Carta a pessoa que eu era

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Essa semana eu apertei um botão estranho na internet e voltei para a primeira página do meu e-mail antigo, entregue aos spams. E a internet, obediente que é, voltou para 2004 e me reapresentou a uma Anna Ingrid muito mais jovem e mais corajosa que a que eu sou hoje.

2004 foi um ano bissexto que começou numa quinta-feira e terminou feliz numa sexta, que é muito melhor. E me trouxe um segundo e terceiro períodos na faculdade e muito pouca noção do que fazer com a minha vida. Trouxe também um senso maravilhoso de que eu tinha dezenove anos e o mundo era meu para que eu lhe puxasse pelos chifres e fizesse o que eu bem entendesse. Eu tinha tempo, eu tinha o ímpeto, eu tinha tudo. O que poderia dar errado, né?

Eu fiquei surpresa de me lembrar o quão impetuosa eu era. E essa Anna Ingrid, que eu gostava tanto, tinha uma vida social interessante repleta de pessoas super importantes que eu, hoje, lendo aqueles e-mails enormes e cheios de vida e paixão pela existência, fiquei com a sensação de que lia e-mails de outra pessoa. Eu nem me choquei com o fato de que as pessoas com quem eu trocava e-mails hoje não sei quem são e sequer me lembro delas. Não que elas não fossem importantes na época, porque eram. Mas porque o tempo varreu da minha memória todos aqueles amigos como varreu a impetuosidade do meu coração.

Se aquela eu daquele 2004 distante soubesse que ela ia crescer e se casar com o amor da vida antes de conhecer o mundo inteiro umas três ou quatro vezes, talvez se deprimisse. Mas acho que não. Aquela eu daquele tempo tinha aquele peito aberto de quem tem o mundo e não tá nem aí pra escolher o sapato adequado para cada ocasião. Ela teria pensado algo como “ah, beleza. Vou aproveitar que o amor não aparece e fazer alguma coisa importante e significativa. Vou voar de asa delta para vencer o medo de altura, assim a Eu Do Futuro não vai ter escolha senão se lembrar dessa coragem que ela acha que não tem mais e vai se agarrar a ela com tudo e ser tão grande quanto eu acho que eu vou ser.” E ia ser ótimo.

Eu ficaria muito feliz de ter aquela coragem, eu hoje sou metade medo. E é difícil para caramba me tirar desse meu círculo confortável com minhas rotinas e meus horários. Gosto das minhas coisinhas certinhas e em seus lugares e meus espaços, meus porquês, todos os meus senãos. Mas a coragem que eu tinha, confesso, faz muita falta. Não sei quando eu virei essa pessoa cheia de medo, mas acredito mesmo que está na hora de parar.

Eu fiquei mesmo, assim, do fundo do coração, feliz. Depois de ler todos aqueles e-mails eu vi que eu tenho mesmo é que estar em paz, como estou, por todas as escolhas pessoais que fiz. Percebi que pulei muita fogueira grande e escapei de muita cilada. A paz vem de saber que por mais estourada que eu fosse, eu sempre fui muito ciente do que eu queria e do que era bom ou não para mim. E aquela menina que adorava pegar o ônibus da faculdade sempre esteve cuidando do futuro que queria para ela, senão da parte financeira (sempre fui bem ruim com dinheiro, desculpa eu do futuro), pelo menos da parte importante. Minha família sempre estava lá bem presente, meus amigos também (aqueles de que não me lembro e os que estão comigo até hoje e estes são mais que aqueles, felizmente).

A coragem me faz falta só pra dirigir nesse trânsito de louco mesmo. Só isso. O resto está de muito bom tamanho.
Se eu tivesse encontrado a mim mesma aos 19, ia pedir para que ela mantivesse com ela aquela alegria do frio na barriga, que eu ia precisar. Mas eu também teria dado um conselhinho ou outro sobre o futuro profissional dela. Não que ela fosse escutar, nessa idade eu não escutava ninguém. Eu diria para ela escrever mais. E a não evitar ou se guardar esperando a grande ideia. Só escrever, como a Eu Mais Antiga Ainda fazia. Só pegar o lápis e o papel e deixar a coisa fluir. Diria para ela aproveitar mais esse lugar especial, Guigópolis, como o meu tio costumava dizer depois de me chamar e eu não responder porque estava muito concentrada no meu mundinho.

Eu ia dizer para ela ter calma que o cabelo dela é lindo e ela só precisa mesmo aprender a cuidar. Diria que ela vai encontrar felicidade e completude em coisas que nunca quis e não soube apreciar, coisas que nem mesmo reconhecia o propósito. Ia dar os parabéns por ela saber que ela gosta mesmo é daquele tipo de sorriso que fecha o olho, e que não se preocupe tanto que ela vai sobreviver a terrível perda de Marlon Brando e que os tsunamis, que destroem tanta coisa e matam tanta gente, também desenham uma silhueta nova para o mundo e que ela vai viajar sim, e vai ser melhor e mais fácil, porque não vai fazer isso sozinha. Ia dizer que tenha um tanto menos de vergonha. E só para deixa-la feliz, diria que ela está certa e que o Iraque não tinha mesmo armas de destruição em massa.

Diria que tenha paciência, que vai dar tudo certo. Porque deu.