A dificuldade de se despedir dos presentes que a gente ganha da vida

Eu não consegui estudar para a minha prova de Saúde Coletiva porque eu não consegui ler nada sobre o SUS. Eu sei que tudo o que poderia ter sido feito foi feito. Eu sei. Mas eu não consigo escapar de você não poder cuidar de você porque precisava brigar pelo tratamento oncológico da cidade inteira. E eu fico com uma raiva que vem em ondas. E muito grata pelo tempo que eu tive, também em ondas. Eu falei não sei quantas vezes que há coisas que eu aceito devagar, e essa despedida parece que vai ser assim também. Só mais devagar que todas as outras coisas.

Agora eu fico pensando foram cinco anos de dor física absurda, mas que acabou. E eu torço para ter acabado mesmo, e imagino você cantando blowing in the wind e correndo por algum lugar bonito.Espero que, onde você estiver, você esteja dançando. E que tenha café e vinho e o filé esteja no ponto certo. Espero que você esteja passeando por uma Notre Dame espiritual, já que não deu tempo de ver a física (eu te conto quando eu for). E eu torço que esse desencarne tenha sido uma libertação de um corpo que aguentou muito mais do que se espera e do que é justo. Eu também imagino você assombrando o Louvre, com aquela sua saia azul royal dos anos 50 e um francês perfeito que o espírito de Victor Hugo vai apreciar muito enquanto escuta você contar vantagem de ter lido Ulisses. Fale de mim pra Alexandre Dumas, por favor. Diga que eu aprendi a dizer o nome dele.

Eu não consigo elaborar ainda, Aíla. É bom que você não esteja mais em sofrimento. Eu disse a você mais de uma vez que, no seu lugar, eu teria morrido já há tanto tempo que não tinha mais ninguém que sentisse minha falta. Você dava sempre aquela sua risada e dizia que corpo não era nada, o importante era ler os livros e falar francês.

Estamos aqui pelo que a gente pode aprender. E eu não consegui nunca agradecer a você a importância de você me ensinar isso de novo. E era sempre nós duas. Aíla e Guiga e uma conta na Amazon, na Saraiva e na Cultura que é despesa fixa. Eu, você, os livros, os cadernos absurdos e todos os pelos de bichos. Eu, você e cozinhar. Eu, você e comer. Eu, você e todas as viagens que a gente planejou falando todos os idiomas que a gente aprenderia. Eu e você e todas as risadas que a gente deu e a vida que a gente dividiu. Eu não ia encontrar outra irmã na mesma família. Tinha que ser você.

“Guiga, você precisa voltar para o Francês antes de aprender gaélico escocês”. E eu vou. Mas eu vou aprender inglês antes, só por estar mais perto que longe. E eu não sei como eu vou conseguir voltar ao francês sem você para dividir a frustração com os fonemas impossíveis, mas acho que quem viveu o que a gente viveu não se perde nunca uma da outra, né?

Talvez o jeito que vá conseguir lidar com isso é escrevendo. Do jeito que você sempre deu nó em pingo d´água, já deveria saber disso antes de mim, porque você sempre sabia de tudo antes e ainda olhava na minha cara e dizia que era o super poder de quem ia morrer. E eu nunca notei, porque o meu super poder é a super leseira.

Eu vi você ficar mais e mais debilitada, mas só uma vez não era você no corpo que você habitava, ano passado, no hospital. Mas depois disso, você voltou e meu cérebro idiota registrou metástase no cérebro como apendicite. O câncer era sempre muito menor do que você. Eu nunca consegui te olhar e ver uma pessoa doente, Aíla. Acho que vem daí a minha dificuldade. Eu via você. Eu tenho olhos negros, 1,65m e odeio rúcula. Você tem, tinha, olhos âmbar, uma risada sonora e câncer.

Eu sempre soube, mas eu nunca vi.

Guiga.

ps. Eu estou voltando a escrever. E isso é para você. Porque você pediu. Eu vou fazer todas aquelas coisas que você pediu.

pps. eu vou escrever para você de vez em quando. Espero que você não se importe.

3 ideias sobre “A dificuldade de se despedir dos presentes que a gente ganha da vida

  1. Me emocionei, Anna. E estou chorando. Que ela seja bem vinda de volta lá, que o desencarne tenha sido tranquilo. Que você fique bem.

    Se cuida.

  2. Que texto maravilhoso! Eu só tinha lido agora. Conhecendo a Aíla por poucos comentários e por fotos, eu não conseguia ligar a ela as palavras câncer e morrer. Um beijo, Guiga.

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