Post Convidado

Filipe Sena é, antes de um dos meus melhores amigos desse lado e do outro do Mississippi, um jovem escritor bem promissor. E enquanto ele me contava da formatura da irmã dele, eu fiquei bolando de rir e achei que todos os meus 4 leitores deviam ter a mesma chance.

Esse ano minha irmã fez 17 anos.
Só isso bastaria pra me deixar sentindo como se eu fosse um idoso. Mas ela fechou o pacote concluindo o ensino médio. E ao contrário de mim e do meu irmão, ela fez festa de formatura.
Festa de formatura por si só é uma aventura. Toda a preparação e arrumação envolvida já dá um trabalho desgraçado, isso por que praticamente toda a organização não passa pela mão das famílias dos formandos. Mas ainda tem que ver bolo, docinho, salgadinho e lembrancinha. No caso de uma mulher isso pode virar um inferno dantesco. Não falo isso pelo cabelo, maquiagem e derivados, eu falo isso pela quantidade de coisas que podem, e vão, dar errado. Costureira que erra no vestido e viaja pro interior um dia antes da formatura, cor da lembrancinha que sai errada, cabelereira que não atende o celular. Fora outras coisas menores que esquentam o juízo tanto quanto.
Então chega a grande noite. Depois de uma dose considerável de stress e correria estávamos lá. A família da formanda na festa de formatura. E eu estava lá dando uma de irmão babão, vendo minha irmã linda humilhando o satanás e fazendo hang loose na cara do recalque. Depois de tirar algumas fotos de protocolo, seguindo as orientações dos fotógrafos pra garantir que a foto seja um grande clichê, nos acomodamos na mesa e esperamos o início da solenidade. Mas é nesse ponto que começa a parte mais interessante do negócio: Observar os demais seres humanos do recinto.
Eu não costumo ser muito crítico com os outros, mas qualquer pessoa no meu lugar olharia com estranheza pra moça da mesa do lado que além do seu vestido florido curtinho e da tatuagem alusiva à Legião Urbana na parte de trás do ombro ostentava uma coroa de pequeninas flores artificiais na cabeça. Até agora, quase 24h depois, eu ainda tento entender qual o propósito daquilo. Fiquei imaginando que a moça tinha alguma afinidade com aquelas coisas neo-pagãs, alguma coisa de hippie ou wicca. Por que só alguma coisa muito alternativa podia justificar aquele adereço. Também é engraçado notar que os formandos com os nomes maiores são os que tem aqueles balões com letras presos na mesa. Mas obviamente o orçamento destinado aos balões não é prioridade, e é por isso que “Fulano Junior” tem sua alcunha reduzida a singelos dois balões: um com um “J” e outro com um “R”.
Os formandos são chamados pra fila. Começa aquela expectativa. No caminho pra fila uma amiga da minha irmã deixa na mesa um daqueles tubos que atiram uma chuva de papel picado e gliter, obviamente a responsabilidade de operar o artefato, e a culpa caso o mesmo não funcione, é minha. Minha irmã é uma das últimas da fila em ordem alfabética. Tenho tempo pra rever inúmeras vezes as instruções da embalagem. Enquanto a fila é organizada a mestra de cerimônia mais impaciente do mundo convoca os professores e diretores que vão compor a mesa. Digo impaciente pela quantidade de vezes que os convidados foram intimados a aplaudir quem entrava.
Começa a entrada dos formandos. Cada um escolheu sua música e acompanhado dos pais entrou debaixo de aplausos. Cabe ressaltar como a escolha das músicas foi um sintoma claro de adolescência aguda. Quase todos os meninos entraram com algum rock famosão bem clichê e a maioria das meninas entrou com alguma música em inglês, lenta e com jeito de sentimental. Ficar tentando misturar mentalmente a fisionomia dos pais até chegar na fisionomia dos filhos também ajudou a passar o tempo até entrar minha irmã. Ela entrou com uma músida de Ed Sheeran (Who?) que até um dia desses eu pensei que tinha gravado uma música pra trilha do “maravilhoso” segundo filme d’O Hobbit. A gente faz barulho, eu acerto a chuva de papel picado (epic win). Depois dos formandos sentados de frente pro palco começaram os oradores a discursar.
Depois de um discurso infinito do paraninfo da turma, da palavra da coordenadora, da diretora, da oradora da turma que estava vivendo um caso de amor com a longa saia do vestido, da homenagem aos pais, da entrega das placas e de sermos cobrados pela falta de um ou outro aplauso começa a valsa dos formandos. Valsa para qual eu fui puxado para substituir meu pai quando tentava me aproximar pra tirar uma foto.
Depois da valsa a turma se junta na frente do palco pra fazer um flash mob de um monte de músicas misturadas. Cabe ressaltar que o melhor dançarino da turma era o cara negro da turma que atende pelo curioso apelido de “Negada”. Inclusive eu nunca tinha conhecido um cara que era negro o suficiente pra ser negro de uma forma coletiva. Antes que eu seja acusado de racismo eu me defendo dizendo que realmente o carinha dançava muito, se isso tem a ver com a cor dele ou não é outra história. E antes que toda a turma seja acusada de racismo por chamar o colega de “Negada” vale dizer que quando o indivíduo em questão subiu ao palco pra fazer o juramento em nome da turma e quando foi chamado pra pegar a sua placa das mãos de um dos professores ele foi ovacionado por várias pessoas, inclusive por convidados em diferentes mesas, que gritavam “Negada” a plenos pulmões. Acho que esse tipo de carinho consegue apagar qualquer suspeita de discriminação.
Acabaram as formalidades e a festa começou pra valer. Eu saí bem cedo pra levar minhas tias em casa. Por isso não vi o barraco que rolou depois e os adolescentes embriagados com permissão e sob supervisão de seus respectivos responsáveis.
Já em casa troquei umas mensagens com minha querida Anna Ingrid. Fui intimado à relatar com mais detalhes todo o ocorrido, espero ter atendido às expectativas

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