Listão de livros lidos em 2014

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  • Ano passado eu estava toda feliz que era ano novo (!) e tive a estúpida ideia de me dar uma meta (!!) sobre livros que eu leria no decorrer do conturbado 2014. A ideia original era ler os livros que eu já tinha e me dedicar aos grandes nomes que lotam prateleiras da minha estante, mas que eu não lia já tinha um tempo graças ao gosto recém adquirido por livros bobinhos despretensiosos.
    Ia começar por uma edição de As Ilhas da Corrente de Hemingway, mas essa ideia morreu logo de saída porque decidi que ia finalmente concluir os 3 capítulos que faltam pra terminar O Senhor das Moscas. Também não rolou. Eu ganhei um livro lá da segunda temporada de Percy Jackson e acabou vencendo a ideia de que leria todos os meus livros “inteligentes” quando terminasse os bobinhos.
    E ia ler um livro por semana.
    (!!!)
    Eu sabia que conseguiria. Só não achei que fosse ser tão apertado e tão questionável. No meio do processo eu peguei uma gripe que se recusou a me largar e entre febre, nebulização e soro, fiquei bem dois ou quatro meses e como não consegui voltar com o mesmo ritmo, dia 21 de dezembro faltavam dez livros em dez dias e foi ótimo correr contra o tempo.
    Vamos lá mostrar o listão:
    1.    O mar de monstros – Rick Riordan
    Comecei a ler os livros de Percy Jackson porque ganhei O Herói Perdido de natal e todo mundo disse que era legal ler Percy Jackson antes, daí tava eu obcecada com mitologia grega em pleno janeiro com todo mundo na praia.
    Curti pra caramba.
    2.    A maldição do Titã – Rick Riordan
    3.    A batalha do labirinto – Rick Riordan
    4.    O último olimpiano – Rick Riordan
    Que Héstia tome conta dos nossos lares.
    5.    A canção de Aquiles – Madeline Miller
    Como eu falei, eu tava obcecada. O livro conta a história da Ilíada, só que contada por Pátroclo, o marido de Aquiles. Comprei pela capa, pelo contexto. Comecei achando chatíssimo porque eu sou um caminhoneiro e toda aquele trelelê poético tava me enchendo o saco muito mais do que curtindo. Só que eu adoro a história e teve uma hora em que o livro simplesmente me pegou e do meio pro fim eu já tinha me apaixonado por Aquiles e desapaixonado. E por Pátroclo, que eu amo até hoje, por Ulisses e até por Agamenon e por Quíron. Adorei mesmo.
    6.    Abandono – Meg Cabot
    Comprei porque tava na vibe da mitologia grega, ai comprei esse porque era baseado no mito de Perséfone. O livro é uma droga. Nem vou terminar a série. Mais fraco que caldo de bila.
    7.    Segredos de Menina – Maitena Burundarena
    Eu adoro Maitena desde Mulheres Alteradas e achei que o primeiro romance dela ia ser um ótimo modo de abrir meu apetite pra outra coisa que não fosse grego (nessa época também viciei em iogurte grego. Pois é.
    Mas a verdade é que estava de ressaca ainda da Canção de Aquiles e não consegui me ligar muito a ele por umas semanas, mas ainda bem que me liguei porque o livro é ótimo. Ela narra o cotidiano de uma adolescente na Argentina dos anos 60 e é muito bom pra ver o cenário político peronista.
    8.    Diário de um banana: Rodrick é o cara – Patrick Jeffrey
    Fiquei de castigo esperando maridon na livraria e só deus sabe o quanto eu adoro essa série.
    9.    Os últimos quartetos de Beethoven – Luis Fernando Veríssimo
    Eu sempre volto a Veríssimo porque os amores mais antigos têm sempre um jeito especial de te fazer bem. E eu adoro o Veríssimo desde que consegui mais capacidade de leitura do que Ivo Viu a Uva.
    10.    Diário de um banana: A gota d’água – Patrick Jeffrey
    Novo rolê na livraria.
    11.    Os pequenos perpétuos – Jill Thompson
    A primeira gn do ano. Eu li porque eu adoro Sandman e compro tudo o que se ligue a Neil Gaiman ainda que rapidamente. Os desenhos são fofos fofos, mesmo que de um jeito meio esquizofrênico.
    12.    Habibi – Craig Thompson
    Eu ADORO esse cara desde Retalhos, mas nada me preparou pra Habibi. É totalmente espetacular. Ele relaciona trechos da Biblia com o do Corão e eu tenho um monte de coisa pra dizer dele, mas não quero estragar a surpresa. Leiam. Sério.
    13.    Eleanor & Park – Rainbow Rowell
    Ganhei esse livrinho e comecei a ler pensando que ia ser legal pra recuperar o tempo da minha ressaca pós Canção de Aquiles. Jovem tola eu. Eleanor & Park tem a sensacional característica de ser mais e ao mesmo tempo ser o que quem lê entende que seja. Quem só quer uma bobagenzinha sobre um garoto e uma garota no ensino médio encontra, mas quem quer um draminha complexo com auto aceitação e problema sério de verdade, também encontra.
    Eu nunca pensei que ia gostar de ler alguma coisa que uma pessoa chamada ARCO ÍRIS escreve, mas olha, fiquei fã de verdade. Totalmente espetacular e vocês lendo distopia idiota.
    14.    O filho de Netuno – Rick Riordan
    Precisava saber a sequência ne?
    15.    A marca de Atena – Rick Riordan
    16.    A festa de Delirium – Jill Thompson
    A sequência dOs Pequenos Perpétuos.
    17.    Bruxos e Bruxas – James Patterson
    Fiquei muito surpresa de descobrir que James Patterson escreve livros pra jovens adultos, pensei que só escrevia coisa de detetive que lia na adolescência.
    18.    Do amor e de outros demônios – Gabriel Garcia Marquez
    O AMOR DA MINHA VIDA ESSE HOMEM, vivo dizendo isso. Aí ele morreu e eu fiquei triste arrasada desiludida da vida e comprei um monte de livro que eu não tinha dele e agora to lendo um por ano pra economizar, já que a fonte secou pra sempre.
    Mas do amor e de outros demônios é espetacular desde o princípio, com aquela apresentação que sozinha é muito melhor que vários livros inteiros bons que existem por aí.
    19.    A casa de Hades – Rick Riordan
    A essa altura eu já tava me cansando de Percy Jackson
    20.    O começo de Tudo – Robyn Schneider
    Encontrei na internet uma lista de livros pra quem curtiu “a culpa é das estrelas” e esse tava no meio, eu li e gostei. Não é nada muito espetacular não, mas é divertido.
    21.    A extraordinária viagem do faquir que ficou preso num armário Ikea – Romain Puértolas
    Comprei pelo título, afinal, vamos combinar que é o melhor título de todos os tempos. O livro é super divertido e eu ri muito com a falta de noção mas não de oportunidade do faquir que ficou preso num armário Ikea. Vale muito a pena.
    22.    Mary Poppins – P. L. Travers
    O amor. O amor.
    23.    Todo dia – David Levithan
    Esse livro aparecia na lista dos livros pra quem gostou de A culpa é das estrelas, e achei promissor porque o David Levithan escreveu um livro que deu origem a um filme que eu gosto muito: uma noite de amor e música, mas a verdade é que eu li Todo Dia e o livro é uma merda.
    24.    O Dom – James Patterson
    É a sequência de Bruxos e Bruxas. A série é fraquinha, só li porque terminava sempre tenso e eu precisava saber como acabava. É uma distopia boba, mas é melhor que umas que vi por aí.
    25.    Claros sinais de loucura – Karen Harrington
    Esse livro é uma ternurinha. A menina coleciona palavras, tem um diário secreto e morre de medo de ficar louca. É uma história muito comovente de uma pessoa que passa por um inferno a vida toda e ainda precisa se fingir de que tudo está normal e lidar com coisas adolescentes normais como dar o primeiro beijo.
    26.    O fogo – James Patterson
    A terceira parte da série dos bruxos. Parei por aqui porque achei que terminou num gancho legal e dei por encerrada a minha necessidade de saber o fim. O quarto volume se chama O Beijo, pra quem tiver interessado. Eu não estou.
    27.    Os Goonies – Steven Spielberg
    Saiu pela Darkside a versão “romance” do filme que acho que vi mais vezes na vida – e todas ótimas – e eu tinha que ler. O livro é tão bom quanto.
    28.    De repente acontece – Susane Colasanti
    Engraçadinho nhem nhem nhem blé. Mesma coisa de um monte desses livrinhos saindo agora. Sexy sem ser vulgar, mas muito bobinho.
    29.    O projeto Rosie – Graeme Simsion
    Eu ADOREI esse livro. É a história de um professor de matemática com os dois pés no autismo nunca diagnosticado que nunca teve uma namorada que cria um questionário pra encontrar a esposa ideal. O livro é escrito pela ótica do personagem e tem um humor involuntário muito bem colocado. Emprestei a minha mãe pra ler e ela disse que era o livro de Sheldon de Big Bang Theory e que não tinha paciência.  (acabei de descobrir que lançaram a sequência desse livro totalmente delicioso e já estou aguardando ansiosamente a edição em português)
    30.    A lista de Brett – Lori Nelson Spielman
    Achei esse livro muito confortável. Foi bom me deitar na rede e não ver o dia passar porque estava vendo as coisas acontecerem, ora obviamente, ora não, mas sempre muito tranquilo. Rolou até identificação pessoal minha com a personagem principal, o que é estranho, já que eu sempre amo/sou algum secundário charmoso ou não.
    31.    Fangirl – Rainbow Rowell
    EU TE AMO, ARCO IRIS ROWELL.
    32.    O menino do dedo verde – Maurice Druon
    Tava adorando, aí no final tinha um anjo e eu odiei.
    33.    Todos os meus amigos são super heróis – Andrew Kauffman
    Esse livro é muito simpático. Talvez seja o livro mais simpático de toda essa lista. Meu amigo Filipe Sena me emprestou e eu me esqueci completamente de devolver até ver o livro nessa lista. Todos os meus amigos são lindos.
    34.    Uma longa queda – Nick Hornby
    Não sei se vocês sabem, mas Nick Hornby construiu meu caráter. E esse livro é totalmente maravilhoso – mas o filme é uma droga, não vejam – e eu queria muito ter pensado em contar uma história de gente que se conhece no alto de um prédio na noite do ano novo tentando se matar. Mas, como sempre, felizmente Nick Hornby pensou primeiro. Ufa.
    35.    O céu de Lilly – Fábio Barreto
    Gosto de Fábio Barreto desde os tempos do Orkut. E ele sempre foi ótimo, seja falando de cinema, seja escrevendo conto de ficção científica.
    36.    A velha casa na colina – Fábio Barreto
    Ele também é ótimo escrevendo terror.
    37.    Anna e o beijo francês – Stephanie Perkins
    Super fofex. Tem essa menina que vai estudar em Paris e a vida dela muda. É muito fofex delicinha, não tem tanta profundidade mas é bom pra um sábado de tarde na rede.
    38.    Lola e o garoto da casa ao lado – Stephanie Perkins
    É fofex delicinha que nem Anna e o beijo francês, vou continuar lendo a autora porque tem hora que tudo o que você precisa é um livro fofex delicinha.
    39.    Dizem por aí – Ali Cronin
    É o segundo volume da série “garota <3 garoto” e meu deus que livro retardado. Eu precisei dar crédito no começo do livro por ser um livro retardado pra meninas mas que não tinha um virtuosismo sobre como a virgindade é uma coisa que se você tem, você é boa e se não tem é biscate. “o começo de tudo” também é assim. Só que a medida em que o livro avança fica uma coisa bastante clara: se você é mulher e tem uma vida sexual ativa mas não tem um parceiro fixo jamais encontrará o amor porque o cara de quem você gosta de verdade vai ficar inibido. Ou seja. ¬¬. É tipo um skins, só que bem ruim, cheio de slutshame. Não tive paciência.
    Uma merda em dose pra cavalar.
    40.    Anexos – Rainbow Rowell
    EU TE AMO MUITO ARCO ÍRIS ROWELL!!!!!!!!!!!!
    Aguardando ansiosamente todos os outros livros dela irem morar juntinhos na minha estante.
    41.    Tamanho 42 não é gorda – Meg Cabot
    Meg Cabot é muito inconsistente. Ela precisa de um filtro. Mais Heather Wells e menos seja lá o que for aquilo em “Abandono”. E olha, tamanho 46 também não é gorda.
    42.    Música de Câmara – James Joyce
    Eu ganhei esse livro de um amigo muito querido de presente de natal e foi o meu primeiro livro de poesia na vida. Olha, eu adorei. A poesia de Joyce desse livro normalmente se perde na tradução, mas nesse caso o tradutor conseguiu recriar completamente a musicalidade do original. Totalmente espetacular. Não consegui largar.
    43.    Tamanho 44 também não é gorda – Meg Cabot
    Não é mesmo.
    44.    Daqui estou vendo o amor – Carlos Drummond de Andrade
    Como era bom o menino Drummond, né?
    45.    Educação – o roteiro – Nick Hornby
    Totalmente ótimo. Vejam o filme também.
    46.    A menina do capuz vermelho e outras histórias de dar medo – Angela Carter
    Tive um ou outro pesadelo relacionado com esse livro.
    47.    O presente do meu grande amor – vários autores
    Eu comprei apenas porque tinha um conto – ótimo – de ARCO ÍRIS ROWELL e acabei gostando de muitos outros e odiando outros. O livro é tipo 70% bom e 30% entre desnecessário e idiota.
    48.    Batman: a piada mortal – Alan Moore
    O amor. O amor.
    49.    Quem poderia ser a uma hora dessas? – Lemony Snicket
    Divertidinho.
    50.    Astronauta- magnetar – Danilo Beyruth
    Eu to curtindo pra caramba essas histórias da turma da mônica escritas por outras pessoas.
    51.    Astronauta: singularidade – Danilo Beyruth
    É melhor que magnetar. Mas eu gosto muito do Astronauta.
    52.    Bravura Indômita – Charles Portis
    Eu ADOREI esse livro. Só isso que eu comentarei.
  • 53. O Sangue do Olimpo – Rick Riordan
    que esqueci de colocar, mas li também.

10 livros que mais me marcaram – 1 – Crime e castigo

Publicado em Idiossincrasias, Livros
Quando eu li Crime e Castigo, eu não tinha mais do que 15, 16 anos. Acho que era 15 porque foi o tempo que aqui em Mossoró existia uma livraria séria, a A.S. Book Shop e eu me lembro de ter desenvolvido uma amizade com um vendedor – mas há boatos de que aquele foi o meu primeiro flerte, embora eu não tivesse noção disso na época, e isso diz bem o tipo de pessoa lesada que eu sou.

A livraria fechou não levou muito tempo e eu consegui comprar o livro depois de juntar o dinheiro do troco da coxinha com suco de cajarana do lanche da escola. Demorou muito, não negarei. Eu nunca recebi mesada e não era muito de pedir as coisas só porque eu queria. Só pedia as que eu precisava de fato e com certa urgência. Assim, juntei dinheiro para comprar o livro, mas, como eu recebia R$ 1, 50 para o lanche e só me sobravam R$ 0,20, demorou um bocado para eu conseguir cobrir cada um dos R$14,00 do preço da edição ouro da coleção da Martin Claret, A Obra Prima de cada autor.

Eu não sabia que livro ia comprar quando liguei para a livraria, e quando Leandro sugeriu que fosse Crime e Castigo eu topei. Eu me lembro que o livro chegou e pouco tempo depois começou a chover e, enquanto eu exibia orgulhosa o primeiro livro que eu comprei na vida, armei uma rede – saudades, rede – na área de sol – saudades, área de sol – na sala e deitei lá de banho tomado e um copão enorme de suco de limão bem forte e com muito gelo.

Não vi a noite se aproximar e fiquei totalmente imersa na culpa de Raskolnikov e em todo aquele existencialismo de Dostoievski. Foi meu primeiro grande clássico da literatura universal e foi muito importante para mim que o livro fosse compreendido pela criança que eu era quando li a primeira vez.

A segunda vez que li Crime e Castigo, eu já tinha vinte e um anos. E sou feliz de dizer que não entendi diferente da primeira leitura. Porém, obviamente, muito mais tirei da leitura. Crime e Castigo sempre vai ser um dos meus livros mais importantes. Não só porque foi importante para mim em cada uma das vezes que (re)li, mas porque mesmo com toda a distância entre minha vida classe média e a pobreza opressiva de Raskolnikov, eu fui capaz de enxergar muito mais do que o que havia diante dos meus olhos e entrar direto na cabeça do personagem como se todo o exposto fosse mesmo a minha verdade.

Foi Crime e castigo que me converteu em uma pessoa um tanto mais humana, mais preocupada com o andar da carruagem do mundo e foi a primeira vez que a preocupação com o outro e com o que o outro, próximo ou não, conhecido ou não, empático ou não, pode estar passando. E esse sentimento de mundo eu trago sempre comigo, até hoje. E ainda torço para que os dias de Raskolvikov na Sibéria lhe tenham sido breves, porque ainda acho que ele é do tipo extraordinário de gente.

Livros: Jakob von Gunten, de Robert Walser

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Jakob Von Gunten é o diário do próprio Jakob, enquanto foi aluno do Instituto Benjamenta, escola para a formação de servos. Um lugar perturbador onde se aprende a abandonar o impulso individual em nome do melhor servir, quase como uma lavagem cerebral mesmo. “Honroso para os pupilos é seu adestramento, isso está mais do que claro”. Sendo o adestramento também razão de críticas: “Para o inferno com essa brandura que só faz nos desencaminhar”, observa o rapaz.
Jakob está sempre lembrando sua família nobre e de posses e reafirmando sua decisão de crescer pelas próprias mãos, o que talvez reflita a solidão do próprio Walser. Jakob por vezes se questiona por sua decisão, exaltando a nobreza da família, para em seguida abraçar o servilismo. É um livro doloroso. Assombrou-me desde a reunião do Clube do Livro da Cia das Letras. Não é uma leitura simples, mas a dificuldade vem do questionamento que traz, mais do que por qualquer dificuldade que o livro apresente. É um livro angustiante, repleto de receios particulares e nos enigmas mentais do narrador, que por vezes se confunde com o incompreendido Walser, que só nos dias de hoje é amplamente aceito como uma das grandes influências da narrativa moderna e seca que vemos Coetzee e Kafka.
É interessante notar a sexualidade confusa de Jakob, uma sexualidade que viaja entre mulheres e homens sem chegar exatamente a lugar algum, ele parece apaixonado pela Sra Benjamenta ao mesmo tempo em que confessa sentimentos confusos pelo Kraus, colega de instituto: “Uma ocasião, ousei tomar-lhe a mão suavemente”, escreve em seu diário; e mais adiante: “Se, então, contemplo Kraus, apodera-se de mim uma satisfação profunda, maravilhosa”, sendo este Kraus o contraponto ideal à personalidade de Jakob.
Já nas páginas finais, Jakob, incapaz de ser plenamente servil, desafia o diretor e este lhe diz que ele jamais deixará o Instituto. Jakob expõe uma risada histérica, mas a desfaçatez de sua conduta não o impede de ficar no Benjamenta, ainda tentando calar seu pensamento interior até o desfecho. 
É aceito que o livro tenha notas autobiográficas. Então, podemos entender a obra de Walser como um tratado sobre seus dias no sanatório e muitas das frustrações pessoais do escritor são transmitidas e modeladas através de Jakob Von Guten. Jakob diz que só existe em suas questões interiores e mesmo ao abandonar o Instituto, não deixa a prisão de seus pensamentos.
Livro lido no Clube do Livro da Cia. das Letras.

Livros: Infância, Coetzee

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Neste primeiro volume de ficção autobiográfica (de uma trilogia que se completa com Juventude e Verão), um narrador seco e distante conta, sempre no presente, a dura experiência de deslocamento de um garoto sul-africano. Em uma sociedade baseada na violência – que por isso mesmo irradia para todas as instâncias do cotidiano -, entre negros surrados por motivos banais, professores sádicos e colegas de escola truculentos, John mantém viva, como pode, a identidade “diferente”. Tarefa difícil nessa infância nada rósea que J. M. Coetzee evoca: com um pai falastrão e perdulário, uma mãe excessivamente bondosa para esse mundo hostil e uma identidade familiar opaca – os Coetzee são de origem africânder, mas falam inglês em casa -, o menino John encontra refúgio só mesmo na introspecção, e o leitor testemunha a construção de uma personalidade fechada e solitária, que é a um tempo herdeira e vítima da brutalidade circundante.

Pra quem não recebeu o memorando, eu participo do Clube do Livro da Companhia das Letras. Mês passado a gente leu o livro do africânder Coetzee. Infância é o primeiro livro da trilogia ficcional autobiográfica que se segue com Juventude (2002) e Verão (2009).
Eu nem sou capaz de dizer o tanto que eu adorei o livro. Foi o meu primeiro Coetzee, mas deu pra perceber certas nuances do autor, mais do que do livro, logo de cara. E eu não sei se é porque eu também escrevo, mas eu tenho sentido que meu olhar de leitora também dá uma mudada quando eu vejo que posso aprender alguma coisa com o livro que escolhi.
A mim pareceu que o africânder é um sujeito que gosta mesmo de linguagem. E é muito minucioso com as escolhas que faz. Nada sobra, nada falta. A projeção emocional que o que é narrado cria fica por conta do choque ou deleite do leitor. O autor não sugere emoções. O narrador é sempre cuidadosamente distante, quase sádico, mas sempre impessoal. E só isso pra mim já valeu o livro. Mas o livro é mais do que isso.
Também gostei bastante de reconhecer certas nuances da minha própria infância na infância dele. A crueza da narrativa do africânder é primorosa. Há uma sensação de opressão que dura o livro quase todo, sempre levada com uma ironia delicada. Eu achei o livro enriquecedor, principalmente para mim, que me arrisco a escrever. A leitura é autobiográfica, é dura, quase hostil, mas a narrativa no presente e seu tom impessoal roubam do narrador sua qualidade de onisciente, sendo quase observador dos fatos.

Também chamou a minha atenção o fato da criança do livro não ser pueril como o que se costuma ver em explorações de infância. O pequeno Coetzee não se perde em delírios masturbatórios e a descoberta do sexo quase não importa. O que se vê é um personagem recortado de seu cenário, culpado da ausência de culpa, sem qualquer referência religiosa e familiar e com toda uma série de personagens quase caricaturados deles mesmos.
A estranheza com que você recebe o livro, e a distorção entre o que é narrado e como é narrado é a melhor parte da coisa. Foi quando eu entendi o Nobel do Coetzee. Foi quando eu sorri de novo por ter sido lembrada que autor é Deus no seu mundinho e tudo é possível dentro da literatura.
As melhores partes do livro, pra mim, são o capitulo dos castigos escolares e a descrição da Guerra Fria como desenho animado. Ah, também gostei do lirismo escondido no capítulo da fazenda. Mas gostei muito do livro inteiro, podem ler. Vale muito também pela relação com os fatos africanos que eu não tinha muito contato, mas gostei. Gostei tanto que quando acabei, reli.
Meu único pesar é o fato da edição que eu li, da Cia. Das Letras não trazer tantas notas de rodapé. Senti falta, não sou fluente em africânder e acho interessante esse relacionamento.