, Paloma

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“A cor do amor é roxa.” ALBUQUERQUE, Mayara
 
E é bem isso que a gente aprende quando começa a andar com Paloma. Aqueles dedos fininhos encontram muito fácil o caminho de deixar hematominhas bem picotinhos no seu braço quando é sábado e você senta ao lado de Paloma numa mesa de bar. 
O tempo de encontrar com ela de novo é quando o roxo escuro vira um amarelo esverdeado suave. É quando a saudade começa a apertar de verdade. E é quando você começa a sentir falta de ver a cara dela de quem não tá entendendo o mundo ou tá se perguntando porque a coisa tá do jeito que tá. É uma das melhores companhias desse lado do Mississipi pra odiar Joffrey, pra gostar de bolo de chocolate, pra rir (ela ri como se tivesse levando um choque com a mão na boca e apontando para a graça e as sobrancelhas ficam arqueadas engraçado e ela fecha só um olho, como se fosse uma pessoa em forma de WTF porque aconteceu alguma coisa bem… bem… WTF), pra levar pra a Praça e comer tapioca e ganhou faz tempo o título de melhor coçadeira de barba fechada. E é ótima com um lápis, caneta, palito de dente na mão.
Ela também é uma safada e fica enchendo a internet de imoralidade. E eu ainda estou chocadíssima que o nome dela não é Paloma Mush. 
É fácil gostar de Paloma porque ela é legal daquele jeito que é dela, sabe? E ela é do tipo que marca você e cria laços com as coisas todas, de todos os jeitos. E você vai passando e vê uma corda enrolada e lembra dela sensualizando toda amarrada num ensaio fotográfico. E lembra do som da risada gostosa de cabrita que ela tem e ri junto. 
E hoje é o aniversário dela, e ela é tão legal que a gente ama mesmo ela sendo vegetariana e usa alargador.
Paloma, eu te desejo o sol meu bem, e o amor do mundo todo também. E que neste dia do seu nome tudo corra do jeito mais maravilhoso disponível e que suas fotos safadas na internet te deixem rica; que tenha sempre muita vida nos seus anos e que você seja sempre muito abençoada pelos antigos e novos deuses. Tão abençoada que a estrada daqui pra Quixadá encurte.
E tá na hora da gente se vê porque meus hematominas sumiram todos.

Cassandra

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I
O homem caminhou saltando levemente a cada sete passos que dava, evitando que o pé encostasse em cada pedra do calçamento equivalente ao sétimo passo. As mãos, lavadas cuidadosamente sete vezes após tocar em qualquer parte do banheiro, vinham postas nos bolsos da calça de brim vincadas a ferro. Os sapatos eram marrons, de bico fino e sem enfeites. Enfeites de sapato eram para homossexuais. 
A padaria estava cheia. Aguardou sua vez na fila a uma braçada de distancia da mulher gorda a sua frente. Ela tinha um perfume barato, a coisa começou a lhe incomodar. A mulher segurava uma criança que ainda não era capaz de cuspir e a criança estava agitada. A mulher começou a sacudir a criança para a direita e para a esquerda cadenciadamente cantarolando uma música de ninar sobre um gato que estava no telhado fazendo barulho e incomodava o sono do bebê. No meio da música, ela disse “sossegado”. O homem de sapatos de bico fino cuspiu para o lado esquerdo. 
A criança não se acalmava. A mulher não calava a boca e nem cantava um verso diferente. Xô xô gatinho de cima do telhado pra ver se esse menino dorme um sono sossegado. Sossegado. O homem cuspiu para o lado direito. Xô xô gatinho de cima do telhado pra ver se esse menino dorme um sono sossegado. Cuspiu para o lado esquerdo. . Xô xô gatinho de cima do telhado pra ver se esse menino dorme um sono sossegado. Cuspiu para o lado direito. Começou a coçar o pescoço quando a mulher recomeçou, até que perdeu a paciência e berrou que a mulher calasse a boca ou ele ficaria desidratado. A mulher sorriu, não pode evitar.
Comeu a fruta dando vinte e sete mastigadas a cada pedaço, como fez com o pão e fazia com tudo. Bebeu o leite. Tomou o café. Pagou a conta e estava saltando a pedra do sétimo passo no caminho para casa quando percebeu que a criança inquieta estava nos braços da mulher três passos atrás dele. Apressou-se. Saltou no sétimo passo. Olhou para trás. A mulher gorda ainda vinha atrás. Dobrou a esquina com o coração acelerado. Entrou no prédio por pouco esbarrando no homem de macacão que carregava um abajur grande. Apertou o botão do elevador após estalar todos os dedos da mão. Aguardou.
A mulher gorda entrou no saguão. O elevador não descia. A criança brincava com um unicórnio. A mulher se aproximava com um meio sorriso encabulado. 
– O senhor estava na padaria, não é mesmo? – a mulher gorda disse.
– Sim. A criança se acalmou.
– É, ela gosta do unicórnio, é só dar o unicórnio que ela se aquieta. 
A mulher pegou o unicórnio e aproximou e afastou do rosto da criança fazendo barulhos infantilizados. 
– Então porque você cantou a música se o cavalo com chifres resolveria rapidamente? 
A mulher lhe encarou perplexa.
– Como é?
– Não entendo porque usar métodos paralelos se existe um resultado eficaz conhecido de fácil acesso. É idiota.
– O senhor é doido?
– Não. 
O elevador chegou e o homem do abajur falou com a mulher gorda. O homem do sapato de bico fino entrou no elevador e comemorou o silêncio aliviado. Enquanto dava os oito passos que separavam o elevador de seu apartamento, viu uma moça sair pela escada e correr para a porta vizinha a sua. Ela parou antes de esbarrar nele. Sorriu e pediu desculpas pela afobação. Não era nada. Ele a viu entrar no apartamento ao lado e voltou até a porta do elevador para contar os passos novamente. A mulher lhe havia feito perder a conta.
Comecei esse conto para a coletânea Cassandras, mas nunca cheguei a concluir. Essa é a primeira parte. As outras espero que venham depois.