Um feliz aniversário

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Já faz um tempo que eu tenho a felicidade de me enxergar como uma pessoa que escreve. Muito ou pouco, bem ou mal, todo dia ou não, são questões outras. Mas eu escrevo. E é isso o que me importa.
A primeira vez que eu vi o meu nome ao lado da palavra “escritora” eu tinha bem menos idade e mais ousadia na vida, foi num jornal cultural daqui que era feito por um jornalista-poeta-uma das pessoas mais sensacionais que eu conheço: Mário Gerson.
Foi Mário Gerson que no meio de tanta gente mais empenhada que eu me deu essa profissão que eu queria mas não sabia se podia. E naquela ocasião, como em muitas outras depois e quase todo dia, eu tenho isso comigo e ninguém pode me tirar: eu sou escritora, porque um igual me reconheceu.
E hoje – ainda- é o aniversário de Mário Gerson, e eu queria dar um carro novo a ele, mas não posso (escritora né gente?) então eu vou dedicar a ele esse textinho que segue com os votos de que o mar esteja sempre próximo do poeta e que as alegrias sejam sempre muitas e repletas de gargalhadas sonoras e espetaculares. E muito café na xícara bonita da sua tia.

 (E embora fosse mais legal um conto alegrinho sobre um aniversário, era isso o que tinha para hoje.)

                                        Júlio, o menino avião

Caminhou lentamente pela rua molhada sem se preocupar com as poças de água no caminho. Quando recomeçou a chover, respirou fundo, fechou os olhos e abriu os braços e um sorriso. Começou a correr em ziguezague fazendo barulho de avião. Puxava um caminhão de madeira por um cordão amarrado no dedo. A calçada ia acabar em breve, ele não viu. Parou de repente quando a mãe gritou seu nome pedindo que parasse, lá vinha o carro.

Virou para a mãe sorrindo, não era o Júlio, era um avião. Ela se aproximou e olhou o filho com um terno olhar de repreensão. Caminhou para ele e sorriu, disse que ele era um bom menino avião e que precisava ser assim, ou seria atropelado pelos carros da rua. E ficasse perto dela, a chuva estava ficando mais forte, não queria que se resfriasse. Precisaria tomar um banho quente quando chegassem em casa. Deixariam o milk-shake pra outro dia.

O menino torceu o nariz. Podia tomar o milk-shake molhado e sem gripar, tinha oito anos, já vivera a vida, era um homem, era forte e alto. Queria ser alto. O pai era alto, se fosse alto como o pai, seria forte também. O pai nunca ficava doente. O menino sempre escondia os sintomas de qualquer resfriado para não demonstrar qualquer fraqueza. A mãe nunca conseguia ser enganada, acabava incluindo no cardápio chás variados de acordo com a natureza da doença que ele queria esconder. Mas não conseguia lhe negar muita coisa que lhe fizesse feliz como o milk-shake fazia.

A mãe e o pai eram tudo para o menino. O filho era tudo para a mãe. O menino só não entendia a fração de sorriso que sumia do rosto dela quando ele lhe dizia que queria ser homem como o pai logo. Não gostava da hesitação da mãe, e tentava com mais força ser grande e forte como o pai. Às vezes empurrava a mãe como o pai fazia, mas não tinha força o suficiente. Ela nunca colocava os óculos grandes depois que ele a empurrava.

Homem é assim mesmo, os grandes e fortes, como o pai, não conseguiam conter todo o amor que sentiam para serem delicados nos carinhos como as mulheres. Por isso o pai às vezes lhe machucava. Por isso o pai às vezes machucava a mãe. Ele tentava ser como ele, que sabia tudo, que podia alcançar as prateleiras altas, que carregava as coisas pesadas, que era o homem da casa. Todos lhe respeitavam. Todos lhe ouviam onde quer que fosse.

O menino se envergonhava de não conseguir que seu amor deixasse marcas na mãe como o do pai. Acontecia de ela cobrir o rosto com aqueles potes coloridos que a tia usava para cobrir a própria feiura e esconder dos outros que não tinha nenhuma beleza. Mas a mãe era linda. Adorava ver a mãe dormindo de manhã, quando a luz do sol invadia a janela e deixava os cabelos da mãe quase dourados. Ele só lamentava que fosse tão menino. Tão fraco. Empurrava a mãe como o pai, mas ela lhe dizia que não fizesse isso que lhe machucava. E o pai fazia, e a mãe o amava. Temia não ser amado pela mãe o suficiente, já que não fazia como o pai. Não conseguia demostrar o amor que sentia por ela como ele o fazia.

O pai estava sempre a lhe dizer que só fazia isso porque a amava muito e por isso não conseguia se controlar. O menino amava a mãe sem se controlar também. Queria deixar a mesma marca. O amor deixa marca se for grande o suficiente. E ele a amava. Mas não tinha força o suficiente. Ali, na rua, só queria ter a mãe só pra ele um momento. Ela lhe daria o milk-shake, sabia que sim. Então, entrou na lanchonete da tia e pediu um duplo, de morango. A tia lhe perguntou se tinha dinheiro para pagar fazendo um gracejo mal disfarçando que lhe tratava feito menino enquanto lhe parecia respeitar um adulto. E ele estendeu as moedas. Estranhou, no entanto, quando a tia chamou a mãe no canto e lhe perguntou o que fazia ali, já não era quase hora do pai voltar? A mãe lhe mandou ficar na mesa do canto enquanto ela conversava com a irmã. Podia ficar quieto um momento?

Observou então a mãe conversar com a tia, ela parecia agitada. A Glenda lhe trouxe o milk-shake. E lhe disse que sentiria falta dele. Mas porque ela sentiria falta dele se ele ia até lá todos os dias? A moça sorriu sem jeito, ele percebeu. Não havia graça ali. Quando ela tomou fôlego pra falar, a mãe apareceu e disse que era hora de ir, ele disse que nem havia começado a beber o duplo morango. A mãe disse que hoje ele podia levar o copo, mesmo sendo de vidro. A tia correu para a mãe, entregou todo o dinheiro do caixa, disse que qualquer coisa ligasse. Tudo ia dar certo. Abraçou o menino e pediu que fosse bom para a mãe. Sentiria saudades, iria vê-los assim que pudesse.

Não entendeu quando a mãe o colocou no carro e lhe disse que tudo ia dar certo. O pai já vinha ali na esquina, mamãe, veja! Não soube por que a mãe chorava. Sentiu-se mal. Não entendia. No desespero de ser entendido, amava a mãe sobre todas as coisas, deu-lhe um tapa e disse que estava batendo nela porque a amava. Ela lhe olhou desapontada, ferida de morte. A mãe quase lhe deu um bofetão na cara, mas agarrou o volante com força e lhe pediu que parasse. Estavam indo embora porque a mãe lhe amava muito. Mas ele não entendeu porque ela simplesmente não lhe bateu. Ficou profundamente triste. Talvez ela não lhe amasse o suficiente.

Leopoldo Café (onde ir em Mossoró)

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Esses dias andam quentes de um jeito desesperado, como normalmente acontece em Mossoró no final de ano. Aí parei pra tomar um suco nesse lugarzinho novo que abriu ali na Antônio Vieira de Sá, perto daquele condomínio horroroso.
10850910_907364282631904_2085173746_nO Leopoldo é um café super charmoso onde toca Nina Simone cantando Cole Porter. Sim. Em Mossoró. Outra coisa que me chamou a atenção foi o preparo dos garçons, que sabiam como eram os pratos e souberam indicar coisas e responder todas as minhas perguntas. E responderam prontamente e com precisão, sem ficarem dando respostas óbvias e ríspidas. Tudo lá funcionou perfeitamente e o ambiente é aconchegante e muito simpático.
10841640_907364289298570_674337928_nO cardápio é bem variado: tem cafés, omeletes, refeições principais vários petiscos interessantes. Eu pedi um suco de melancia com laranja totalmente delicioso e refrescante, que era exatamente o que o dia quente pedia. Comi também uma omelete que eu podia escolher até quatro recheios, aí escolhi frango, ervilhas (que eram frescas e não enlatadas), bacon e queijo e estava ótimo. Não tinha sal demais e nem de menos.
A comida demora um pouquinho pra chegar, mas não é nada que atrapalhe. Dá pra ficar no celular pra quem é de celular e pra conversar com as pessoas que estão com você se você for velho que nem eu.

Recomendo.

Menstruação e formas de lidar com o feminino

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Olha, eu e menstruação no mesmo pacote é uma coisa que nem sempre dá certo. Eu preciso de pílulas e mesmo assim não é sempre que eu consigo menstruar e andar ereta e fazer tudo o que eu preciso fazer durante o dia sem me desfazer em dor-lágrima-depressão-tendência assassina e similares. Quando é tranquilo, é tranquilo. Eu gosto de ciclos. E mais do que ciclos, eu gosto de começos.

E eu gosto de como o meu dia cresce em disposição: de manhã é normalmente horrível e de tarde é ótimo pra estudar e pela noite eu posso dominar o mundo. O meu corpo tem vários ciclos, e eu aprendi a observar mais de um deles e embora eu saiba que aquele dia do mês que eu estou me sentindo GOSTOSA LINDA E MARAVILHOSA COM PEITOS INCRÍVEIS – e adore esse dia por isso – porque eu estou pronta pra receber uma vida e ache isso demais, eu sei que não vindo essa vida daqui duas semanas eu vou estar M I S E R A V E L. Talvez por isso eu tenha preferido ver que o ciclo é o de me preparar pra uma criança e receber e gerar, não o trabalho perdido de me preparar e comemorar que ela não veio – como normalmente me acontecia.
sagrado feminino
Mas aí eu descobri que não vai ter neném sem tratamento e fiquei mais bodeada ainda com a miserabilidade da menstruação. Mas eu sou esquisita e ponto fora da curva. Eu também já passei 6 meses e meio menstruada, então olha, não vou me empolgar pelo sangramento e tudo o que ele representa nem tão cedo. E mais, eu sou feliz que pelo menos vendo o sangue menstrual, eu não enjoe tanto e apague quanto com o sangue não menstrual, mas normalmente eu me corto no dedo e preciso de curativo na cabeça porque caí dura.

Não, não gosto de limpar absorvente, nem de lavar a louça e sou relutante em me mudar da casa de mainha também porque na casa dela tem lava louça. Então, se não me animo de ariar panela não será lavando absorvente que encontrarei a felicidade. Mas, se você gosta dessa vibe de ter contato direto com o seu sangue e acha importante para encontrar o teu Feminino, vai na fé, garota. Cada um é cada um e o importante é que todas aquelas vozes na sua cabeça digam que você está indo bem e vivendo sob as regras e filosofias que você acha certo. Esse é que é o crucial. Encontre a sua própria forma de honrar seus ovários. O mundo não vai fazer por você. E essa vida de ter ovário já nos dá coisa demais pra brigar sem ter que ser debate com outras mulheres sobre se é certo ou não usar absorvente higiênico. Vamos por favor disponibilizar informação e deixar a escolha pra que cada uma faça a sua sem pressão, segundo sua própria filosofia. E depois que eu virei uma pessoa que MEDITA, entendo muito mais o caminho rumo ao natural, quem sabe um dia eu faço isso também.

Meu feminino é celebrado com mais vida normal e menos com salto, que um dia quebrei o pé e ele foi mal consertado e desde então salto é uma coisa que não faz parte da minha vida.

E foi com a impossibilidade do salto que eu aprendi, depois de me sentir incrivelmente mal durante um tempo, que eu não preciso de dor no pé pra ser bonita. Nem pra ser mulher. Eu tinha que encontrar outros meios de celebrar meus ovários. E eu não soube na ocasião, mas aqueles 4 ossinhos quebrados e mal sarados foram absolutamente maravilhosos pra mim. Eles me deram liberdade. Eu não precisava mais de salto pra estar arrumada, elegante, bonita, mulher. E eu via a cobrança das pessoas ao redor, como se eu nunca usar salto fosse uma coisa horrível. O que também foi ótimo, porque me fez mais capaz de lidar com as minhas próprias decisões. Hoje eu sou a pessoa que sai de shortinho pro pilates sem me importar se está muito visível o meu joelho obeso ou se atrasou a depilação. Com o tempo eu aprendi que a felicidade é uma coisa que segue direitinho o padrão “de dentro pra fora” e não vai ser nenhum padrão que a sociedade me cobra que vai me fazer pegar aquele vazio interior pra encher da atenção que outras pessoas dão quando posso encher com todas as coisinhas que realmente alegram o meu dia, como coçar a barriga do gato.

Vamos ser felizes pelas razões certas, por favor. Vamos ser felizes por todas elas.