O café

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Desenvolvi recentemente um amor novo que achei, sinceramente, que jamais viria a sentir. Mas esse ano está esquisito mesmo, e eu preciso dizer que vai indo até bem, dadas as circunstâncias de eu ainda não ter encontrado um gênio da lâmpada. Também não procurei, se isso conta.

O fato é que eu, depois de uma vida inteira fiel ao café de mainha, comecei a pagar por uma xícara de café nesses cafés chiques aí da vida. Não foi aquele, o verde, onde tudo quanto é hipster vai para postar foto no instagram, não. Esse aí é ruim, fraco e doce. Eu já provei, não é café de verdade e integra, ao lado daqueles sanduíches servidos por um palhaço, o dueto de comida de plástico que me faz questionar algumas amizades.

Tomei café num desses cafés de shopping. E olha, meu coração acelera e parece saltar do peito de emoção só de lembrar do cheiro e do sabor daquele cappuccino. Virei adepta dos expressos, confesso, e sou uma convertida apaixonada e dedicada. A espuma do leite, o cheiro de café forte e os pedaços de chocolate amargo no fundo da xícara fizeram de mim uma pessoa que faz questão de vários sabores harmoniosos e de cheiros que criem uma impressão que dure dias.

E eu fiquei lá, eu e o café, em um momento íntimo. E lá em cima da mesinha retrô da cafeteria, ele me seduzia com aquele cheiro vibrante e me prendia em espirais de amor com aquele calor que saía dele. E o resto da cafeteria seguia a vida sem se dar conta daquela nova paixão que crescia ao som de um disco antigo de Chico e tinha cheiro de café moído na hora.

A única mancha nesse amor novo, porém imenso, é o fato de que a xícara de café custa dez reais. Dez reais uma xícara de café. Paguei. Paguei e me senti quase mal de não ter um salário bom o suficiente que me proporcione a quantidade de café que me faz funcionar direito. Paguei e me senti quase suja, como quem dá desfalque no orçamento para sair com acompanhantes de 3 dígitos. Paguei, dei adeus àquela xícara usada, que tinha a borda suja do meu batom vermelho que também se sujou com alguma gota do precioso café que lhe escorreu e ficou lá como prova da conexão sublime que tivemos em um “para sempre” que só duraria até que um encarregado lavasse os copos.

Paguei e não olhei para trás quando deixei o lugar. Tinha comigo a sensação de que não era mais a mesma. Tinha também a sensação de que mesmo sendo tão bom ainda era um erro. E antes que eu me entristecesse mais, lembrei do cheiro do café da minha mãe, que com dez reais faz várias, incontáveis – porque nunca contei – xícaras.

E eu soube, entre suspiros, que os amores antigos tem mais amor que as novidades. E quando for especial mesmo, o amor antigo ainda é servido com tapioca.

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