Das etiquetas que a vida dá

Publicado em Idiossincrasias

Quando eu sou perguntada sobre o que eu ando ouvindo, dificilmente eu posso responder nomes de bandas ou cantores, que é o que se espera. Eu não posso citar nem mesmo os estilos. Eu escuto canções. Não sou uma pessoa de me apegar só a isso ou aquilo. Qualquer coisa pode ter alguma coisa boa e isso não me obriga a gostar de todo o resto.
Do mesmo modo, é complicadíssimo para eu dizer que gosto desse ou daquele estilo, que sou desse ou daquele ideal filosófico, que gosto desse ou daquele gênero cinematográfico. Não é que eu seja “eclética”, é que eu sou livre. E olha, recomendo para ninguém. Não é o caminho da felicidade. 
Quando você é livre assim que nem eu, o normal é que vá entrar em debates e eu sou daquele tipo amaldiçoado que não foge de discussão. E eu sou do tipo de gente idiota que não se importa que todo mundo concorde comigo. Não importa mesmo. Eu até prefiro quando existe discordância por que que conhecimento agrega só ouvir quem me diz “sim, Anna Ingrid, você está coberta de razão”?!
Então cá estou eu com meus livros variados, minha playlist sempre muito depreciada pelos amigos que conhecem meu ID no YouTube, minha peculiar aparente falta de coerência. E do lado de lá tá o mundo e a internet sempre implacáveis. E na internet, como no mundo, quando você diz alguma coisa, a pessoa que te lê não consegue se despir de conceitos que ela já tem, daí você fica feito um dois de paus falando claramente e a pessoa só entende o que ela quer, parece matéria da Veja. 
E eu me aborreço. E as pessoas me aparecem com essa obrigação de porte de etiqueta e olha, não me encaixo em nada, desculpa. Eu até queria. Olha que fácil: fulano é petista, beltrano é fã de Sandy & Jr, cicrano gosta de soft porn na band e Caio gosta de ler aventura, Mévio gosta de suspense, Tício é francês. Eu sou a vira-latas que faz teste vocacional e dá inconclusivo; que escuta Sinatra num dia e sofre de amor vendo filme de Stallone; que desconhece assunto que não sirva para piada ou de interesse. 
O teste que eu fiz que deu certo foi aquele de “Qual personagem de Game of Thrones você é?” e saí feliz da vida que deu Daenarys e eu sempre achei dragão um negócio bem demais mesmo. E o exército dela é de homens livres, ela é demais. 
Sei que hoje, estranhamente, acordei com uma música na cabeça e fiquei ouvindo só o dia todo. E estava lá lendo um livro de receitas procurando uma solução para o caso das ameixas quase maduras demais na geladeira e percebi que esse começo de ano tem me mostrado muita coisa sobre a pessoa que eu quero ser e gosto de pensar que eu sou. Era Steven Tyler berrando que não queria perder nenhum momento lá com a pessoa lírica e eu vi o quanto essa música combina comigo junto com várias outras que não tem nada a ver uma com a outra.
E foi aí que veio o dane-se. Esse momento libertador. Tudo bem pra mim ser essa vira latas musical politico partidário ideológico religioso. Podem ficar vocês de pedigree aí que eu fico cá com minha bagunça que tá ótimo. 
Sabe como é, né? Primeiro veio o Caos, depois o Cosmos. Eu tô feliz no Caos, vou deixar o resto para quem é mais organizadinho. 
Um abraço para Marlon Brando e seu “foda-se! Você não precisa dessa merda” e para Nick Hornby, que me salva a vida todos os dias e to aqui respirando fundo ouvindo Yann Tiersen ser pertinente e necessário.