Um feliz aniversário

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Já faz um tempo que eu tenho a felicidade de me enxergar como uma pessoa que escreve. Muito ou pouco, bem ou mal, todo dia ou não, são questões outras. Mas eu escrevo. E é isso o que me importa.
A primeira vez que eu vi o meu nome ao lado da palavra “escritora” eu tinha bem menos idade e mais ousadia na vida, foi num jornal cultural daqui que era feito por um jornalista-poeta-uma das pessoas mais sensacionais que eu conheço: Mário Gerson.
Foi Mário Gerson que no meio de tanta gente mais empenhada que eu me deu essa profissão que eu queria mas não sabia se podia. E naquela ocasião, como em muitas outras depois e quase todo dia, eu tenho isso comigo e ninguém pode me tirar: eu sou escritora, porque um igual me reconheceu.
E hoje – ainda- é o aniversário de Mário Gerson, e eu queria dar um carro novo a ele, mas não posso (escritora né gente?) então eu vou dedicar a ele esse textinho que segue com os votos de que o mar esteja sempre próximo do poeta e que as alegrias sejam sempre muitas e repletas de gargalhadas sonoras e espetaculares. E muito café na xícara bonita da sua tia.

 (E embora fosse mais legal um conto alegrinho sobre um aniversário, era isso o que tinha para hoje.)

                                        Júlio, o menino avião

Caminhou lentamente pela rua molhada sem se preocupar com as poças de água no caminho. Quando recomeçou a chover, respirou fundo, fechou os olhos e abriu os braços e um sorriso. Começou a correr em ziguezague fazendo barulho de avião. Puxava um caminhão de madeira por um cordão amarrado no dedo. A calçada ia acabar em breve, ele não viu. Parou de repente quando a mãe gritou seu nome pedindo que parasse, lá vinha o carro.

Virou para a mãe sorrindo, não era o Júlio, era um avião. Ela se aproximou e olhou o filho com um terno olhar de repreensão. Caminhou para ele e sorriu, disse que ele era um bom menino avião e que precisava ser assim, ou seria atropelado pelos carros da rua. E ficasse perto dela, a chuva estava ficando mais forte, não queria que se resfriasse. Precisaria tomar um banho quente quando chegassem em casa. Deixariam o milk-shake pra outro dia.

O menino torceu o nariz. Podia tomar o milk-shake molhado e sem gripar, tinha oito anos, já vivera a vida, era um homem, era forte e alto. Queria ser alto. O pai era alto, se fosse alto como o pai, seria forte também. O pai nunca ficava doente. O menino sempre escondia os sintomas de qualquer resfriado para não demonstrar qualquer fraqueza. A mãe nunca conseguia ser enganada, acabava incluindo no cardápio chás variados de acordo com a natureza da doença que ele queria esconder. Mas não conseguia lhe negar muita coisa que lhe fizesse feliz como o milk-shake fazia.

A mãe e o pai eram tudo para o menino. O filho era tudo para a mãe. O menino só não entendia a fração de sorriso que sumia do rosto dela quando ele lhe dizia que queria ser homem como o pai logo. Não gostava da hesitação da mãe, e tentava com mais força ser grande e forte como o pai. Às vezes empurrava a mãe como o pai fazia, mas não tinha força o suficiente. Ela nunca colocava os óculos grandes depois que ele a empurrava.

Homem é assim mesmo, os grandes e fortes, como o pai, não conseguiam conter todo o amor que sentiam para serem delicados nos carinhos como as mulheres. Por isso o pai às vezes lhe machucava. Por isso o pai às vezes machucava a mãe. Ele tentava ser como ele, que sabia tudo, que podia alcançar as prateleiras altas, que carregava as coisas pesadas, que era o homem da casa. Todos lhe respeitavam. Todos lhe ouviam onde quer que fosse.

O menino se envergonhava de não conseguir que seu amor deixasse marcas na mãe como o do pai. Acontecia de ela cobrir o rosto com aqueles potes coloridos que a tia usava para cobrir a própria feiura e esconder dos outros que não tinha nenhuma beleza. Mas a mãe era linda. Adorava ver a mãe dormindo de manhã, quando a luz do sol invadia a janela e deixava os cabelos da mãe quase dourados. Ele só lamentava que fosse tão menino. Tão fraco. Empurrava a mãe como o pai, mas ela lhe dizia que não fizesse isso que lhe machucava. E o pai fazia, e a mãe o amava. Temia não ser amado pela mãe o suficiente, já que não fazia como o pai. Não conseguia demostrar o amor que sentia por ela como ele o fazia.

O pai estava sempre a lhe dizer que só fazia isso porque a amava muito e por isso não conseguia se controlar. O menino amava a mãe sem se controlar também. Queria deixar a mesma marca. O amor deixa marca se for grande o suficiente. E ele a amava. Mas não tinha força o suficiente. Ali, na rua, só queria ter a mãe só pra ele um momento. Ela lhe daria o milk-shake, sabia que sim. Então, entrou na lanchonete da tia e pediu um duplo, de morango. A tia lhe perguntou se tinha dinheiro para pagar fazendo um gracejo mal disfarçando que lhe tratava feito menino enquanto lhe parecia respeitar um adulto. E ele estendeu as moedas. Estranhou, no entanto, quando a tia chamou a mãe no canto e lhe perguntou o que fazia ali, já não era quase hora do pai voltar? A mãe lhe mandou ficar na mesa do canto enquanto ela conversava com a irmã. Podia ficar quieto um momento?

Observou então a mãe conversar com a tia, ela parecia agitada. A Glenda lhe trouxe o milk-shake. E lhe disse que sentiria falta dele. Mas porque ela sentiria falta dele se ele ia até lá todos os dias? A moça sorriu sem jeito, ele percebeu. Não havia graça ali. Quando ela tomou fôlego pra falar, a mãe apareceu e disse que era hora de ir, ele disse que nem havia começado a beber o duplo morango. A mãe disse que hoje ele podia levar o copo, mesmo sendo de vidro. A tia correu para a mãe, entregou todo o dinheiro do caixa, disse que qualquer coisa ligasse. Tudo ia dar certo. Abraçou o menino e pediu que fosse bom para a mãe. Sentiria saudades, iria vê-los assim que pudesse.

Não entendeu quando a mãe o colocou no carro e lhe disse que tudo ia dar certo. O pai já vinha ali na esquina, mamãe, veja! Não soube por que a mãe chorava. Sentiu-se mal. Não entendia. No desespero de ser entendido, amava a mãe sobre todas as coisas, deu-lhe um tapa e disse que estava batendo nela porque a amava. Ela lhe olhou desapontada, ferida de morte. A mãe quase lhe deu um bofetão na cara, mas agarrou o volante com força e lhe pediu que parasse. Estavam indo embora porque a mãe lhe amava muito. Mas ele não entendeu porque ela simplesmente não lhe bateu. Ficou profundamente triste. Talvez ela não lhe amasse o suficiente.

Cassandra

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I
O homem caminhou saltando levemente a cada sete passos que dava, evitando que o pé encostasse em cada pedra do calçamento equivalente ao sétimo passo. As mãos, lavadas cuidadosamente sete vezes após tocar em qualquer parte do banheiro, vinham postas nos bolsos da calça de brim vincadas a ferro. Os sapatos eram marrons, de bico fino e sem enfeites. Enfeites de sapato eram para homossexuais. 
A padaria estava cheia. Aguardou sua vez na fila a uma braçada de distancia da mulher gorda a sua frente. Ela tinha um perfume barato, a coisa começou a lhe incomodar. A mulher segurava uma criança que ainda não era capaz de cuspir e a criança estava agitada. A mulher começou a sacudir a criança para a direita e para a esquerda cadenciadamente cantarolando uma música de ninar sobre um gato que estava no telhado fazendo barulho e incomodava o sono do bebê. No meio da música, ela disse “sossegado”. O homem de sapatos de bico fino cuspiu para o lado esquerdo. 
A criança não se acalmava. A mulher não calava a boca e nem cantava um verso diferente. Xô xô gatinho de cima do telhado pra ver se esse menino dorme um sono sossegado. Sossegado. O homem cuspiu para o lado direito. Xô xô gatinho de cima do telhado pra ver se esse menino dorme um sono sossegado. Cuspiu para o lado esquerdo. . Xô xô gatinho de cima do telhado pra ver se esse menino dorme um sono sossegado. Cuspiu para o lado direito. Começou a coçar o pescoço quando a mulher recomeçou, até que perdeu a paciência e berrou que a mulher calasse a boca ou ele ficaria desidratado. A mulher sorriu, não pode evitar.
Comeu a fruta dando vinte e sete mastigadas a cada pedaço, como fez com o pão e fazia com tudo. Bebeu o leite. Tomou o café. Pagou a conta e estava saltando a pedra do sétimo passo no caminho para casa quando percebeu que a criança inquieta estava nos braços da mulher três passos atrás dele. Apressou-se. Saltou no sétimo passo. Olhou para trás. A mulher gorda ainda vinha atrás. Dobrou a esquina com o coração acelerado. Entrou no prédio por pouco esbarrando no homem de macacão que carregava um abajur grande. Apertou o botão do elevador após estalar todos os dedos da mão. Aguardou.
A mulher gorda entrou no saguão. O elevador não descia. A criança brincava com um unicórnio. A mulher se aproximava com um meio sorriso encabulado. 
– O senhor estava na padaria, não é mesmo? – a mulher gorda disse.
– Sim. A criança se acalmou.
– É, ela gosta do unicórnio, é só dar o unicórnio que ela se aquieta. 
A mulher pegou o unicórnio e aproximou e afastou do rosto da criança fazendo barulhos infantilizados. 
– Então porque você cantou a música se o cavalo com chifres resolveria rapidamente? 
A mulher lhe encarou perplexa.
– Como é?
– Não entendo porque usar métodos paralelos se existe um resultado eficaz conhecido de fácil acesso. É idiota.
– O senhor é doido?
– Não. 
O elevador chegou e o homem do abajur falou com a mulher gorda. O homem do sapato de bico fino entrou no elevador e comemorou o silêncio aliviado. Enquanto dava os oito passos que separavam o elevador de seu apartamento, viu uma moça sair pela escada e correr para a porta vizinha a sua. Ela parou antes de esbarrar nele. Sorriu e pediu desculpas pela afobação. Não era nada. Ele a viu entrar no apartamento ao lado e voltou até a porta do elevador para contar os passos novamente. A mulher lhe havia feito perder a conta.
Comecei esse conto para a coletânea Cassandras, mas nunca cheguei a concluir. Essa é a primeira parte. As outras espero que venham depois.

A cola

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Costumava ir à escola ansiosa. Não era uma coisa pensada, só ficava ansiosa de ir pensando que derrubaria alguma coisa de outra pessoa, esbarraria em alguém, deixaria alguma coisa quebrar ou as três coisas juntas. Nunca pensou muito sobre se ir assistir aulas era uma coisa boa ou ruim, confortável ou não até o segundo grau e mesmo lá atribuía muito mais a alguma natureza rebelde tipicamente adolescente do que ao raciocínio comum. Ia à escola porque todas as crianças iam e isso era tudo.

Também costumava achar que as rotinas eram iguais em todas as famílias, em todos os lares. Todos tinham três crianças: a mais velha, uma menina que achava que todos os lares eram iguais; o do meio um menino que era a realização dos sonhos do pai, carregava o nome dele, e era um tanto boboca (usava muito essa palavra quando tinha oito anos) e o caçula uma criança estranha que parecia muito com o avô materno. À tarde, nas férias, as mães de cabelo curtinho levavam seus filhos para passar à tarde na casa dos avós, havendo revezamento entre os maternos e paternos.

Ia à escola para aprender coisas e não ser burra, que era o que a mãe dizia e morria de medo de ser burra. Fazia as tarefas de casa, tirava boas notas, participava das apresentações temáticas e era odiada por uma menina loirinha que tinha tudo cor de rosa. Achava que tudo era igual em qualquer lugar que fosse.

A única coisa em que não conseguia boas notas era na aula de Ensino Religioso. A ideia de Deus em casa era uma coisa um tanto confusa. A mãe lhe contara uma vez que Deus criara o céu, a terra e todas as coisas. A mãe só queria o seu bem, como todas as mães. Achava que Deus era muito ocupado, criou tudo, todos, cuidou de pequenos detalhes, como a mania de todos os filhotes de serem fofinhos. Respeitava muito Deus, evitava ao máximo pedir a Ele qualquer coisa. Ele era muito importante e não podia perder tanto tempo com os problemas bobos de uma criança. A mãe dizia que crianças não tinham querer e deviam fazer silêncio enquanto o pai dormia.

Óculos e chaves eram as coisas mais importantes para Deus. A mãe e o pai gritavam e clamavam por Ele quando um dos objetos sumia na hora em que eram necessários. Achava que só pessoas importantes que tinham a chave de casa, usavam óculos e tinham querer podiam pedir coisas a Deus e o que pedissem precisava ser tão importante quanto chaves, óculos e desejos.

Não sabia que existiam religiões. Nunca ia para a igreja e nunca relacionou Deus com as igrejas. Não conseguia se interessar pelas aulas de Ensino Religioso na escola. Um dia a professora contou a história de Caim e Abel e ela perguntou com quem Caim se casou, já que só a família de Adão existia no planeta. A professora a expulsou de sala, disse-lhe pra deixar de ser insolente. A mãe foi chamada, a filha estava tumultuando a aula. A mãe ficou orgulhosa do raciocínio da filha, discutiu com a professora, disse que a filha tinha um futuro promissor e ela não foi punida. Começou a se sentir mais inteligente do que os colegas. Não conseguia esconder a alegria da consciência de sua superioridade intelectual.

Na prova de ensino religioso, respondia displicente e não se incomodava sequer em saber a nota. Aquela prova, naquele dia, tinha uma questão que não sabia. Qual era a religião dela. Não tinha. Não sabia. Não sabia de rituais para louvar o Deus dos óculos e das chaves. Não podia deixar a questão em branco porque ia perder o futuro promissor. Seria igual aos colegas menos inteligentes. Começou a tremer. Não sabia o que responder. A ideia toda lhe escapava. Prometeu nunca mais deixar de prestar atenção no que a professora dizia, mesmo que a professora não fosse muito inteligente e não soubesse que não se pode casar entre irmãos.

Pensou que era uma promessa para Deus. Fechou então os olhos e pediu em pensamento, em nome da promessa pessoa importante que teria óculos e chaves e poderia ter vontades, que lhe mostrasse a resposta. Abriu os olhos e viu que a colega ao lado havia escrito “católica apostólica romana” na questão. Sorriu. Agradeceu. A professora só dava pontos para respostas iguais. Escreveu que era católica apostólica mas não escreveu o romana para que não desconfiasse que pegou a resposta de outra menina. Deus realmente ajudava, mas colar era errado, aprendeu isso. Ficou doente, consumida pela culpa de ter roubado a inteligência da colega, mas achou que Deus tinha permitido. Se Deus permitiu que ela tivesse um desejo, que crianças nunca tinham, talvez ela também fosse ganhar óculos e chaves. Foi a primeira vez que colou. A primeira. Deus permitia. Experimentou uma sensação de estar tendo vantagens porque era inteligente. Dormiu em paz. Sonhou que Deus a amava.

Diálogo 1. Desencontro

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– Então é isso? Você tá indo embora?
– É. É exatamente isso. Eu to indo embora. E você pode ser gentil e por favor me ajudar a pegar essas coisas da prateleira de cima?
– Então você vai embora e quer a minha ajuda?!
– Desculpa. Eu achei que nós fôssemos amigos.
-….
-…?
-Se eu não tivesse aparecido aqui eu só ia chegar e ver o apartamento vazio. Ou você ia me dizer?
– Não, eu não ia lhe dizer.
– Mulher é tudo a mesma coisa.
-Claro que sim.
-Então isso foi uma ironia?
-O que você acha, Mauro?
– Acho que isso foi sarcasmo.
-E?
-E é uma filhadaputagem sua ir embora sem me avisar. Eu moro com você, esqueceu?
– E você sempre odiou morar com outra pessoa, esqueceu?
-Porque dividir lugar é uma merda. Você sabe disso. A gente discutiu isso um milhão de vezes.
-É, a gente discutiu isso um milhão de vezes. E você veio morar aqui só por conta da vizinhança infeliz que você tinha. Eu sei, mas…
-Você tinha que me avisar que tava indo embora. E se eu não pudesse bancar o lugar sozinho?!?! Você nem pensou nisso, ne? Você nunca pensa em nada, é sempre essa bagunça.
– … É. Eu nunca penso em nada, né?
– Desenvolve…
-Não. Sai daqui, por favor.
– Olha. Eu só fiquei surpreso com essa sua mudança repentina.
-Não é repentina.
-É repentina porque eu sou o principal interessado e só estou sabendo por acidente. E a quanto tempo você vem pensando nisso?
-Desde que eu vi que não estava funcionando.
-E por que caralhos você não me disse nada? E por que você tá chorando? Eu fiz alguma coisa errada?
– Nada, Mauro. Eu que fiz. Mas eu vou me mudar e vai ser tudo como antes. Agora vamos mudar de assunto? Você viu a minha camiseta?
– E o que foi que você fez?
– Ai, tudo precisa mesmo ser dito?
-Tá! A sua linguagem corporal me diz que você tá com raiva e não sei o que foi que houve. E eu estou perguntando gentilmente se aconteceu alguma coisa e o que. Eu entro em casa e você tá arrumando mala e empacotando coisas e eu vejo que você vai se mudar e eu não fiquei sabendo disso antes… porra! Eu moro aqui também, não merecia um aviso? Nada? E você tá chorando como se nós fôssemos namorados rompendo e eu não sei o que fazer. Dá pra voltar à normalidade e me dizer alguma coisa? Se você não quiser eu volto outra hora e a gente conversa.
-“como se nós fôssemos namorados…”
-Ah! Então é isso?! Olha Fernanda, eu sempre disse pra não se apaixonar por mim… Eu não sou material pra amor. Eu aprendi a minha lição.
-Ora por favor….
-Por favor o que?
-Eu estou indo embora porque eu cansei de ficar esperando você deixar de ser palhaço
-Eu? Eu sou palhaço?
-E moleque. “Ah eu não sou material pra namoro eu aprendi a lição muito bem” Quantos anos você tem, 12?
– Você tá fora de si, eu volto depois.
-Claro, é a tua mania de ir embora e só ver o que você quer ver, né?
– Do que você está falando?
-De sempre. De todo dia. De você insistir em etiquetar coisas na geladeira com o teu nome. De você falar comigo pelo MSN quando é só bater na minha porta. De você me beijar e fazer questão de contar os contos das mulheres quase bonitas com quem você não fica por um senso de oportunidade que você diz que não tem, mas funcionou bem pra me levar pra cama. De você me pedir pra ficar quando eu tenho encontros, de você aparecer nos meus encontros, de você se aborrecer comigo por eu ter me atrasado pra coisas que eu marco com você e nunca dá as caras quando é o contrário. De você sumindo uma semana e meia depois que a gente transou. É disso que eu tô falando.
– A gente divide o apartamento. A gente não tem nada um com o outro. Mulher é um negócio estranho. Tão sempre querendo casar e amor eterno e ignorando a realidade. Que nem homem, mas sem nenhum senso lógico.
-É verdade. Somos todas loucas.
-Fernanda, eu não sou ….
-“Emocionalmente disponível”. Eu sei. Você vai insistir nisso até não ter sobrado ninguém na tua vida. Não vou conseguir levar todas essas coisas, você pode dar um fim nesses cremes e nessas roupas velhas?
– Ah… lá vem você com essa conversa mulherzinha sobre intimidade. Eu não quero namorar. Eu não quero me casar, eu não quero filhos, eu não quero dividir cama, banheiro,conta conjunta, poupança pra pagar faculdade de filho, macarronada de domingo, eu não quero essa porra toda. Eu sou um homem diferente, eu não vou cair nessa conversa de que intimidade é bom. Você é minha amiga e eu gosto muito de você, a gente transou algumas vezes e é legal conversar com você mas é isso.
-Eu não estou pedindo nada, Mauro. Eu só estou indo embora. Eu sei que você não está emocionalmente disponível, eu sei que você não vai estar. Então eu vou embora. Eu vou fazer mestrado em Sorbonne. Eu vou pra a França, Mauro. E você vai ser ‘lobo solitário’ sozinho aqui também.
-FRANÇA?! Como assim você vai pra a França? Que história é essa?
-Não tem história. Eu fiz uns exames um tempo atrás e eu recebi o resultado há algumas semanas e eu vou pra embarcar amanhã meio dia.
-Semanas? Você sabe disso tem semanas e não pensou em me dizer? E é que dá valor a intimidade. Mulher é tudo igual…
-Ah é?! A mulher que te chifrou também foi embora?
-Ela… ela não me chifrou. Porra. Ela tinha…
-Então ela fez alguma coisa muito pior. Ela fodeu com a tua vida e tá fodendo até hoje e você pensa que tá muito bem na fita com essa conversa imbecil de emocionalmente indisponível. Eu ia te contar, eu te conto tudo.
– Menos que você vai embora e vai pra a França estudar. Ou qualquer coisa útil.
-Não é justo. Eu ia te contar. Eu recebi a resposta no dia seguinte que a gente transou. Eu ia te contar, mas eu acordei e você tinha sumido. E você não voltou. E você nunca me disse onde foi. Eu não sabia o que fazer. Eu chamei o Eduardo, ele só não foi atrás de você oficialmente porque ele adivinhou que você é babaca e só tava sumindo pós sexo.
-Ai você correu pros braços do teu amiguinho babaca que quer te comer e só você que não enxerga! O “Dudu” aproveitou e falou mal de mim pra você porque você disse que a gente tinha transado, né?!
-Ele não falou mal de você, que inferno! Foi só uma observação. E você sumiu mesmo, não foi ele que inventou nada, você sumiu e eu fiquei aqui me sentindo mal. Mas eu entendi. Desculpa. Você não quer um relacionamento. Você não é emocionalmente disponível ou seja lá como se chame os teus traumas de namoros antigos e acha que isso é uma coisa válida. Eu respeito isso. E eu te conheço o suficiente pra achar que você pensou a respeito. Mas eu gosto de você. E eu quero um relacionamento e acho que nós poderíamos dar certo…
-… Fernanda, foi mal. Eu não queria. Mas a gente não devia ter transado. Você é minha amiga.
-Eu sei, eu só me deixei levar. Desculpa. Eu nem sei o porquê de tá insistindo nessa conversa, eu já tinha decidido nem tocar no assunto. Eu acho que nós poderíamos dar certo porque se você for pensar bem, a gente funciona bem junto. Mas eu não tenho mais como esperar você perceber nada. A gente sempre se deu tão bem junto. Eu vou embora, eu não queria sair de mal com você.
-Eu não quero perder a minha amiga. Por que a gente não sai pra comemorar a sua ida pra Paris? Liga pros teus amigos, vai ser legal.
-Eu já comemorei. Eu comemorei no dia que eu recebi. Você deve ter recebido os sms que eu mandei. Mas, sei lá, deve ter sido um daqueles dias em que você não se deixou ‘manipular’ pelas mulheres e não quis fazer a minha vontade vencer a sua ne?
– Pesou a mão.
– Você sumiu e eu não tenho tempo pra isso agora. Eu não consigo, entendeu? Eu vou embora. E é isso.
-E você pode me fazer um favor?
-O que?
-“Providencie uma chuva no seu primeiro dia. E não ande nunca com um guarda-chuva porque eu ouvi dizer que quando chove, a cidade fica mais bonita”.
– Poxa, você se lembra… Mas é cheirosa que a cidade fica na chuva.
-Lembro sim. Eu sei da tua paixão pelo cinema antigo. Você é minha amiga e eu gosto de você.
-Tá. Eu providenciarei a chuva. E, ó… Fica com o meu guarda chuva. Eu não vou precisar dele lá. Mas ó, a gente sempre vai ser amigo e eu vou esquecer isso e quando você for até lá, me avise. Adeus, Mauro.
-Adeus agora? Eu não vou mais te ver antes de você viajar?
-Não, eu to indo pra a casa da Ju, ela preparou uma festa do pijama. Você tá livre do cheiro do meu perfume. Haha. E o encanador finalmente resolveu o problema dos canos do meu banheiro. Você tá finalmente livre das minhas calcinhas penduradas no teu. Seja por uma razão ou por outra. Eu só queria saber onde será que foi parar a minha camiseta branca. Não tá em lugar nenhum  e eu gosto dela pra caramba… Mas deixa pra lá, eu vou pra a França e não há de faltar roupa na capital da moda, talvez só não sejam tão confortáveis, né?
-Deve ter perdido. Você é tão estabanada e bagunceira. Esse quarto é o caos, você precisa ser mais organizada.
-Bem, vou indo. Até, Mauro.
-Até, Fernanda. Boa viagem, sucesso. Me escreve.
-Mauro…
– O que?
– Nada. Me dá um abraço.
-hahah Eu vou sentir saudade.
-Eu também. Tchau.
-Tchau.
Ele fecha a porta. Respira fundo. Entra no próprio quarto e abre a gaveta onde guarda as cuecas. Ouve barulho de gente entrando e corre para a sala para ver Fernanda colocando as chaves na mesa.
-Não vou mais precisar.
-Ahh… tá certo. Tchau. Você vai de vez? Sabe quando esse curso acaba?
-Tchau.
Ela vai embora. E ele pensa em uns trinta jeitos diferentes de pedir pra ela ficar segurando a camiseta dela escondida na gaveta dele.

Mixtape de uma vida menos ordinária ou o melhor aniversário do mundo

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Na véspera do meu aniversário, Ela me vendou os olhos, colocou no carro e rodamos até perto da meia noite. Meia noite em ponto ela me pôs em frente a uma porta que, pelo tanto que a gente tinha rodado, não imaginei que fosse a do quintal da minha casa. E haviam luzes, brilhos, uma mesa pra dois, Eisenbahn e suco de cajá no balde de gelo onde o champanhe deveria estar. E eu a olhei surpreso, e antes que eu perguntasse alguma coisa sobre quando aquilo foi providenciado, ela me deu aquele sorriso dela e me puxou pela mão.
Na mesa, os pratos estavam cobertos e havia peixe e batata fritos pra mim, alguma coisa com galinha pra ela. Não lembro exatamente o que ela comeu porque eu odeio galinha e essa era uma das nossas discussões que eu mais gostava. Então, ela bateu palmas e a voz de Frank Sinatra começou a soar me desejando feliz aniversário. Entre a minha surpresa e o desejo de me esquentar do frio no corpo dela, tive a presença de espírito de lhe estender a mão num convite pra dançar. E tocou Strangers in the Night quando a minha mão lhe tocou as costas do vestido e eu consegui sentir a compressão suave dos seios dela no meu peito.
Ela tinha esse cheiro dela eternamente de banho tomado, de frutas frescas, uma coisa meio tropical e verão e primavera num pacote só constantemente usando coisas que lhe fariam mais encaixada numa praia em algum lugar quente e colorido com pessoas tomando bebidas com pedaços de fruta enfeitando o copo. E guarda chuvinhas coloridos. Eu sempre lhe dizia que eu adorava os vestidos de verão dela. Ela sempre gargalhava e dizia que de onde ela vinha, ‘vestidos de verão’ eram conhecidos apenas como ‘vestidos’.

Mas ela era minha, e isso a colocava na embaraçosa e desconfortável condição de moradora desse lugar que eu chamo de Inferno, pequeno e gelado onde o desconforto dela e meu com a temperatura me fazia prometer a cada ano uma mudança repentina rumo a alguma praia paradisíaca dolorosamente quente. Ela ficaria de biquíni, eu lutaria contra a vontade de esmurrar qualquer um que se aproximasse dela. E isso já é uma coisa complicada de ser feita com toda a quantidade de roupa que esse frio semi glacial que a cidade exige, ela já tem seus admiradores. Ela diz que são só pessoas gentis, eu sei a verdade, tenho quarenta e quatro anos, já vivi a minha vida. Aqueles vinte e cinco anos dela são deliciosos pra todo mundo, não é só pra mim.
As mãos dela passeavam pelos meus ombros e me estreitaram nela, como um abraço. Ela se chegando a mim, fosse por amor ou pelo frio, aquela velha nossa música nos unindo em respirações compassadas e a familiaridade da letra com a nossa insônia: que começou nela e eu adotei, me fizeram aperta-la mais perto de mim. Logo as coxas dela se enlaçavam nos meus passos e sem que lhe tirasse os olhos dos olhos dela, deitei seu corpo finalmente na nossa cama e, quando os primeiros acordes de under my skin começaram a soar, completamente esquecido do jantar que ela preparou misteriosamente pra mim que ficou lá fora, comecei a apreciar a batalha entre o meu toque e boca e a maciez dos seios dela, que cabiam exatamente em minha mão.
A pele dela, arrepiada ao meu toque, sempre parecia aguardar meus comandos. E cada parte daquele corpo era um banquete aos meus sentidos. Eu sabia onde tocar, onde lamber, onde a minha respiração bastava para criar os arrepios, os gemidos, e as contorções de prazer que a faziam ainda mais não só deliciosa, como mais minha. E ela era minha. E não há quem lhe conheça melhor seus cheiros e linhas do que eu.

Eu costumava me sentir velho demais pra ela, quando nos conhecemos. Confessou uma vez que achou que eu tinha uma crise de meia idade que me fazia preferir mocinhas, não é verdade. Hoje ela diz que cada um dos dezoito anos de diferença que separam minha idade da dela existem apenas porque ela é muito mais madura do que eu. Eu não seria interessante se tivesse a idade dela. Deus faz tudo certo e a gente não entende nada, ela diz. Minha falta de fé me faz sorrir. Acredito que nasci primeiro porque o mundo é uma piada de gosto duvidoso. E nada disso importa de verdade. Há muito mais sentido na vida quando me encontro entre as coxas dela. Havia muito sentido em todo o caos do mundo naquela noite, quando Sinatra tocava e minhas mãos passeavam pelo seu corpo bem feito e ela cantarolava entre suspiros que ela me tinha sobre a pele. Naquela noite, como em todas as outras noites que tivemos, aquilo era verdade.
A última coisa que ouvi antes de apagar foi ela me desejando ‘feliz aniversário, meu amor’ e ela própria desmaiando de exaustão nos meus braços. E eu mesmo não precisava de presente melhor. Eu não precisava de um novo presente desde a primeira vez que ela adormeceu nua do meu lado.

A manhã do meu aniversário tinha um cheiro de panquecas e geleias e um sol que eu não imaginaria. Levantei com um som de Mr. Sandman e fui sem fazer qualquer barulho até a cozinha, no faro. Ela não me viu observar sua dança desajeitada com a espátula de microfone enquanto me preparava o café da manhã do aniversário dos campeões, como ela sempre dizia. Sempre me surpreendi com o fato das minhas camisas ficarem melhor nela. Sempre gostei que o cheiro dela tivesse comigo o tempo inteiro, independente de eu estar ou não com ela e voltei pra a cama pra dormir mais um tempo, até que ela fosse me acordar com a bandeja do café da manhã surpresa do meu aniversário. Ou um dos gatos que ela trazia pra casa que apenas me toleravam enquanto eram devotados a ela. Ou um dos gatos tentando roubar comida que ela me fez.
E então ela me acordou com aquele cabelo preto naqueles palitos engraçados e uma bandeja de comida e tomamos café da manhã juntos naqueles nossos momentos de intimidade rotineira. Ela vestia minha camisa, eu vestia um cuecão. Ela ria dos meus absurdos, eu ria do jeito dela rir fechando o olho. Eu lhe perguntava como ela podia ser tão bonita de cabelo bagunçado, ela ficava corada. Ela sempre ficava corada quando eu lhe elogiava. Colocou uma música pra tocar, I need you (that thing you do), de uma banda já morta e começamos as palavras cruzadas do jornal. Nunca consegui ser mais rápido que ela. Nem ficar tão bem de óculos. Aquela foi a única mulher que conheci que me dava tesão físico e intelectual.
Eu lhe tirei novamente pra dançar naquele dia, disse que ficar mais velho me deixava preocupado. Ela era muito jovem. Eu era muito velho. Ela ia acabar arrumando um garotão e me deixando, e eu estava velho demais pra aquela merda de novo. Apertei seu corpo contra o meu mal disfarçando meus sentimentos de insegurança. Ela precisava ser pra sempre. Mas era ela, e ela sempre sabia. Cantarolou no meu ouvido e o toque dos lábios dela nos meus e o jeito que ela me fazia pender na cama dando um jeito misterioso de rebolar pra mim me tranquilizava quanto aos sentimentos dela enquanto me deixava com um tesão do cão. Segurei-lhe o quadril quando ela sentou no meu colo e me disse let’s get it on e me beijou.

Tocava ain’t no mountain high enough quando, sem se vestir, pegou a polaroid velha e começou a dançar pra mim daquele jeito canastrão dela, tirou diversas fotos minhas no meu estado de ser ranzinza quando ela começava a pular na cama. Eram vinte e cinco anos, mas haviam momentos em que pareciam 10. Ranzinza, porém feliz. Ela me chamou pra tomar banho com ela e lhe levar pra almoçar. Eu lhe sorri e cantarolei where you lead, e a música guardava a promessa de que eu iria com ela onde ela fosse. Até pro banho menos quente que o ideal naquele frio.
Naquele dia, almoçamos o que deveria ter sido o meu jantar de aniversário. Dividíamos um cobertor perto da lareira e ela me fez achar que eu era o eixo que segurava o mundo dela no lugar, como ela era o meu. E a minha cerveja ficou mais capaz de curar o mal do mundo vendo ela ler Hemingway com a cabeça no meu peito. Under the boardwalk era a trilha desse nosso almoço de inverno. Ela gargalhou quando eu lhe disse que tinha visto duro de matar no cinema, lançamento. E me chamou de velho, como uma piada dela, perguntou se eu não tinha vergonha de seduzir mocinhas tão jovens como ela e cantarolou Mrs. Robinson, nossa piada particular na voz de Simon e Garfunkel. Eu era VELHO, ela era uma criança. Não consegui não lhe dizer o quanto ela era linda sob a luz do fogo que eu nunca sabia se vinha só da lareira ou ardia dentro dela também.
O sol já ia embora quando ela me perguntou se eu estava tendo um aniversário feliz. Como seria ruim com ela ali, tão minha? Eu nem lembrava de um aniversário melhor. Ela sorriu e cantarolou say a little prayer no caminho da cozinha e me pedia pra escolher um filme pra ver enquanto jantávamos. Fiquei sentado na minha poltrona, trajando minha pose de dono da casa e tomando minha cerveja quando reconheci o cheiro do molho do cachorro quente especial nosso. Ingrediente secreto: infarto, como eu sempre a ouvi dizer. Exatos trinta segundos depois ela apareceu no vão da porta me pedindo ajuda e eu fiquei cuidando da panela do molho enquanto ela cuidava de outras coisas. Cantarolamos come on, let’s go e foi um jantar feliz.

Falávamos sobre filmes e eu lhe confessei que não tinha visto os filmes do Bogart, e então ela resolveu que era hora de corrigir um desvio da minha personalidade e fomos ver Casablanca. Era uma vergonha ter 44 anos e nunca ter visto Casablanca. Mas quando se fica mais velho, e deve ser uma das poucas graças de envelhecer, é que você realmente entende as coisas. Eu sei hoje que não poderia ter visto o filme sem ela. Então, secretamente para mim, o caos do universo se organiza me impedindo de ver um filme até que ela estivesse debaixo da minha asa, como eu pensei uma vez enquanto tomava banho. Tenho muitos bons pensamentos enquanto me tomo banho Ela se aninhou no meu braço depois de vestir meu moletom da faculdade, com os dizeres ‘tudo o que eu quero na vida’ e eu sorri, porque era verdade. Fechei os olhos e sorri e a apertei contra mim, pensando no momento feliz em que a minha moça de olhos escuros e as ondas do cabelo dela saíram dos meus sonhos e entraram no meu carro, como na música velha para me dar um aniversário feliz junto dela.

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