10 livros que mais me marcaram – 1 – Crime e castigo

Quando eu li Crime e Castigo, eu não tinha mais do que 15, 16 anos. Acho que era 15 porque foi o tempo que aqui em Mossoró existia uma livraria séria, a A.S. Book Shop e eu me lembro de ter desenvolvido uma amizade com um vendedor – mas há boatos de que aquele foi o meu primeiro flerte, embora eu não tivesse noção disso na época, e isso diz bem o tipo de pessoa lesada que eu sou.

A livraria fechou não levou muito tempo e eu consegui comprar o livro depois de juntar o dinheiro do troco da coxinha com suco de cajarana do lanche da escola. Demorou muito, não negarei. Eu nunca recebi mesada e não era muito de pedir as coisas só porque eu queria. Só pedia as que eu precisava de fato e com certa urgência. Assim, juntei dinheiro para comprar o livro, mas, como eu recebia R$ 1, 50 para o lanche e só me sobravam R$ 0,20, demorou um bocado para eu conseguir cobrir cada um dos R$14,00 do preço da edição ouro da coleção da Martin Claret, A Obra Prima de cada autor.

Eu não sabia que livro ia comprar quando liguei para a livraria, e quando Leandro sugeriu que fosse Crime e Castigo eu topei. Eu me lembro que o livro chegou e pouco tempo depois começou a chover e, enquanto eu exibia orgulhosa o primeiro livro que eu comprei na vida, armei uma rede – saudades, rede – na área de sol – saudades, área de sol – na sala e deitei lá de banho tomado e um copão enorme de suco de limão bem forte e com muito gelo.

Não vi a noite se aproximar e fiquei totalmente imersa na culpa de Raskolnikov e em todo aquele existencialismo de Dostoievski. Foi meu primeiro grande clássico da literatura universal e foi muito importante para mim que o livro fosse compreendido pela criança que eu era quando li a primeira vez.

A segunda vez que li Crime e Castigo, eu já tinha vinte e um anos. E sou feliz de dizer que não entendi diferente da primeira leitura. Porém, obviamente, muito mais tirei da leitura. Crime e Castigo sempre vai ser um dos meus livros mais importantes. Não só porque foi importante para mim em cada uma das vezes que (re)li, mas porque mesmo com toda a distância entre minha vida classe média e a pobreza opressiva de Raskolnikov, eu fui capaz de enxergar muito mais do que o que havia diante dos meus olhos e entrar direto na cabeça do personagem como se todo o exposto fosse mesmo a minha verdade.

Foi Crime e castigo que me converteu em uma pessoa um tanto mais humana, mais preocupada com o andar da carruagem do mundo e foi a primeira vez que a preocupação com o outro e com o que o outro, próximo ou não, conhecido ou não, empático ou não, pode estar passando. E esse sentimento de mundo eu trago sempre comigo, até hoje. E ainda torço para que os dias de Raskolvikov na Sibéria lhe tenham sido breves, porque ainda acho que ele é do tipo extraordinário de gente.

4 ideias sobre “10 livros que mais me marcaram – 1 – Crime e castigo

  1. Olá!

    Quero entrar no universo da literatura, especialmente à clássica,e pesquisando sobre,me deparei com o seu canal.Porém, acho que é um pouco tarde pra mim.Tenho 17 anos, e maioria começa a ler livros desde cedo.
    Você acha que eu ainda posso me tornar um leitor assíduo tão eficiente quanto aqueles que leêm desde pequeno?

    Ficarei muito grato se me responderer!

    Um abraço!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *