Resenha: Cinquenta tons de cinza

Publicado em Uncategorized

Enquanto eu lia o primeiro volume, Cinquenta Tons de Cinza, eu me incomodei MUITO com o Grey. Nada contra o sadomasoquismo, cada um sabe de si e se funciona para você e a/o parceira (o) curte e pode responder por si mesmo, pode se jogar feliz no Quarto Vermelho da Dor e cair de boca em grampos genitais. Não é da minha conta. O problema do livro é essa coisa demente de confundir fetiche com abuso.

jdavid17

Ele é o clichê do cara traumatizado e abusado que sofreu muito e se fez na vida mas não conseguiu superar, só que é tão clichê e batido que TEM que ter dado trabalho. Eu também estou falando do psicológico, porque os aspectos físicos do Sr. Grey são aqueles de sempre: ele é lindo, malhado, gostoso, tem olhos penetrantes de um cinza que muda de cor, é másculo e tem um pau enorme, obviamente. Deus nos livre de uma história vagamente sensual com um cara com um pau com menos de 24 cm. Deus nos livre de um cara que não dê choque quando encosta na mocinha também. Deus nos livre do cara ser pobre, por favor.

"Christian Grey se olhando no espelho"

“Christian Grey se olhando no espelho”

A mocinha também é mais do mesmo: olhos azuis, boca carnuda, não sabe que é linda e tem uma cara de inocente, é virgem (!!!!) e pobre. Claro que ela é pobre né gente. E aquela coisa de sempre, como a Bela do Crepúsculo, ela entra na relação abusiva chamando o abuso de cuidado e de trauma. E sim, dá vontade de estapear a mulher com toda a raiva que toda feminista sente quando lê que o cara dá choque quando toca nela.
Outra coisa bem comum desses livros todos é que, seguindo a tendência daqueles romances Nova Cultural da banca de revista, a mocinha é inocentíssima quase ou virgem e inexperiente enquanto o cara comeu o continente inteiro mas, obviamente, nunca se apaixonou por ninguém.

enhanced-17651-1423518926-10

Mas 50 tons de cinza vai muito além na estupidez. 50 tons de cinza é inominável. É um incômodo. É aquela sensação de que algo está errado. A doidinha  lá é virjona no final da faculdade porque nunca se interessou por ninguém – rá – e a própria personagem diz que a razão disso é que a mãe dela se casou várias vezes. Aparentemente existe um episódio na infância dos personagens que justificam toda a sorte de coisas na vida adulta deles. E na verdade, mesmo virjona, ela cai nas graças do cara-lindo-dominador-zilionário-misógino-do pau grande e ele quer transar com ela – mas só isso, ele não faz romance porque ele é traumatizado por um passado horrível e tenebroso cuja cura só se dá por fetiches sexuais, e de repente o pau dele é tão grande que tem um campo gravitacional do qual ela não pode se afastar porque ela acha que ele só gosta dela porque ele é traumatizado.

enhanced-8880-1423519292-9

A heroína virjona tem a estima de uma toxicômana que vende o corpo por uma pedra de crack e de saída, escolheu – não, “escolheu” não é o verbo certo, já que depois que ela viu todos os apetrechos do sadomasoquismo gourmetizado do Mr. Grey, ele decidiu que ia tirar a virgindade dela – perder a virgindade com um cara que antes de qualquer coisa, obrigou a moça a assinar um termo de confidencialidade. Não sei vocês, mas eu fiquei com vontade de levar a moça na delegacia da mulher mais próxima.

Daí o cara faz o imenso sacrifício de transar com ela sem usar coisas que possivelmente a impediriam de trabalhar, e logo depois ela é levada de volta a própria realidade com um contrato na mão que lhe diz o que ela deve comer, quando, que horas, quantas horas deve dormir e quantas vezes deve se exercitar. E quando ela deve estar inteiramente a disposição do cara que ela não pode tocar. A única obrigação dele é pagar a conta. Não que ela seja uma prostituta, mas ele que vai pagar tudo. Vocês estão acompanhando ne?

enhanced-26172-1423520293-16

E aí ela decide, lógico, que ela vai salvar esse homem da vida dele. E passa o livro inteiro sendo abusada psicologicamente, afastada dos amigos, sofrendo o diabo na mão dele – com vários orgasmos no processo – para no final – finalmente – se sentir ofendida e sair de lá e devolver todos os brinquedos caros que ele lhe deu. Porque, meus caros, não era estúpido o suficiente ela ser perseguida, humilhada, afastada, ter a liberdade cerceada e ser afastada do seu livre consentimento, ela tinha que passar por tudo isso sendo comprada com presentes óbvios. Um celular, um computador, um livro caro e um carro. E por mais que seja doloroso para os fãs da Apple, um iphone é só um telefone, um macbook é só um computador e um Audi é um carro.
Eu vi, certa vez, um anúncio de um iphone de segunda mão usado por R$500,00 que sequer ligava. O anúncio dizia que era ótimo para levar para a balada e dizer que descarregou. E vendeu. E é isso que é mais doloroso sobre 50 tons de cinza. É essa incômoda sensação de que aquilo ali é retardado, horrível, mas é possível. E isso é muito mais incômodo do que o ridículo dela ser virgem e assinar um contrato pra poder discutir sexo com o cara com quem ela quer ir para a cama e do que ela fazer um boquete maravilhoso logo de primeira, porque né? Deus nos livre de uma virgem que nunca se tocou na vida ser ruim de cama e deixar o dominador insatisfeito.

 

imagens: mean girls art history