O dia em que me apaixonei por Recife

Publicado em Crônicas, Idiossincrasias

O dia em que me apaixonei por Recife estava nublado e cinzento. E o meu amor descontrolado não se manifestou numa ladeira que termina numa igreja antiga recheada de ouro de minas exploradas por portugueses malvados. Não tinha som de frevo, não tinha passista e nem Alceu Valença, que é um caboclo que eu sempre amei, e que gostaria de topar com ele numa dessas ruas famosas podia ser até nesse dia. A Rua da Moeda.

O dia que Recife ganhou de vez e definitivamente o meu coração tinha uma garoa intermitente e eu tinha um sapato novo que criminosamente decorou meus pés, os dois, em calos de sangue dolorosos. E, embora não tenha tido nenhum frevo, Alceu Valença, Brennand, galo da madrugada ou jogo do Sport, o cenário foi, como não poderia deixar de ser, as ruas do Recife Antigo. E, como sou eu e como é Recife, começou na Cultura do Paço. Sim, virei íntima.

Eu tinha ido lá procurar um livro e quando a chuva passou, fui convidada a abstrair e dar um passeio pelas ruelas próximas, rapidinho, “só porque eu vi uma coisa que eu acho que você vai gostar”.

E gostei. Saímos da Cultura e viramos na esquina a esquerda mais um bloco ou dois e precisei relevar a dor e a minha falta de disposição de ignorá-la. Mas fui, e la na Rua da Moeda molhada, meu amor por Recife, que não se desfaz de seus coqueiros tortos pela força do vento, surgiu, como não poderia deixar de ser, pelo estômago.  Pelo olfato, se me permitem alguma exatidão. Fui fisgada pelo cheiro antes.

Em um desses casarões  com talvez mais idade que o guaraná de rolha, umas mesinhas cobertas abrigavam os cafés de um pessoal que conversava tão alegre e compenetrado que não pude deixar de achar bonito. Sentamos dentro da padaria de paredes recheadas de cartazes e avisos e convites para toda a sorte de eventos culturais e políticos e eu fiquei rindo vendo, porque é exatamente o tipo de lugar onde meu esquerdismo-curioso-artístico se sente em casa.
A padaria não tinha muita variedade no balcão simples, mas não por falta de talento, é que não precisava mesmo. Eu vi aquelas coisinhas com aquele cheiro e gorda que sou comprei variadas coisas e trouxe para casa depois. Um bolo de cocada, um bolo suíço, um bolo de rolo e uma torta de banana.

Tudo o que eu comi estava ótimo daquele jeito cheiroso e artesanal que só as coisas realmente boas são capazes de ter. E eu fiquei naquela padaria imaginando como seria fazer dela meu lugar de escrever. E foi a primeira vez em que eu realmente me imaginei morando aqui definitivamente.Só para poder passear mais por todas aquelas ruas melancólicas saudosistas de tempos passados. Aquelas ruas charmosas mesmo sem encontrar Alceu Valença (mas já encontrei Santana, o cantador, o Woody Allen pernambucano) com aquela mansidão calma que não pretende ser maior ou o melhor de nada. Só estão lá, testemunhando meu suco de acerola com salgado de nome estranho e meu pacotinho de doce para depois, quando a saudade bater.

Pronto Recife, comi aquela tortinha e já te amo irremediavelmente. Vou começar a utilizar oitcho, muitcho e fúba no vocabulário de todo dia. Capaz até de torcer pelo Santa Cruz. Olhando assim, já com tudo escrito, fico pensando se não tem quem pense que aquela padaria está lá por culpa do PT, só para entupir nossas coronárias.

Deus criou aquela padaria e o diabo nos fez engordar. Só pra garantir o equilíbrio do mundo.